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quarta-feira, 13 de junho de 2012

DIOGO VAZ PINTO

[NO METRO, EM PÉ, AINDA A ACORDAR NO ABAFO SUBTERRÂNEO]

                                                                                                       Nesta manhã, resíduo do cansaço,
                                                                                                       os deuses acordam embrulhados em jornais
                                                                                                                                                                  RUI NUNES

No metro, em pé, ainda a acordar no abafo subterrâneo
da manhã. Repórteres cansados de uma realidade
que passa por nós em diferido e só acaba gravada
nos álbuns de viagens dos estrangeiros
que nos apanham nestas rotinas de segunda classe
quando engolimos os piores, mais espessos silêncios.

Tão depressa penso em nada como já sei tudo.
Quis ser estrela de rock, actor de cinema,
todos os sonhos mais baratos já foram para a cama comigo.
Depois, como putas sem alma, deixaram-me
a falar sozinho. Agora ajeito-me à ideia
de vir a ser um advogado. E que triste vou ser.
(Chego à minha paragem, volto à superfície
e os passos destrocam-se até chegar à Faculdade.)
Só me inspiram os escritores que regressam a casa
constantemente debaixo de chuva – mesmo que não chova –
acompanhando sombras migratórias
contra um placard que cospe sequências animadas
em technicolor. É bom saber que somos muitos,
nós que temos a vida engasgada entre golpes
publicitários. Já viste o novo da Super Bock?

(Uma aula, duas, três... Foda-se.)
Deixaremos a morte reduzida a escrito, convulsa,
com todos os finais prováveis, inglórios, mas
razoavelmente musicados. Sem surpresas,
alguma avaria no engenho explosivo a que chamámos
coração, essa fraude mediática. O meu,
mergulho-o no óleo da fritadeira, deixo-o alourar
– para mim quero um enfarte amoroso, mesmo que
tenha de lá chegar por excesso de colesterol.

(Hora de almoço. E agora o que é que me apetece?)
Quando nada me move, a caneta vai-me desapontando,
a colher a mexer o café, afogando um mosquito.
Li uns vinte e cinco poemas à hora do almoço
enquanto escrevia notas nas costas das mãos –
mais outro texto que só poderá dar em nada
com toda esta sucata que encalha nos meus versos.

Mutilo-me, deixo-me ir ao chão, fabrico
próteses, levanto-me e sento-me novamente,
reescrevo-me, emendo a estupidez dos deuses.
Daqui a nada pago a conta, vou ao W.C.,
tento urinar nos limites da sanita (cuidados
que «a gerência agradece») e depois volto às aulas
como um idiota responsável.


P. S.: Não leias este uma segunda vez, amanhã é igual.


Resumo: A poesia em 2011 [de Nervo], organização de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2012.

sábado, 30 de abril de 2011

DIOGO VAZ PINTO

A ALGUNS GRITOS DE DISTÂNCIA

más allá de qualquier zona prohibida
hay un espejo para nuestra triste transparencia
Alejandra Pizarnik

I

A dois gritos e meio de distância
a surdez que se mancha
das cores que me sobraram. Sinto
com a voz, e esta só me dói quando fica
presa às coisas numa evasão
descritiva, palavras abertas
como lâminas sonhando junto
aos pulsos.

A sul disto não encontro mais nada,
só a boca escancarada do silêncio, suja
aos cantos de ideias que
se despenharam, e nós,
dois ou três ou mais, escrevendo
enquanto lhe apodrecemos
na garganta.

Sob sóis apagados, flores que bebem
no escuro, escutando, cheirando
estas mãos e aquilo que lhes dou, e nada
disto é ainda poesia, mau hálito tão-só.
Um eflúvio de frias imagens rente
ao torpor destes lábios. Já o sabes,
agora anda – faz-me o favor –
desvia-te que me aborrece ter que
arrastar também esses dois olhos.


Nervo, Averno, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

DIOGO VAZ PINTO

I


Ainda que corras, vives do mesmo,
das cansadas histórias que ouviste
aos outros, nestas cidades de sal
e varandas com berros
de roupa estendida. Acordando,
entre os vinte e os trinta, verde
ainda, num colchão de molas baixinho,
armação de ferro que guincha exageros
e te chama herói nas alturas.

A respiração sustida no cheiro da
hortelã brava, a água do duche
a correr entre largos quartos de hora.
Chávena, cigarro e a cantilena dos pardais
afogados em lixo e no barulho das obras
— tempestade artificial destas manhãs.

Ao pequeno-almoço a escolha
entre sumos de frutas que nunca viste,
as torradas e omoletas com tudo
o que tinha na despensa. Ela a rir-se,
de cabeça meio inclinada, frigideira
na mão e a preferida entre
todas as suas poses. Um chupa
ao canto da boca e a mancha louca
do batôn sobre os lábios e à volta.
Embrulhado nesta fita caseira,
trama de polaróides a trepar pelas
paredes. As amigas todas, ferozes
princesas, com as mãos cheias
de arroz e confettis. E é isto:
a mania efabuladora, aquele tom
sidéreo e o fogo que larga em frases
sem grande sentido. Assim faz de ti
esta coisinha obediente, tola
e contente. «Vais buscar o pão?»


Criatura, n.º 5, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2010.

domingo, 19 de abril de 2009

DIOGO VAZ PINTO

ASTROLÁBIO


Guardei o recibo, que não serve para nada.
Dados impessoais: o nosso subtotal foi de 6.35
— pediste uma água mineral, um café
e uma sandes de ovo (em que nem tocaste);
pagámos caro por estarmos ali os dois,
na cafetaria do aeroporto com uma hora inteira
só para dizer uma palavra. Tudo
processado por computador, IVA incluído.
Uma operação que teve início precisamente
às 04:55 da madrugada. Agora
temos muito tempo para nos contentarmos
por já não termos que disputar as contas,
tu pagas os teus cafés, e eu sem ti
passo bem sem café.


Criatura, n.º 3, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2009.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

DIOGO VAZ PINTO

PELOS PIORES MOTIVOS


Uma última canção antes que deixe a lua
desistir de nós. Depois será tarde, mesmo
que insistas contra o tempo na repetição
do mesmo beijo, outro golpe fraco e triste,
sinal apenas de que nunca tivemos jeito
para mentir um ao outro. De um certo modo
(que não resultou melhor a nosso favor)
fomos sempre fiéis e até nos quisemos bem.

Esta noite, se eu prefiro assobiar, és tu
quem dança. Seguimos numa despedida
que não sendo a primeira nem a última
vem sendo a constante, e por ruas
que não se lembrarão de nós, retiramo-nos
desvirtuando a melodia, no conforto
estranho de estarmos juntos, mas dilacerados
pela presença de uma terceira sombra.


Criatura, n.º 2, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2008.