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domingo, 21 de maio de 2017

JOÃO ALMEIDA

NÃO HÁ RAZÕES


Casal um à mesa não importa o dia
Não importa a hora

Falam uma língua muda
Que sai das coisas
E as leva sem vestígio

Ela faz pequenos barcos
Com o papel da conta do jantar
Ele queria ir ao fundo do céu
Da boca se pudesse

E eu que como de tudo
Não entendo tal noite.


Hotel Zurique, Averno, Lisboa, 2017.

domingo, 28 de setembro de 2014

JOÃO ALMEIDA

CARTA DE EL PASO


Perdeste por pura estupidez
As palavras entravam-te na cabeça como nevoeiro
E por lá ficavam em nevoeiro
E também por falta de espinha
Pra não dizer outra coisa.

Gostas de vir com o Stonebreaker
Do miúdo absorto como um pesadelo
À luz do dia
Martelando pedra a pedra
Sem a possibilidade de fumar um cigarro na descida.

Devias estar mais atento ao louco
Que não vias atrás de ti
De navalha aberta. Agora não sei que te diga.

Respondes que estás bem embora tenhas dito a verdade
No que diz respeito à pornografia
Ou que a poesia já te deu melhores dias.

Ouve, esquece o puto a partir pedras
Ou então mete-te na droga.

Quanto à questão dos versos
Lembra-te da rapariga silvestre
E da outra que chupava kalipos inocente
Disposta a muito.

Digo isto porque estás a ficar muito pálido.
Em El Paso se quiseres
Podes abancar em minha casa, comes do que houver.
Fode-se e morre-se bastante por cá.


Telhados de Vidro, n.º 19, Averno, Lisboa, 2014.

terça-feira, 29 de abril de 2014

JOÃO ALMEIDA

HEIMAT


Enquanto espero a subida das águas
Vou construindo de cabeça
O poema deste dia

Prédios para deitar abaixo
Escalpes de negócios clandestinos
Cães que hesitam a travessia

Os bárbaros chegaram
Governam com ferro e pandemias.


As condições locais, Opera Omnia, Guimarães, 2014.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

JOÃO ALMEIDA

OFÍCIO DE TAXIDERMIA III


Contava-me sem preço
Como o amarelo no peito do papa-figos
Parava com felicidade o desatino e a morte

Está demente e já ninguém se recorda
De o ver escanhoado
E com dinheiro no bolso

E podia haver alegria na merda da situação
Aquela que os revoltosos levam
Nos explosivos
Na decisão repentina

Mas por trás dos olhos só um cão seco
– Fala-me dos coelhos, João.


Telhados de Vidro, n.º 18, Averno, Lisboa, 2013.

domingo, 9 de dezembro de 2012

JOÃO ALMEIDA

DIÁRIO DE RUM


Enquanto espero a subida das águas
Vou construindo de cabeça
O poema deste dia

Prédios para deitar abaixo
Escalpes de negócios clandestinos
Cães que hesitam a travessia

Os bárbaros chegaram ao governo
Falam línguas.


Telhados de Vidro, n.º 17, Averno, Lisboa, 2012.

terça-feira, 31 de julho de 2012

JOÃO ALMEIDA

DO OFÍCIO, OUTRAS COISAS


Levo um detonador
Em carne e osso
Para o que der e vier

Dizes que desconfias dos meus poemas
Mercadorias e princípios de merda
E porque me conheces na doença

...
Eu vi Santiago Sierra enterrar dez operários
E também vi nesse dia um botão-de-ouro
E um estorninho no beiral da janela


Resumo: A poesia em 2011 [de Telhados de Vidro, n.º 15], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2012.

domingo, 19 de junho de 2011

JOÃO ALMEIDA

O MILAGRE DE SÃO FRANCISCO


conto pelos dedos
ferramentas de urologia
relicários
um rim
um pôr do sol

no teu consultório sou sempre paciente
e tu entras a rir
ofereces-me um charuto
e uma caneta da propaganda médica
....
passou mais de muito tempo
e não escrevi nada
tenho boas manhãs
e sábados à noite para andar à procura

isso não chega para te meter o dedo no cu
também tenho disso respondes
vê lá por onde andas
e se te alimentas


Um milagre no caminho, Averno, Lisboa, 2011.

quarta-feira, 31 de março de 2010

JOÃO ALMEIDA

EM TEMPO DE MISÉRIA


desço por um jardim transparente
entre lodo e hortelã

andam assistentes sociais pelo bosque
à procura de pobres
agitam contas e berlindes

acaba aqui a rédea solta, há que escolher as armas

troco à sombra do derradeiro cipreste
dois versos e um dedo
por uma noite de sono e um detonador

Resumo: A poesia em 2009 [de Glória e eternidade], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

JOÃO ALMEIDA

MAR CALHADO E ESTE SANGUE AINDA QUENTE


saí da cidade como de uma rua sem nome
não me lembro de nada, irei ter com o que houver

levo barulho no saco preto às costas
nódoas na roupa interior
e um poema da perna de pau

a alma foi dar horas, já não regressa e virá diferente
resta matéria gorda que a água do chuveiro não levou
um buraco no chão, e má memória

há versos que chegam à cancela como cães sem dono
outros aparecem e fazem chover
também me perco e deliro


Glória e Eternidade, Teatro de Vila Real, 2009.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

JOÃO ALMEIDA

ANTÓNIO


Sob a ponte da auto-estrada
no fundo de um carreiro de formigas
três casas de madeira rápida

é um sítio lento e impuro onde peixes amarelos
cintilam. Crescem fetos na barriga das mulheres
um violador tímido
vinho
um doido arreganhado com olhos parados lá dentro

o António não está e olha para o chão
tem 17 anos e nunca lavou os dentes.
A assistente social pergunta ao guardador de peixes
por que é que o António tem faltado à escola. O barulho
dos carros é faz de conta uma cascata. Que não
sabe, está mal da barriga diz o doido sem sabedoria.

Lesmas pretas com os olhos pequenos pontos brancos
escondidos
brilham como brilha a alegria.


O Mal dos Postes de Alta Tensão, Black Sun Editores, Lisboa, 2000.

domingo, 28 de setembro de 2008

JOÃO ALMEIDA

FACIAL


Há três bruxas más em ti
zute a vassoura nas costas morre e nas ruas leva
o coração aberto, veias arrancadas às pernas
para salvar o dia
tudo igual ao que não sei

os comprimidos fora de prazo
cruzam o ar. Engole com o café à volta da mesa
senhor, senhor I'm better
when I'm bad diz na t-shirt da empregada

há a televisão ligada e animais para tudo no jardim
levantam voo os pássaros comuns
como grãos castanhos
e vozes uma a uma num turbilhão macio

vivo para coser a pele com cuidado.


A Formiga Argentina, Averno, Lisboa, 2005.