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domingo, 15 de julho de 2018

ANTÓNIO BARAHONA

E, A PROPÓSITO DE VIAGENS


E, a propósito de viagens, recordo um serão em Sawa-Sawa (Moçambique): depois de longa caminhada pelo mato, eu deitara-me na esteira, exausto, ao lado do meu Shaykh que, à luz duma lamparina fumegante, derretia rapé sob a língua e murmurava uma oração.
Emudeceu, de súbito, satisfeito com o som do que dissera. E eu adormeci.
Acordei passados poucos minutos, com a sua voz a asseverar-me num tom deveras afirmativo:
— Só os homens que viajaram muito e correram mundo podem ser assim tão amigos e íntimos, como nós somos!
Eu nem sequer achava que tivesse viajado muito e comecei a imaginar que, com certeza, ele teria viajado muito mais.
E perguntei-lhe, curioso, após narrar-lhe as minhas vagamundagens:
— E o meu Pai, até onde foi?
— Quem? Eu? — retorquiu o meu Shaykh, surpreso. — Eu nunca saí desta aldeia!


Aos pés do Mestre, Averno, Lisboa, 2018.

sábado, 29 de abril de 2017

ANTÓNIO BARAHONA

SÓ O SOM POR SI SÓ


Só o som por si só
fechou (em aberto) um poema
muito perto de Deus,
na ciência da ignorância
e ao relento.

Sacudo o pó da cabaia:
a viagem conti-
nua
sem distância
através do silêncio.


Só o som por si só, Alambique, Lisboa, 2017.

domingo, 31 de janeiro de 2016

ANTÓNIO BARAHONA

VOZES


Voz de Camões na minha voz mistura
frases tão simples repetidas, hora a hora,
e enquadradas, verso a verso, na medida
de sonetos de voz perfeitamente pura

E também de Pessanha a voz infiltra
na minha voz a compleição sonora
e ainda a Quental sou devedor da técnica
de retratar a alma com esquadria

Na minha voz há ecos de tom íntimo,
poetas a falar, aberto o peito ao sôpro
e santos d'olhos postos no som mystico

Na minha voz há morte acumulada
e a minha própria vida é já matada
que só porque vos vi, minha Senhora.


Noite do meu Inverno, Averno, Lisboa, 2016.

terça-feira, 26 de maio de 2015

ANTÓNIO BARAHONA

ERA UMA VEZ EU


Era uma vez
Eu nu e cintilante
prostrado ante a Magnífica
Mulher Mágica
Eu num submarino
a percorrer-me as veias
Eu a chicotear um cavalo sem pernas
Eu a partir ostras ao centro do pátio
Eu a separar a treva do vidro
Eu amestrando um exército de formigas brancas
Eu no fundo de uma cratera
a escrever o poema diligente do Sol


Pássaro-Lyra, Averno, Lisboa, 2015.

segunda-feira, 24 de março de 2014

ANTÓNIO BARAHONA

[O MERGULHADOR TOCOU O FUNDO DO FUNDO]


O mergulhador tocou o fundo do fundo:
sai-lhe sangue dos ouvidos e das narinas;
o coração esmagado sob o pêso da água
fragmenta-se; a corola das algas
coroa o seu martyrio

Oh, a embriaguês da água é maior do que a do vinho!
O afogado, antes de morrer, não se aflige:
contempla o azul esverdeado, a cintilação,
os pormenores da luz quieta no movimento,
as mãos transparentes

O mergulhador continua a descer
para lá do fundo do fundo,
onde não há fundo: só desconhecimento de si próprio
e um mêdo infinito

À medida que vai descendo
o mergulhador sobe no abysmo.


Pátria minha (2.ª edição, integral e definitiva), Averno, Lisboa, 2014.

domingo, 5 de maio de 2013

ANTÓNIO BARAHONA

AUTO-RETRATO


Apenas um homem
com febre de versos:
minha sã imagem
nua até aos ossos.


As grandes ondas, Averno, Lisboa, 2013.

domingo, 31 de março de 2013

ANTÓNIO BARAHONA

O ÚLTIMO COPO


Só se lembrava, com nitidez, de beber o último copo, compulsivamente, como um condenado à morte. Engolira o líquido dum trago e rangera os dentes: ei-lo no inferno.
 
