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domingo, 9 de setembro de 2018

A. M. PIRES CABRAL

A MÁQUINA DE COSTURA HUSQVARNA


1.

Havia em casa uma máquina Husqvarna
e às vezes a Mãe sentava-se a ela
e costurava.

Curioso, a Mãe não conseguia
costurar calada. Isto é: tinha de cantar.
E cantava muito e bem. Dir-se-ia que
a costura exigia encenação
de que cantar era parte obrigatória.

Sentado ao pé dela, ficava fascinado
pelo picar obstinado da agulha sobre o pano
ao ritmo com que a Mãe impelia o pedal

— e o picar lembrava-me o afã das pombas
devorando em vaivém os grãos de milho
que meu Pai lhes atirava à porta da farmácia,
nos dias em que estava de maré.


2.

Chegou porém o dia em que as dores nas costas
impediram a Mãe de costurar (mas não de cantar).

Ora, a fábrica Husqvarna, avisadamente,
à boa maneira sueca,
previa o caso de as mães não poderem costurar
e o corpo da máquina estava preparado
para, quando removido do uso normal,
se dobrar sobre si e embutir.

(Lembrava então uma ave exausta
que recolhe a cabeça sob a asa e cisma.)

Mas, como foi feita para ser útil,
sempre servia de mesa numa precisão.

Nunca mais vi pombas a debicar grãos de milho
no picar diligente da agulha.


3.

Acho que ainda se fabricam coisas Husqvarna:
motocicletas, corta-relvas, moto-serras,
ferramentas prestimosas, praticáveis.

Mas aposto que nenhuma dessas coisas boas
tem mães a cantar nela nem sequer
lembra pombas a ninguém.


Trade Mark, Cotovia, Lisboa, 2018.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A. M. PIRES CABRAL

[DIRIJO-ME A TI, GABRIEL]


Dirijo-me a ti, Gabriel, sem sequer saber se ainda vives. Mas isso é irrelevante. Porque o que eu realmente pretendo neste texto não é fingir que dialogo contigo, mas sim convocar a memória daquele que foi sem dúvida o maior e mais firme amigo que alguma vez tive: tu.

Lembras-te de como éramos aos quinze anos? De como éramos aos vinte e dois? Aos quarenta?

Lembras?

E não te dá vontade de chorar?

[...]


Singularidades, Cotovia, Lisboa, 2017.

domingo, 8 de novembro de 2015

A. M. PIRES CABRAL

[VOCÊ ENTENDE, CASTEL?]


— Você entende, Castel? Isto significa que há de facto uma lei do mais forte que rege a vida em qualquer parte do planeta, seja numa aldeia ignorada da montanha ou no palácio presidencial. E que uma pessoa pode ser muito civilizada e urbana, mas, chegado o momento de lutar pela sua sobrevivência, se tiver necessidade de ser cruel, será cruel. Era só isto que eu queria dizer.


Sancirilo (3.ª edição), A Ronda da Noite, Vila Real 2015.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A. M. PIRES CABRAL

EPÍGRAFE


Se algum dia alguém chegar a ler
este dizer agreste,
provavelmente pensará: que pálida lanterna;
não é deste metal que a luz é feita.

Calma. Pois não.

Mas quem assiduamente
visita os desvãos onde a noite se acoita
não precisa de mais que o clarão desta treva,
desta cegueira sem cão e sem bengala,
para no escuro rasgar o seu caminho
e nele ir progredindo às arrecuas.


A noite em que a noite ardeu, Cotovia, Lisboa, 2015.

domingo, 12 de abril de 2015

A. M. PIRES CABRAL

O POETA


[...]

O Poeta parecia finalmente mergulhado em paz interior, arduamente conquistada. Os seus lábios, ainda enamorados do verbo, não cessavam de mover-se: saboreava desse modo, imaginei eu, a doce acalmia que sobrevém a um parto bem-sucedido. Eu olhava embevecido e via naquele mover de lábios o sorriso cansado de uma puérpera que repousa no leito já com o recém-nascido nos braços. Coisa bonita de ver.

De súbito, os seus lábios começaram a mover-se mais depressa, com maior amplitude. "Vem aí outro poema!", pensei, excitado. "Eis que a força criadora se apossa de novo daquele espírito atormentado na perseguição do Belo." Temendo que se pusesse a levitar, senti-me tentado a segurá-lo por um braço, recomendar-lhe contenção, que estava num lugar público. Só não o fiz porque num sum dignus.

[...]

A navalha de Palaçoulo, Cotovia, Lisboa, 2015.

domingo, 24 de novembro de 2013

A. M. PIRES CABRAL

AMORAS SEGUNDO S. FRANCISCO


Como as inquietas aves ribeirinhas,
também nós fazemos em Agosto
a nossa safra de amoras,
evitando com prudência os picos
que as dificultam e tornam cobiçadas.

Bendita sejas, irmã silva, que nos dás
as amoras e os picos.

