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terça-feira, 30 de abril de 2013

FERNANDO GUIMARÃES

MORTE


Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.


Resumo: A poesia em 2012 [de Relâmpago, 29-30], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

domingo, 31 de julho de 2011

FERNANDO GUIMARÃES

VENTO


Estamos ainda longe. Quase nada se pode encontrar. Talvez
nos tenham prometido qualquer coisa, mas não o sabemos. À volta
ficam algumas casas abandonadas, estes arbustos, um pouco de areia
espalhada para que os nossos passos tenham apenas um destino
que se desconhece. Vinha o silêncio ao nosso encontro e o que existe
principia a ganhar uma fragilidade que se torna maior. Tudo
há-de ser tão leve agora para nós como um reflexo que chega
dessa ausência. Caminharemos um pouco mais. De novo
procuramos uma recordação, a passagem do vento, o seu olhar.


As raízes diferentes, Relógio d’Água, Lisboa, 2011.

domingo, 6 de dezembro de 2009

FERNANDO GUIMARÃES

A ÚLTIMA PIETÀ DE MIGUEL ÂNGELO


Desfalecido, o corpo que se encontra
com outro, quando espera aquele afago
há muito procurado e que se via
surgir de um novo gesto, ao receber

o que equivale à forma ali suspensa
numa curva serena de piedade
materna, agora firme porque o caule
de uma planta existe para erguer

o perfil, a medida dos seus rostos
que vemos junto às pétalas trazidas
só pelo sofrimento. Ali ficaram

mais juntos, quase ocultos, e detinham
a fuga dos seus corpos, nesta ausência
que foi nossa também. Do outro lado.


Relâmpago, n.º 23, Fundação Luís Miguel Nava, Lisboa, 2008.