O resto era muito vago. O rosto aureolado da empregada de outro bar, até onde se arrastara, a perguntar-lhe se queria que chamasse um táxi.
 
– Só se vier comigo, respondera-lhe a rir.
 
Depois, deslocara-se, aos zigue-zagues, na direcção das Escadinhas do Duque, que começou a descer a quatro e quatro, soltando uivos como um lobo ferido de morte. Os uivos, às vezes, confundiam-se com gritos de pavão.

 
Resumo: A poesia em 2012 [de Maçãs de espelho], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

domingo, 2 de dezembro de 2012

ANTÓNIO BARAHONA

OS PASSOS DO COELHO


Ontem, 15 de Setembro de 2012,
efectuou-se uma manifestação pacífica
do povo português, que, bem domesticado,
não partiu montras, nem agrediu a bófia,
talvez porque a fome ainda não é muita.

Mas houve uma excepção:
um jovem de vinte e um anos
partiu, aos cacos, a realidade em foco
e agrediu a própria vida
imolando-se pelo fogo.


Telhados de Vidro, n.º 17, Averno, Lisboa, 2012.

sábado, 19 de novembro de 2011

ANTÓNIO BARAHONA

CORRESPONDÊNCIA COM ALPHONSE DE CHATEAUBRIANT


Fugir, fugir o mais depressa possível
para o cume da montanha,
onde a neve não derrete
e, solitário, respirar neve,
tomar banho em neve,
esfregar-me com neve,
rolar na neve,
comer neve,
fazer-me, a mim próprio, de neve,
até sentir bater,
em redor de mim
e dentro de mim,
um coração de fogo.


Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

ANTÓNIO BARAHONA

ORIENTAÇÃO


Escrevi milhares de versos
para esquecer. Amei algumas mulheres
para lembrar. Agora já posso dizer
o som em carne viva.

A cidade assemelha-se a um acampamento
abandonado no deserto. Os nómadas
partiram nos seus camelos, com provisão
de tâmaras e água.
Há restos de detritos, sinais de trânsito,
folhas arrancadas a revistas pornográficas,
ao sabor do vento, por entre pétalas sêcas.

Há resíduos de sítios onde estive contigo,
fragmentos de versos de vidro, tudo
muito nítido, anotado, vincado a oiro.


O som do sôpro, Poesia Incompleta, Lisboa, 2011.

terça-feira, 29 de março de 2011

ANTÓNIO BARAHONA

PULSAÇÃO


Perene é ser soneto: eis do futuro,
essa canção com oitocentos anos:
sábios, mil sons ecoam bons sopranos,
no timbre d'árias tensas de ouro puro.

Catorze versos a fundir degraus
(ligas de cobre e prata e elixir)
refeitos pra durar até que expire
seu último cantor, à flor do caos.

Perene é ser soneto, que reside
na cópia à rasa essencial do verbo:
tal como a roda, o cubo e o triângulo,

vem inscrito no código soberbo
de quem tece um casulo e sente livre
o sopro do seu sangue num coágulo.


Resumo: A poesia em 2010 [de Criatura, n.º 5], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

ANTÓNIO BARAHONA

ARTE POÉTICA


Por cada verso feito quantas noites
desfeitas e mulheres transfiguradas,
madrugadas, cidades, auto-estradas,
montes de cartas, mortos e ausentes.

Por cada verso feito me despeço
deste mundo, em pedaços repartido,
pois só consigo reunir-me quando fundo
império de poema nunca escrito.


Criatura, n.º 5, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2010.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

ANTÓNIO BARAHONA

ALFARRABISTA


Hoje comprei um livro de Raul de Carvalho
por um euro, o que considero um escândalo!
Os poetas, regra geral, sempre foram pobres,
mas a sua poesia vale muito mais do que
o peso de mil resmas de rouxinol em oiro.
Isto, evidentemente, pouca gente sabe.
Se muita gente soubesse
os poetas seriam todos ricos.


Telhados de Vidro, n.º 12, Averno, Lisboa, 2009.