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terça-feira, 24 de março de 2015

HERBERTO HELDER

1930-2015


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

HERBERTO HELDER

[A ACERBA, FUNDA LÍNGUA PORTUGUESA]


a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão térmica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso



Poemas portugueses [de A faca não corta o fogo], org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora, Porto, 2009.

domingo, 15 de maio de 2011

HERBERTO HELDER

[OS CÃES GERAIS LADRAM ÀS LUAS]


os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora,
mas a gota de água treme e brilha,
não uses as unhas senão nas linhas mais puras,
e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia

..............................................................................[de ar e de areia
e de fogo,
e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento,
e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível
contra a turva sede da matilha,
com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, árduos buracos negros:
queres apenas
aquela gota viva entre as unhas,
enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros
à procura do ouro


Público, Lisboa, 14 de Maio de 2011.

domingo, 19 de setembro de 2010

HERBERTO HELDER

[A POESIA É FEITA CONTRA TODOS]

[...]
A poesia é feita contra todos, e por um só; de cada vez, um e só. A glória seria ajudar a morte nos outros, e não por piedade. A grandeza afere-se pelas conveniências do mal. Aquilo que se diz da beleza é uma armadilha. Pena que não pratiquem o pavor, todos. Seria o lucro do nosso emprego e um pequeno contentamento para quem está com alguma pressa em agravar.
.
E leia-se como se quiser, pois ficará sempre errado.
.
.
A Perspectiva da Morte [de Photomaton & Vox], org. Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

sábado, 18 de outubro de 2008

HERBERTO HELDER

[DO MUNDO QUE MALMOLHA OU DESOLHA NÃO ME DEFENDO]


do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento


A Faca não Corta o Fogo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2008.