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domingo, 19 de julho de 2009

CARLOS BESSA

[COM UMA DISCUSSÃO ENSAIAR A MORTE]


Com uma discussão ensaiar a morte
Ou requerer a pose, um reinado. Sim
Agarras-te aos encontros, à amizade
Sobretudo a essa civilização do bom dia
Boa tarde. Mil modos de laçar a gravata
Cortar as unhas ou cruzar os braços
Para que do desejo não transpareça
Senão uma pequena falta, facilmente desculpável.
Mas a sociologia, como a psicologia, meu caro
Há muito te trazem no catálogo.


Lançam-se os Músculos em Brutal Oficina, & etc, Lisboa, 2000.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

CARLOS BESSA

SOMBRAS


Em agosto, à sombra de uma esplanada
Da Batalha, no Porto, a beber cerveja
Água tónica, ruidosos e contentes, todos.
Ele com um livro de Gil de Biedma.
Folheia-o enquanto um aventureiro da guitarra
Dedilha a sobrevivência dessa vagabundagem
Que já foi literatura e cinema.
Lembra-se, então, de um homem que vendia poemas
Para comprar laranjas ou de um outro que
Os dava a troco de um sorriso.
As arestas da cidade ferem-lhe o pensamento.
Tem de tudo, angústia e humor
Arrumado nas estantes e sabe que
Quanto mais se vive com o tempo
Mais se morre com ele. É difícil
Permanecer em silêncio, continuar
No fingimento dessa felicidade.
As gargalhadas param. Talvez um poeta
Não saiba senão falar do que se esqueceu.
Pst pst, a conta, por favor.


Em Trânsito, & etc, Lisboa, 2003.

sábado, 6 de dezembro de 2008

CARLOS BESSA

APENSAR


Eu vou pensar. Ah, estúpido.
Pensar, não se pensa em português.
Em francês, sim. Ou, quem sabe,
em alemão. De resto,
pensar é bom se houver
um pouco de Ricoeur, Derrida
ou será de angina de peito?

Está bem, não penso.
Cito-te. Dou-te a mão.
Afinal, tu é que sabes,
que orientas,
que espalhas a vaidade
e a razão.


Telhados de Vidro, n.º 11, Averno, Lisboa, 2008.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

CARLOS BESSA

ALÍVIO RÁPIDO


A idade da poesia cedo nos abandona.
A prosa, pelo contrário, vai-se tornando imperativa,
obriga-nos às flexões da fala e encobre,
com elas, possibilidade tão bela, tão nobre.
Como se falar fora maneira de transformar
o menos em muito, e assim em paz com os sonhos
e com menos ânsias nos dedicássemos
à arquitectura das grandes causas,
a família, o emprego, as heranças.
Morre-se tanto à espera da sorte grande.
Por isso, quando dizes amanhã todo eu me esforço
por não cair no mau teatro dos cúmulos,
o do forno, o da panela ao lume. Mas, confesso,
as palavras enchem-se de crude e empoladas
e vulgares, nesse tom tão rente ao risível,
não dizem, planam, afectadas, vazias.
Só depois me lembro que o amanhã é próprio
da meteorologia e que esperar
foi sempre um propósito digno. Mais não seja
porque o coração precisa de uma ginástica
rude, que o endureça e torne elegante.


Dezanove Maneiras de Fazer a Mesma Pergunta, Teatro de Vila Real, 2007.