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sábado, 12 de novembro de 2011

CARLOS POÇAS FALCÃO

"ICH HABE GENUG"


1.
O balouçar
da roupa sereníssima
no bairro das traseiras
recorda-me o engano
que ilumina em volta o mundo.
Não saltes tão de força, coração, mas também tu
oscila sereníssimo no tempo que ainda tens
para não desesperar

2.
E estava-se tão bem

Mas depois abriu
depois fugiu
desapareceu

Depois da tua morte
continua a claridade
a luz faz doer os olhos

E não podendo já
falar ao teu ouvido
nenhum segredo escuto
para dizer ao mundo inteiro

3.
Agora outra vez a caminhar
atraso de propósito o bater dos vários ritmos

Não estou contra
não vou contra
apenas subo um pouco
e desacelero

Assim vou desdobrando
um fio de oração sobre a cidade
Depois dos triunfos
e das pequenas mortes
é só pela humildade (a terra da alegria)
que posso regressar


Público, Lisboa, 12 de Novembro de 2011.

domingo, 22 de novembro de 2009

CARLOS POÇAS FALCÃO

AS MATÉRIAS


Pescadores à linha. Rapazes sobre as ondas
incessantes. Jogos atléticos nas praias.
O meu cansaço é grande, estou de um lado
onde o mundo quase pára, muito atento
à posição do sol: não quero que a sombra
se transforme em erro. Por esta humanidade
passa o vento, traz-me as alegrias saturninas
da grande distracção. Eu sento-me nas rochas
entre as madeiras velhas, as matérias.
Não há tristeza nisto? Como pode haver?
É um dia a descoberto para as maravilhas:
pranchas sobre as ondas, algas no anzol.


El Arte de la Pobreza: Diez Poetas Portugueses Contemporáneos (de Movimento e Repouso), org. José Ángel Cilleruelo, CEDMA, Málaga, 2007.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

CARLOS POÇAS FALCÃO

[TODOS SABEMOS ACENDER UM FÓSFORO]


Todos sabemos acender um fósforo
a quem nos pede lume.

Talvez fosse uma conversa
possível até ao fim. Mas o mais vulgar
é ficarmos onde estamos
com o fósforo aceso à beira do rosto

— e antes de haver tempo
a chama queima os dedos.


Coração Alcantilado, Opera Omnia, Guimarães, 2007.