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domingo, 1 de fevereiro de 2009

A. M. PIRES CABRAL

COMPUTADOR NO LIXO


Eis um computador
no lixo. E todavia
o crânio de lata teve memória dentro
– gigabytes dela! –,
fez as quatro operações,
aceitou versos
no seu imaculado
vazio virtual.

Agora já não soma
nem subtrai,
nem geme poemas, nem sublinha
erros de ortografia.
Os pingos de solda, precários
neurónios de metal,
perderam a memória.

Já que te antecipaste,
companheiro,
diz-me como é não funcionar.

E se a ferrugem dói.


Como se Bosch Tivesse Enlouquecido, João Azevedo Editor, Mirandela, 2003.

domingo, 21 de dezembro de 2008

A. M. PIRES CABRAL

OVO


Parece-me isto um comboio,
mas pode ser um ovo.

Bem entendido, um ovo enjeitado,
por chocar.

Bem entendido, um ovo por chocar
que nunca eclodirá.

Onde os passageiros
se vão bebendo a si mesmos na gema
e dão bicadas fortuitas
e cada vez mais raras
na casca que não abre por dentro.


Que Comboio É Este, Teatro de Vila Real, 2005.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A. M. PIRES CABRAL

O REINO DAS GARÇAS


Decididamente,
aqui é o reino das garças.

São elas talvez, de tão tranquilas,
a chave do enigma
deste lugar de raríssimos rumores.

Algumas já se habituaram
ao tráfego dos barcos:
olham maquinalmente,
como um obreiro que cumpre
o dever fastidioso de contar
coisas que transitam
– cestos de uvas, barcos, horas,
outras aves –,
sem ordem do patrão
para abandonar o posto de vigia.

Outras, timoratos riscos brancos,
vê-se que temem o contágio dos poetas,
põem-se em fuga,
sobrevoando os juncos.

E eu a bordo sigo as garças:
às vezes sou a que fica,
às vezes sou a que voa.


Douro: Pizzicato e Chula, Cotovia, Lisboa, 2004.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

A. M. PIRES CABRAL

CONSELHO AOS INEXPERIENTES


Tal como os bifes,
é sempre bom fraccionar o grande Tudo
em pequenos, nutritivos nadas:

cabem melhor na boca,
digerem-se melhor, dão melhores fezes.


As Têmporas da Cinza, Cotovia, Lisboa, 2008.