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domingo, 11 de dezembro de 2016

ANA PAULA INÁCIO

OLD SHOES


orgulho
me
de trazer
presas
à sola dos sapatos
areias do deserto,
Senhor

travessias bíblicas


Anónimos do século XXI, Averno, Lisboa, 2016.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

ANA PAULA INÁCIO

[QUANDO M. ME ENVIOU SMS]


Quando M. me enviou sms
a perguntar plo programa de fim-de-semana
senti a angústia da página em branco de sexta-feira
do cronista de domingo
mas depois lá esbocei este plano,
mais uma mnemónica, diria:
1.º mastigar a angústia como uma chiclete
ao som dos Táxi da altura em que a cuspia
sem qualquer preocupação com a pegada ecológica;
2.º passar pela secção dos Perdidos e Achados da PSP,
do Metro e dos STCP para ver se encontraram um
coração que há dias que não sinto o meu;
3.º listar todas as músicas de língua inglesa
que expõem um broken heart no refrão;
4.º desfazer a máxima:
«Toi, tu est un blogueur.
Moi, je suis une blagueuse.» (que construí a pensar no O'Neill)
sentindo-me digna de uma serviçal de Penélope, que as devia ter,
escondidas nas dobras da história, como escrevi a Z;
5.º rever o filme de Eris Riklis e deixar-te
sobre a tua mesinha de cabeceira este bilhete:
«Não verei o limoeiro crescer!»


Aviso ao leitor: pode começar pelo último ponto, passar ao terceiro, eliminar o segundo e acabar no primeiro. Pode mesmo não sair do primeiro. Ou passar todo o tempo no terceiro. E, se chegou até aqui, pode mesmo ignorar este poema.


2010-2011, Averno, Lisboa, 2011.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

ANA PAULA INÁCIO

[OS MILAGRES ACONTECEM]


Os milagres acontecem
a horas incertas
e nunca estou em casa
quando o carteiro passa.
Hoje, abriu a primeira flor
e eu disse é um sinal.
Olho em volta: estou só
trago esta sombra comigo.


Vago Pressentimento Azul por Cima, Ilhas, Porto, 2000.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

ANA PAULA INÁCIO

HOMENAGEM A 4 POETAS E 1 CINEASTA


Livra-me das tentações
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
— foda-se! —
de morango.


Telhados de Vidro, n.º 11, Averno, Lisboa, 2008.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

ANA PAULA INÁCIO

[PARTIR COM OS BARCOS]


Partir com os barcos
e ferir os dedos
ao puxar das redes.
Mas o sangue, que se confundirá nas malhas, não será
ainda tão significativo como aquele que verterá o peixe
ao cair nelas.


As Vinhas de Meu Pai, Quasi, Famalicão, 2000.