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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

EDUARDA CHIOTE

ESCULTURA


Prepara apenas o caminho
de ruptura
e não me digas do escuro,
do logro,
não me digas do engano
nunca,
nunca mais me fales assim da tua
própria voz.
O seu espírito
irá cinzelar
a carne,
a aflição das aves — seu longínquo
voo.
Este suspender-se-á
na mudez
de um palhaço,
na alma de um menino
de noite.
E dizendo-lhe é assim mesmo,
nada a fazer — pois mimo apenas,
e em minha
face roída
pela boca,
o sangue
que antecedeu a respiração
dos pássaros escondidos.
Na palavra
que mais não emite
nenhum sopro.


Não me morras, & etc, Lisboa, 2004.

segunda-feira, 14 de março de 2011

EDUARDA CHIOTE

ACEITAR A PERDA


Estou a morrer e ninguém me diz se por desuso
ou educado
esquecimento.
Para onde, em segredo
deserto.
Ouve: quem sou?
O que é um poeta? Uma criança,
filha
da rima
a quem se diz não fales com a boca cheia? Tira os cotovelos
de cima da mesa?
Tantas palavras. Muitas são as que não distingo.
Branco,
por exemplo.
Embora escute branco como a neve,
uma mortalha,
o leite: Acaso, branca, a fome masculina
do teu seio
também? — Pensava que o desejo era branco.
Mas branco, branco, terrivelmente branco,
apenas o olhar
que vendo se vê demasiado
e em pura crueldade
e indiferença,
ó morte — única mãe.


Poemas portugueses [de O meu lugar à mesa], org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora, 2009.