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quinta-feira, 30 de abril de 2015

DAVID TELES PEREIRA

BOZE IGRZYSKO


Contam que é o reino mais frio da terra.
Biblioteca de pretéritos em vermelho-mudo
sob os longos olhares de uma sereia esquecida,
ferida no crepúsculo deste morder invernal.

Diz-se por aqui que a verdadeira igualdade
mora no cemitério e hoje o meu corpo dorme
por todas as pedras, com o círculo quebrado
da bem ordenada coroa. Que poder tão inútil,
cinco soberanos incapazes de falar a verdade:
nos dedos uma folhagem de astros, mas na boca
o sabor negro e persistente desta história inabitável.

Contam que é o reino mais frio da terra
e é bem possível que o seja.
Como aquela palavra, a mais perfeita,
uma sílaba de lábios abertos para a névoa
e um toque de língua no tecto da voz.
Daqui nunca ninguém saiu vivo a não ser em sonhos
e, claro, como sempre se ouviu,
não é saudável engolir mortos sem os mastigar primeiro.


AA. VV., Quarto de hóspedes, Língua Morta, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

DAVID TELES PEREIRA

(EIN ZECHER IM MEER)

Seinen Kaisern und Helden
das geheime Deutschland

Piotr Michnik, o historiador, enforcou-se há duas semanas.
Quando finalmente o descobriram, oito dias depois,
era como se o branco encolher dos olhos rasgasse o coração do céu.
Formigas sobre o apodrecido revestimento do corpo,
cansado deste mundo graúdo,
saboreavam o seu rosto com melhor apetite.

Para quem morre só uma vez, estamos todos demasiado mortos.
Tome-se como exemplo o doutor Michnik
e a sua imensa biblioteca onde se enforcou.
Agora, para sempre, os dois corpos de um rei destroçado
repousam sobre o seu império de crepúsculos
e uma torrente de mar rude, incessante,
colheu-nos em murmúrios os ossos da história.

Má sorte a minha ou talvez não. Agora que penso
nisto à distância de uma chávena de café
a sua refutação parece-me óbvia:
Jovem, não vás à pesca com esse isco melancólico,
a morte raramente chega como chuva amável do céu
ao lugar em que cai
e nunca são as tuas ideias o que os insectos querem,
é o teu cadáver.


Criatura, n.º 6, Núcleo Autónomo Calíope da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2011.

domingo, 24 de outubro de 2010

DAVID TELES PEREIRA

CEMITÉRIO JUDAICO DA RUA OKOPOWA


No cemitério judaico da Rua Okopowa é como se o ar cobrasse juros,
memória irrespirável da carne, impressa no vento
que raciona as flores pelos vários mortos.

Perdemo-nos nos nomes imensos,
como o de Szimon Askenazy, historiador e estadista
que, ao que parece, lutou por uma Polónia independente
e hoje não tem quem lhe agradeça com flores o incómodo.
Não é o único por aqui a quem já lhe morreu tudo,
não é o único que paga com ausência de rosas
a conta de ter sido corpo em ruína e espelho
para outros se assustarem.

De Marian e Hannah não tenho notícia,
devem estar, como todos, a apodrecer,
mas apenas noutro canto qualquer.
Agora já só uma expedição de incautos vermes
lhes há-de acordar os ossos.


Criatura, n.º 5, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2010.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

DAVID TELES PEREIRA

(A LEI)
we were suddenly aware of ourselves
standing there, staring at the future
blindfolded.

Deborah Eisenberg


Em criança fui um homem sozinho numa casa de mulheres.
À excepção do meu pai, à excepção do meu avô e do meu irmão,
fui um homem sozinho numa casa de mulheres
que se vestiam de vermelho e, em segredo,
usavam nomes de princesas antigas
para que o sonho coubesse todo na sua absurda forma de cristal.
Às vezes sozinho, sem nunca as entender,
falava a sua própria língua, como se fosse acreditar sempre
que a minha mãe e as minhas irmãs inventaram, só para elas,
todo o pranto e todo o silêncio que cabem no mundo.

