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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

HELDER MOURA PEREIRA

[FUI A UM BAR BEBER UM COPO]


Fui a um bar beber um copo,
por acaso era irlandês, ali ao cais
do sodré. Toda a gente cantava
de cerveja na mão, mas quando
chegou àquela parte and I found
a wife in the town I loved so well
comovi-me, engasguei-me, a caneca
escorregou-me das mãos e partiu-se
no chão. Alguém se aproximou
para me dar palmadinhas nas costas
e ainda hoje a coisa que melhor
sabe fazer, de longe, a coisa
em que é mesmo especialista,
é dar-me palmadinhas nas costas.


Às escuras (com José Amaro Dionísio, Fátima Maldonado e Fernando Cabral Martins), 100 Cabeças, Lisboa, 2016.

domingo, 27 de setembro de 2015

HELDER MOURA PEREIRA

[EU NÃO TINHA NADA DE FELINO, TU SABIAS]


Eu não tinha nada de felino, tu sabias
que eu não tinha nada de felino.
Nenhum de nós se admirou quando
medi mal a distância e falhei o salto.
Enquanto ia no ar parecia que era
um salto bom, porém houve qualquer
coisa que correu mal e caí com estrondo
no chão. Ninguém riu. Não era caso
para rir. Grande ilusão ir pelo ar a pensar
que o salto podia ser bom, sem eu ter
nada de felino, sem nunca ter treinado,
sem fazer sequer aquecimento, sem
olho para medir distâncias. Saber medir
distâncias é uma coisa muito importante,
pode falhar-se a vida por milímetros.


Telhados de Vidro, n.º 20, Averno, Lisboa, 2015.

domingo, 10 de novembro de 2013

HELDER MOURA PEREIRA

FALTA DE CARÊNCIAS


Era já noite cerrada, era o último metro
para a baixa-chiado, e eu vi, assustei-me
por ver, um homem a roçar-se encostado
a uma mulher, ou seria um homem, um
travesti, um carregador de piano?

Afinal era um assalto e eu, meses mais
tarde, vim a encontrar na ala dos castigados
o assaltante, que entretanto passara
a pronto. De que precisavam os castigados?
Precisavam de fita-cola, cola, papéis,
esferográficas. E livros. De poesia.

O pessoal gosta muito. Dá muito jeito
para pôr nas cartas, daquelas com amor
lá dentro. A ala dos castigados era a ala
dos namorados. Aquele pessoal com falta
de carências e desconfiado, por natureza.

Pobre terra minha, de euforias vãs,
cantava outro, quem me dera que tudo isto
acabe, há na minha vida muita dor,
meu amor, quem me dera ver-te
e apalpar-te até me doerem as mãos.
Seria só esse o meu negócio.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Mútuo consentimento], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

domingo, 12 de maio de 2013

HELDER MOURA PEREIRA

[QUANDO PARO À PORTA DA ANTIGA FÁBRICA]


Quando paro à porta da antiga fábrica
onde meu avô trabalhou. Risca. Quando
a fábrica onde meu avô trabalhou
surge de repente aos meus olhos,
sem eu a ter procurado, e. Risca.
Passam de repente nos meus olhos
muitas imagens, uma delas é a porta
da fábrica onde meu avô trabalhou.
Ali me deu uma vez dez escudos para.
Risca. É um poema num café. Dele
faz parte uma mesa de café e um café.
Depois olho pela janela do café
e não está lá fábrica nenhuma,
não está lá porta nenhuma, e também
sinceramente não tenho bem
a certeza de ser eu que estou aqui.
Mas o meu avô estava lá de certeza.


Resumo: A poesia em 2012 [de Relâmpago, 29-30], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

HELDER MOURA PEREIRA

BROTHERS ON WHEELS


Viajas um pouco acima
da fixa viagem
da terra, eu sou
o teu amigo, o irmão
que nunca saiu
e regressou.
Mar e mãe se enredavam
por coisas de sangue
e confronto, presos animais
de fumo e noite.
E motores ao corpo
dos heróis, depressa
passam, facas
na pele ardendo.
Eu visto
as tuas camisolas
e a vida que viveste
já a tenho. Quero
que o teu murmúrio
me perturbe, a voz
é um ponteiro
sobre o tempo, os peixes
não deixam de bater
nos vidros.


Poemas com cinema [de Esta passagem], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 24 de maio de 2009

HELDER MOURA PEREIRA

[PALAVRAS QUASE INAUDÍVEIS POR BAIXO]


Palavras quase inaudíveis por baixo
de um ritmo, pareciam palavras
quando encostaste o ouvido
ao pequeno pássaro. O pequeno pássaro
tem um coração que continua a bater
dentro do seu corpo depenado, quase
não nasceu e já está a morrer.

Está um homem de idade indefinida,
vestido de cor indefinida, nem alto nem baixo,
nem gordo nem magro, iluminado pelo verde
da cruz da farmácia, vê-me a pegar no pássaro
e quando eu me aproximo ainda se indefine
mais, tem medo, desata a fugir e eu grito-lhe,
homem indefinido, venha cá, não vê que é
apenas um pássaro que está a morrer?

Depois foste a apanhar o comboio que pára
em Todas, tivesse sido outro o comboio
que apanhaste e tudo seria diferente.
A vida toda seria diferente. Seria
melhor, seria pior, seria diferente.

Olha-se para aquele corpo e não parece
que esteja preso por arames. O corpo
fará análises e exames. Valores normais, nada
de especial, não há razão para alarme. Mas, se
se olhar bem, ver-se-ão os arames
que o prendem. A quê? Prendem-no
ao amor, porra, ao amor, é preciso gritar?

Nem no sonho nem na vida se sabe
o fim, acordo-te antes que a dúvida
te faça retirar a mão de onde repousavas.
Ainda me atormentais, banais segredos
do reino animal, atormentar-me-eis sempre,
pelos vistos sempre, sempre, sempre.


Segredos do Reino Animal, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007.

domingo, 10 de agosto de 2008

HELDER MOURA PEREIRA

[GRAVATA E BARBA CRESCIDA, INCLINAÇÃO E TARA PERDIDA]


Gravata e barba crescida, inclinação e tara perdida,
outra vez achada no último terço da vida. Nem em sonhos
ou lá dentro, muito dentro da cabeça, onde um órgão
ecoa em nós como numa catedral. E fica-te bem, gola
aberta e cara rapada, boca de sino e justa camisola.

Vamos à bola ou pelo menos aos matraquilhos, sem filhos,
sem coisa nenhuma, só nós dois, piadas e anedotas.
Quando acordas todos os dias a pensar no mesmo e perguntas
se há comprimidos para apagar a memória, parece
pelos meus olhos que a resposta vai ser sim. Mas não.

Tu tens olheiras de não fazer nada, como cansa retirar
ervas do chão, como cansa lançar a confusão no meu corpo
invisível onde não me conhecem. Be my toaster!
E assim, saudando-me, quem sabe se um dia eu serei capaz
de não me enganar na transmissão de um pensamento.

Eu quero que os teus pensamentos vão passear,
fala-me dos teus desejos, das tuas ambições, faz de conta
que eu sou um terapeuta breve a fingir que ouve histórias
emocionantes. Daquelas de fazer chorar as pedras da calçada.
Em guarda! E davas um salto como um espadachim. E um abraço.


Lágrima, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002.