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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

EMANUEL JORGE BOTELHO

ONZE LINHAS, QUASE NADA


acabei, há pouco, de pensar.
não encontrei, em mim, nada que mereça ter um nome.

ficar entre duas aspas, disse à minha voz,
não me salva do abismo.

não há nada que segure as palavras
da vergonha,
e a queda não tem amparo
quando se cai de punhos lassos.

todos os dias morre um homem que só queria
ter um pouco mais de tempo, digo,
e escrevo a minha culpa dentro das minhas mãos.


Cão Celeste, n.º 11, Lisboa, 2017.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

EMANUEL JORGE BOTELHO

RUA DO SACO, N.º 15 (II)


o meu vizinho predilecto
morreu na guerra.

ele gostava de mim porque me acenava
quando dizia o meu nome.

no Verão, o meu vizinho passava, todas as manhãs,
perto da minha porta.
ia a caminho do mar.

quando me disseram que ele morrera na guerra
eu ainda não pensava que podia lá morrer.

eu não me recordo do nome do meu vizinho,
e queria tanto dá-lo
à saudade que dele tenho.


Os ossos dentro da cinza, Averno, Lisboa, 2017.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

EMANUEL JORGE BOTELHO

ANOTAÇÕES DE VLADIMIR ENQUANTO ESTRAGON DORMIA

para Samuel Beckett

ando à espera que me digam de que lado
virá o último pássaro a que darei sustento.

a minha borboleta já cá está há muito tempo.
chegou com o vento da noite
e trouxe-me um nome de árvore.

esperar não é pedir muito ,
nem obriga mão alguma
a dar lisura de afago
ao frio que rasga a face.

se alguém souber cantar, que não se acanhe.
eu gostava de ouvir, em voz, o que só o silêncio conhece.

esperar não é pedir muito, eu já o disse:
a solidão contenta-se com pão e água.


Cão Celeste, n.º 10, Lisboa, 2016.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

EMANUEL JORGE BOTELHO

ANOTAÇÃO, PREMONITÓRIA, PARA O POUCO ANTES


a última palavra que se diz
é a última vez que se entra em casa.


Fecho as cortinas e espero, Averno, Lisboa, 2014.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

EMANUEL JORGE BOTELHO

DIAGNÓSTICO DO SÍTIO POR QUEM ESTÁ NO LUGAR

para Antonin Artaud

dêem-me um muito longe que não arda.
mascar vidro não é profissão, dizem-me,
nem deixa que o amor da morte me leve
para perto de lisura do vinho.

embora não me vou,
e se for irei ficando,
sem oiro no rosto
nem coice que me peça cicatriz.
fico.
ato o amanhã no dedo de pescar
e saco-lhe a guelra quando picar
o calendário.

não tenho tempo.
eles não sabem onde estou
e só por isso não me mato.
quero deixar um açoite armadilhado,
antes que a data prima
a leveza do gatilho.

fico.
fico com um pão a morrer no bolso
e os lábios secos de nomes
para dar a cada dia.

que horas são, meu amor?
a que horas chega a hora certa?


Telhados de Vidro, n.º 18, Averno, Lisboa, 2013.

domingo, 16 de setembro de 2012

EMANUEL JORGE BOTELHO

[VOU-ME EMBORA, DISSESTE]


vou-me embora, disseste,
sem mentir à face,
sem pousar os olhos nos espelhos da casa.

ontem, deixei incenso
dentro da tua sombra.
estavas deitado dentro da tua morte,
como um santo.


Antero de Quental, a vida e uma manhã (com Urbano), Publiçor, Ponta Delgada, 2010.