Que de tudo se precisa nesta vida.
(Na outra, por enquanto não se sabe.)


Gaveta do fundo, Tinta da China, Lisboa, 2013.

segunda-feira, 25 de março de 2013

A. M. PIRES CABRAL

FOI PARA ISSO QUE OS POETAS FORAM FEITOS


semear tempestades
e assegurar que cresçam
foi para isso que os poetas foram feitos

esgrimir com a mais idónea
das espadas: a coragem
foi para isso que os poetas foram feitos

namorar a perfeição
e às vezes alcançá-la
foi para isso que os poetas foram feitos



Resumo: A poesia em 2012 [de A vista desarmada, o tempo largo], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A. M. PIRES CABRAL

É FEIO APONTAR


É feio apontar para fora de nós.

Mesmo que seja para uma simples efígie,
e mesmo que essa efígie seja de uma mãe ausente,
isto é, morta, isto é, triturada prematuramente
pelas rodas dentadas da máquina insegura
e mal oleada a que chamamos tempo

e mesmo que nos tenha sido pedido
para apontar e pôr ar de quem diz
«eis aquela em quem penso dia e noite»
com a boina na mão em sinal de respeito

enquanto a câmara solícita regista
esse respingo de emoção por encomenda

que andará depois pelas gavetas
e umas vezes por outras virá à luz do dia
e invariavelmente gerará
uma lagrimazinha intempestiva

que, como se faz com as moedas,
possa ser introduzida na ranhura
do mealheiro das sombrias
memórias familiares,


Nós, os desconhecidos, org. de Daniela Gomes e Rui Pires Cabral, Averno, Lisboa, 2012.

domingo, 6 de maio de 2012

A. M. PIRES CABRAL

O QUE DIZ O RATO


Tenho um destino. Nasci
para roer o silêncio – e vou roê-lo
metodicamente

até que um dia se invertam os papéis
e seja o silêncio a roer-me a mim.


Resumo: a poesia em 2011 [de Cobra-d'água], selecção de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2012.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A. M. PIRES CABRAL

TUNNEL


E poi, di tanto in tanto,
nell'oscurità,
la ridondanza di un tunnel.

Dio, dov'ero io
quando la luce fu distribuita?


Le illeggibili pagine dell'acqua [de Que comboio é este], org. e trad. de Giorgio de Marchis, Bibliopolis, Nápoles, 2011.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A. M. PIRES CABRAL

PERGUNTAS


Alguém me permitiu que chegasse a esta idade
fazendo perguntas. Boa alma, essa
que leu em mim o aguilhão das dúvidas
e o achou legítimo e me permitiu que às vezes
fizesse umas perguntas de trazer por casa.

As outras perguntas, as menos correntes,
aquelas a cujo cofre só sábios têm acesso
(e para as quais aliás nunca encontram resposta,
tal qual eu para as minhas – estou vingado),
essas foram-me escondidas
como de uma criança o frasco da compota.

Ainda assim, impostos dessa forma
limites aos meus passos inquietos,
agradeço o benefício. Porque enfim

podia ter nascido sem a urgência
de inquirir coisa nenhuma.
Podia dar-me por satisfeito assim,
aninhado numa rábula qualquer.
Ronronar como um gato que o dono afaga
maquinal atrás da orelha enquanto lê.

Com acesso garantido a um lugar de balcão
com vista para a bem-aventurança.


Cobra-d'água, Cotovia, Lisboa, 2011.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A. M. PIRES CABRAL

RECADO AOS CORVOS


Levai tudo:
o brilho fácil das pratas,
o acre toque das sedas.

Deixai só a incombustível
memória das labaredas.


Aqui e agora assumir o Nordeste [de Como se Bosch tivesse enlouquecido], org. Isabel Alves e Hercília Agarez, Âncora Editora, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A. M. PIRES CABRAL

NORDESTE


Quien sujeta la brújula ve
ocho direcciones de mundo,
ocho maneras de estar.

El octavo es el Nordeste.


En algún lugar al nordeste [Algures a nordeste, traduzido para castelhano por José Luis Puerto e Jésus Losada], Celya, Salamanca, 2010.

domingo, 12 de setembro de 2010

A. M. PIRES CABRAL

MELRO EM GAIOLA (VI)


E todavia,
as risadas do melro na gaiola
fazem-me rasgões por dentro
como se em vez de riso fossem pranto.

Porque eu sou como ele:
alguém me reduziu o tamanho do quintal
até o quintal ficar isto que se vê
– e eu a defendê-lo a golpes de riso.

Como o melro, tal e qual.


Telhados de Vidro, n.º 11, Averno, Lisboa, 2008.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A. M. PIRES CABRAL

PERGUNTAS


Tenho sempre, na algibeira da noite,
algumas vigorosas perguntas de reserva,
prontas a disparar em legítima defesa
contra o negrume.