Um dia Raquel ensinou-me a brincar com bonecos vestidos de púrpura
e a imaginar neles Hannah, em oração, quarenta anos mais nova,
na sua cama rodeada de arame farpado, a apaixonar-se pelo senhor F.
e pelos seus olhos cinzento-anjo.
Foram de longe os anos mais felizes da minha vida,
os que antecederam a clausura do Inverno no meu peito,
no dia em que o meu avô morreu.

Só então chorei, quando vi o meu pai aproximar-se do corpo
para o tapar, antes que os corvos lhe ensinassem
o que há que fazer àqueles que morrem.
Mal se suspendeu o céu fez-se negro o seu rosto.
Comprei-o, comprámo-lo caro com o trabalho doloroso das nossas mãos.

Aquietaram-se as árvores, o vento, as mudanças
e os pássaros puderam enfim repousar do seu voo de séculos.
Trinta dias de sol e secura se seguiram e, à primeira gota de chuva,
o meu pai abriu as portas de casa e houve festa.
O meu pai abriu as portas de casa e saíram as mulheres
e entraram os senhores da lei. Disseram
Sempre que invocarmos o teu nome virás a nós e nos abençoarás
Nessa mesma noite ensinaram-me
que Deus desenha o tempo à régua e nunca ao compasso
e que para Ele os olhos não têm horizonte.

Anos mais tarde, quando já nenhum homem se importava
que chovesse ou não, deixei os meus antepassados sozinhos,
uns com os outros, a escrever a e a pensar a lei e o sangue,
como se isso fosse pelo menos metade da vingança que o Senhor
nos merece.
Uma fé inexistente talvez tivesse sido uma fé melhor,
no extenso bosque do meu peito negro,
com o meu avô, com o meu pai e com os seus olhos vazios virados para
Leste.
.
.
Biografia, Língua Morta, Lisboa, 2010.

domingo, 28 de março de 2010

DAVID TELES PEREIRA

RECICLAGEM PARA C.


O deus do Eugénio
é muito mais verde
quando lido pelos teus olhos.


Resumo: A Poesia em 2009 [de Criatura, n.º 4], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 20 de dezembro de 2009

DAVID TELES PEREIRA

RUA ADAMCZEWSKI


Na distante memória, a estreita rua Adamczewski
contorna o olhar até se abrir em direcção ao cemitério
que fica no cimo da colina, onde as crianças brincam
aos castelos numa árvore sem pássaros.

Aqui a sombra da morte é tão presente quanto a do fim de tarde;
felizmente ainda mal passámos do meio-dia e os velhos
bebem aguardente de ervas no café à espera de quase tudo,
menos do grito de uma flor que aguarda um destino.

Mas eis que ele soa e o nosso tempo altera-se,
como se de ouvido encostado ao chão pudéssemos
associar o triunfo das formigas ao dos nossos antepassados
a caminhar lado a lado pela Rua Adamczewski acima
em direcção ao cemitério, de braços dados, enquanto cantam
Se não são os mortos que nos guardam,
porque é que os deitamos aqui em cima?


Criatura, n.º 4, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2009.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

DAVID TELES PEREIRA

CÉLINE

para a Julie

A vida tem destes acasos literários:
um comboio, dois livros e a pior
das razões para nos apaixonarmos.
Tenho vinte e dois anos e o equivalente
em retratos teus – periféricos ou não –
catalogados de acordo com as horas psicologicamente
intermináveis do teu sorriso.

O nosso amor é como o lado vazio duma ampulheta,
ou seja, inverso ao próprio tempo que não marca
o surgir inesperado daquelas noites em que tudo acontece
numa peça de teatro à qual nunca comparecemos.

As tuas mãos são um jardim demasiado inconstante
para fazer fila e esperar a morte. Tens seis letras no nome
e antes que amanheça saberei em que lugar do meu corpo
cada uma delas cabe.


Criatura, n.º 2, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2008.