Mostrar mensagens com a etiqueta Armando Silva Carvalho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Armando Silva Carvalho. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 1 de junho de 2017

ARMANDO SILVA CARVALHO

1938-2017



sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

ARMANDO SILVA CARVALHO

QUADRA


A erudita fala dos poemas lentos
A escura idade dos olhares perversos
A clara noite dos santos eruditos
O eco obscuro dos preclaros versos


O que foi passado a limpo [de Sol a Sol], Assírio & Alvim, Lisboa, 2007.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

ARMANDO SILVA CARVALHO

[PELA CORDA FRÁGIL]


Pela corda frágil
das palavras
as mãos impacientes destes versos
descem
com um cuidado de dominicano
ao entrar na missa.
O domingo da vida veio ao meu encontro.
E eu deito-me nas pedras,
obediente
ao fogo.
Um cão. Um cão de deus.
E que não larga
nunca
as calças de Caeiro.


Verbo: Deus como interrogação na poesia portuguesa (org. de José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia), Assírio & Alvim, Lisboa, 2014.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

ARMANDO SILVA CARVALHO

OS ÓCULOS DO SR. PESSOA


Ouvi hoje dizer que o poeta sr. Fernando
Pessoa operou uma ruptura
com a lírica tradicional.
Diziam também que pensou em inglês nirvânico
e fez do vocabulário lusitano
a sua pátria.
Tudo isso me parece perfídia
de quem não soube olhar na rua a sua voz.
O poeta sempre soube ser o máximo canibal
entre todos os homens.
Por vezes, o sr. Pessoa sentava-se nas poltronas
da impotência e deixava arder o vidro
dos seus óculos.
À luz que se acendia sucumbia.
E todas as palavras tremiam a um canto do mundo
cansadas do seu baile de máscaras.
O fulgor da catástrofe
não ofuscava ainda a miopia sábia
dessa estranha – pessoa.
Digam e propaguem isto em memória sua.
Que eu nunca fiz de coisa alguma
a minha pátria.


Os poemas da minha vida [de O livro de Alexandre Bissexto], org. Eduardo Lourenço, Público, 2006.

quinta-feira, 31 de março de 2011

ARMANDO SILVA CARVALHO

SE TU POTEVI, O SOL DA QUELLA VISTA


Meu caro, a inércia é filha do frio, este filho do tempo,
Pai de todos os males.
Tenho dentro de mim um meteorologista
Disfarçado de poeta húmido.

O sol que tanto reverenciei em puro êxtase,
E cantei como se ele fora
A aurora do futuro
Mudou-se por mim em lua despeitada.

Esconde-se essa senhora,
Umas vezes altiva, outras vezes submissa,
Troca de face, de porte, de vestido,
Não me sabe entender no meu pensar sisudo.

Não sabe ou então sabe de mais,
Que a minha cabeçorra não vislumbra a ciência
Que ma desvela pálida,
Ou amareladamente inquietante.

Emimesmado estou, que é o mais correcto
Para quem de si só cuida conhecer o pouco
Que os deuses autorizam. Não durmo, não me atino
E queixo-me de tudo.


Resumo: A poesia em 2010 [de Anthero, areia & água], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

domingo, 26 de julho de 2009

ARMANDO SILVA CARVALHO

O FRIO


Tocar com a língua
na cúpula do ar.

Acomodar os víveres
movimentar o vento.

Fazer deste poema
um frigorífico.

Nas prateleiras ácidas
o silêncio (duplo) dos peixes;
o choro terno e tenro
da hortaliça.

Tocar com as palavras
na cápsula do mar.

Incomodar os vivos.
Mexer na carne com dedos
subversivos.

Impor aos homens
esta abundância fria
colhida nos catálogos.

A elegância
dos ovos
em repouso.

Um mulher serena sonha
com o frio; corre-lhe
pelo corpo o leite desnatado
e fica nos anúncios
pensativa.

No íntimo do corpo
há fendas numeradas
onde o fresco se atreve
a conservar os nervos.

Está na hora
de refrescar a boca.

Donas de casa
e pensadores diários
eis aqui uma demonstração
gratuita do frio.


A Perspectiva da Morte [de O Comércio dos Nervos], org. Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

ARMANDO SILVA CARVALHO

[VIAJOU SEMPRE ENTRE NÓS O RISO AGUDO DOS CÍNICOS]


Viajou sempre entre nós o riso agudo dos cínicos.
Houve palácios de palavras no ar ao nível do volante
Ou então uma perna de seda, umas calças eróticas
Nas maiores noites de glória da mão que te controla a força.

E sempre esse mau ciúme do teu génio
Em baixo, numa segunda instância
Das mudanças do sexo.


O Amante Japonês, Assírio & Alvim, Lisboa, 2008.