Algumas são pequeninas, vulgares
aspectos de pormenor.
Outras, pelo contrário, são enormes,
desabridas como a boca dum forno –
do género porque é que deste quatro,
e não seis, ou oito, pernas à rã.

Hoje ocorre-me fazer a menor de todas:
se foste tu que fabricaste o tempo
e a ele nos acorrentaste?
e com que barro? e com que raio
de segunda intenção?

Se é que não foi apenas por descuido.
Ou até casualmente, como acontece às vezes
ao cientista que faz experiências
e acaba por descobrir seja o que for.


Resumo: A Poesia em 2009 [de Arado], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A. M. PIRES CABRAL

NO CASTELO DE ANSIÃES


Demais sei eu que o que passou passou,
a história não é uma serpente
que se refaz em cada primavera,
mas quando muito morde a própria cauda;

que os que aqui moraram já nem ossos são,
soprou sobre eles o tempo
e extinguiu o pouco fogo que eram;

que cessou todo o ruído, de festa ou de querela,
dissolvido no ácido dos dias;

que os lugares onde acaso podia ter ficado
impressa alguma pegada acidental,
algum risco na pedra com vocação de história,
estão ocultos por silvas e aveia brava.

Demais eu sei que os horizontes
que vamos recolhendo do alto das muralhas
com as afectuosas pinças da alma
– contrariamente aos que moraram e morreram –
permanecem os mesmos:
perpétuo desafio ao vento e ao olhar.

Então, se tudo isso sei:
carne friável, minerais perenes;

e se com tudo isso me conformo, como homem
sobre quem também soprará
o tempo e está disposto a perdoar;

porquê esta água insubmissa
que devagar me molha o reverso dos olhos?


Novas Memórias de Ansiães (com Manuel de Freitas, Rui Pires Cabral e Vítor Nogueira), Averno, Lisboa, 2007.

domingo, 2 de agosto de 2009

A. M. PIRES CABRAL

CÃO MORTO


Fomos contemporâneos
este cão e eu

e eu sobrevivi-lhe

e isto é tremendo.


A Perspectiva da Morte (de Trirreme), org. Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

A. M. PIRES CABRAL

AS PROSTITUTAS


Naquele tempo,
elas desciam à vila, as prostitutas –
a única saída,
exactíssima resposta para a nossa
angústia seminal acumulada.
Vinham de Vale da Porca, ou outra
terra assim pasmada.
Traziam na cabeça lenços garridos,
na carteira de mão a triste história:
a sedução primária, a miséria espessa,
mas jamais o vício mercenário.
Nas eiras recebiam nossas águas,
de permeio plantados como reis.
Procuravam lisonjeiras acertar
seu êxtase fingido com o nosso.
Beijavam-nos, diziam: tão novinho!
Suportavam-nos insultos e arremessos.
Com mão experiente (mas não habituada)
guiavam-nos na bela, impreterível,
urgente aprendizagem,
concediam-nos crédito e carinho –
as tãos castas mulheres,
as prostitutas.


Antes que o Rio Seque (de Algures a Nordeste), Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

A. M. PIRES CABRAL

CASA EM RUÍNAS


O xisto das paredes acolheu
os poucos desejos. O telhado
cortou os grandes frios da geada,
desviou a chuva das enxergas.
Pelos postigos entrou alguma luz.
Rezou-se e morreu-se nessa casa.

Hoje as paredes vão-se aos poucos derruindo:
aproximam-se do chão de que nasceram.
Como se se executasse nela
um antigo memento: quia petra es
et in petram reverteris.

Há muito que o vento derrubou
a derradeira telha. Caíram de podres
as vigas do telhado, e há já alguns invernos
que deram achas para arder no lume.
Quase não há vestígios de postigos –
salvo uma floreira que parece ali
um capricho escarninho.

Cumpriu-se na casa um ciclo.
Hoje não tem serventia,
salvo para alguns animais furtivos
que a ocupam e lhe pedem afinal
as mesmas funções simples
que aquele que a edificou pediu outrora.

Na sua decadência persistente,
a casa mete pena, como todos
os sonhos que algum dia floresceram
e depois se foram esfarelando.

Está visto: as casas não têm
a mesma estouvada vocação
de eternidade
que atormenta os seus donos.


Arado, Cotovia, Lisboa, 2009.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

A. M. PIRES CABRAL

COMPUTADOR NO LIXO


Eis um computador
no lixo. E todavia
o crânio de lata teve memória dentro
– gigabytes dela! –,
fez as quatro operações,
aceitou versos
no seu imaculado
vazio virtual.

Agora já não soma
nem subtrai,
nem geme poemas, nem sublinha
erros de ortografia.
Os pingos de solda, precários
neurónios de metal,
perderam a memória.

Já que te antecipaste,
companheiro,
diz-me como é não funcionar.

E se a ferrugem dói.


Como se Bosch Tivesse Enlouquecido, João Azevedo Editor, Mirandela, 2003.