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quarta-feira, 22 de março de 2017

INÊS LOURENÇO

MORDER A LÍNGUA


A ponta do cigarro apaga-se
como o ruído dum insecto
a agonizar na água. A
noite arrefeceu apesar de ser Julho
porque o Verão a norte nunca
se despede da bruma. É tarde
e procuro um verso
que morda a própria língua.


O jogo das comparações, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2016.

quinta-feira, 24 de março de 2016

INÊS LOURENÇO

PRÉSTIMO


Um gato não serve realmente
para nada, vão quase seis séculos
desde o tempo das caravelas
onde embarcou com os marítimos para
extermínio dos roedores que
infestavam o porão das naus. Agora
só o dorso oferece às carícias
ou ao regaço o peso
do pequeno corpo, ronronando
a grata beleza de existir.


O segundo olhar: poemas escolhidos [org. de José Manuel Teixeira da Silva], Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2015.

sábado, 20 de setembro de 2014

INÊS LOURENÇO

ESCRITA CRIATIVA


Havia ainda os pequenos
marçanos de bata de riscado, que dormiam
nas caves das mercearias entre os fardos de
bacalhau e polvo seco. Cruzavam-se na rua
com as aprendizas de modista que começavam
por apanhar alfinetes do chão no atelier, entregar figurinos
às freguesas, encerar os soalhos da mestra e só depois
iniciar bainhas e alinhavos.

Os mestres da escrita criativa
ensinam aos já adultos marçanos
e às prováveis costureiras
a talhar sublimes arroubos ou memórias
porque é bonito ser artista, conhecer as surpresas
da sintaxe, o encanto da melancolia ou o poder, dizem eles, do verbo.

Entretanto esses mestres
da palavra
transmitem os seus belos ofícios, sem a metonímia
de fardos de bacalhau ou polvo seco. E nem
sequer apanharam alfinetes em Ítaca ou
enceraram o soalho do Mestre Caeiro.


Telhados de Vidro, n.º 19, Averno, Lisboa, 2014.

domingo, 25 de março de 2012

INÊS LOURENÇO

MIRAMAR


Acender um cigarro na praia, proteger
o difícil estertor da pequena chama. Anular
o vento na manga do teu casaco. Reter
preso entre os dedos o princípio breve
dessa efémera combustão.


Câmara escura: uma antologia [de Teoria da imunidade], selecção de Manuel de Freitas, Língua Morta, Lisboa, 2012.

sábado, 29 de janeiro de 2011

INÊS LOURENÇO

VELHO CELULÓIDE


Caixeirinhos de Grandela,
costureirinhas da Sé, futuras
mães de família obesas, trinados
de meninas da rádio, saloias
românticas, lavradores de
cena, pais tiranos, casas
apalaçadas, serviçais complacentes,
negreiros de boa alma, algumas
tabernas e algumas guitarras.

Pontos culminantes:
o triunfo internacional do
artista ignoto à frente de um
postal do Arco de Triunfo, da Torre
de Londres ou de alguns
arranha-céus. Os beijos
à cinema, seguidos de grandes
planos da paisagem no Fim
que acaba bem o ecrã a preto
e branco em enorme letra gótica,
eles casam.


Poemas com cinema [de Logros consentidos], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 25 de julho de 2010

INÊS LOURENÇO

PARA UM LIVRO


O tempo que passei fechado sem
nenhum leitor justificou ser
imolado pelas traças.


Coisas que Nunca, & etc, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

INÊS LOURENÇO

DESALINHO


Nenhum destes poemas
fará parte de um livro
adoptado nas escolas. Há
muito tempo que não escrevo
azul mar e barcos ou outras
palavras para alívio de almas
homéricas.

Prefiro – ou preferem-me
aquelas como: desalinho
alinhavo ou logro ou outra
qualquer. Nunca o arremedo
de uma palavra única esgota
o muito ou nenhum sentido
de um verso.


Disfunção Lírica, & etc, Lisboa, 2007.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

INÊS LOURENÇO

PENÉLOPE


Encontrava-a aos domingos
com a teia de crochet, perto
do estádio. Ulisses regressava
a Ítaca, no fim de mais uma
jornada de águias, dragões
e outros monstros. Argos
no banco de trás, abanava a cauda
para não morrer de velho.


A Enganosa Respiração da Manhã, Asa, Porto, 2002.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

INÊS LOURENÇO

CONTA DE PERO VAZ DE CAMINHA


O homem do Guarani tosse
e espirra constantemente, enquanto
serve os cimbalinos em chávena escaldada
ao dono da residencial Grande Rio
e à striper brasileira. Ela discute no seu
português com adoçante
a conta da electricidade, que no seu país
não entra no contrato.


Logros Consentidos, & etc, Lisboa, 2005.