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quinta-feira, 10 de junho de 2010

domingo, 31 de janeiro de 2010

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

LUCIDEZ


Em cada instante, a poesia
Morre em mim.
E a mão certeira que a escrevia
Escreve assim:

Qualquer poesia alheia
Não pode ser comparada
Com esta minha, tão cheia
De nada.

Quem a lê logo conhece
Que é
Aquela que não merece
Nem nota de rodapé.

E, se a estudou, sabe agora
Que perdeu a inspiração.
E cora
De lhe haver dado atenção.

Quem sou de mim foi-se embora:
Pára, de vez, coração!
(Mas dilacera-me a espora:
– Ainda não!)


Ainda Não, Averno, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

SAUDADES DO QUE NÃO FUI

Para Manuel de Freitas

Saudades da boémia que não sei:
O excesso de bebida. O charro.
(Eu sempre fui respeitador da lei,
Mas de barro.)

Saudades do balcão com a amizade
E o copo de cerveja.
(À noite, despe-se a cidade:
Único corpo nu que me deseja.)

Saudades do carinho
No ombro, na coxa, no cabelo.
(A mão da morte entorna o vinho
À sede de bebê-lo.)

Saudades desse alguém
Que não sei onde mora.
(E não sei de onde vem
Quando demora.)

Saudades do amor
Que nunca foi o meu.
(E de que sou acusador
E réu.)

Saudades a exigir ao velho
A vertigem da fuga.
(Mas não se pode destruir, no espelho,
A ruga.)

Restos de Quase Nada e Outras Poesias, Averno, Lisboa, 2006.