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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

FERNANDO GUERREIRO

CONVERSA ENTRE CONTEMPORÂNEOS / 9


As conversas entre contemporâneos assemelham-se
a encontros de náufragos: passam-se sempre debaixo
de água à espera da dor que permita que as palavras
ascendam à superfície. E no entanto mesmo os distraídos
reparam que uma feroz natureza cresce das bordas
da linguagem, exalando aromas que cada vez é
mais difícil interpretar à luz da literatura.
Haverá ainda alguém interessado em os respirar?
Também nós, relutantes jardineiros,
não nos aproximamos dos canteiros
e as flores que cultivamos,
colhemo-las antes de tempo,
só para, com o perfume,
não ter de aspirar a loucura.


El Arte de la Pobreza: Diez Poetas Portugueses Contemporáneos (de Grotesco), org. José Ángel Cilleruelo, CEDMA, Málaga, 2007.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

FERNANDO GUERREIRO

[A CONSCIÊNCIA MELANCÓLICA DAS PALAVRAS]


A consciência melancólica das palavras
abandonara-o, comunicando ao que escrevia
a solidez da crosta que uma vez removida
nos dá a ver, por detrás das barreiras
do ser, as formas mais inseguras da vida.
Ultimamente, no entanto, custava-lhe
encontrar um lugar que lhe agradasse
para as palavras e pedia mais tempo
para depor no chão o fardo de dor
a que se reduzia para ele o destino
da poesia. Restava-lhe, talvez,
o relato das formas menores
de existência – em que as palavras,
por cima do abismo, ainda descobrem
a vegetação a que se agarrar
no caminho da subida. Mas
a poesia, para se escrever,
requer um mínimo de experiência –
migalhas de ser, pelo som coloridas,
antes que sobre elas caia
a cortina do crepúsculo.


Caminhos de Guia, Black Sun Editores, Lisboa, 2002.