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domingo, 29 de janeiro de 2012

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

ILHÉU DAS CABRAS


O nome diz tudo
levavam da ilha maior
as cabras, que no ilhéu ficavam a pastar.
Também queria uma ilha assim
deste modo pequena, sombreada pelo ombro
da outra. Que não tivesse fantasma humano
nem sequer qualquer presença de antiga raça. Que
restasse
a urze entre as rochas
a cinza nevoada do mar
o dia e a noite.
Não precisa do mundo
somente lhe resta a viagem da ave que pousa na
escarpa
quando vem o outono
e a flor amarela dos cubres pelo fim do inverno.


Lagoeiros, Relógio d'Água, Lisboa, 2011.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

NATAL EM OZIÓRSSK


Ainda estou vivo, apesar de enterrado
numa província do antigo império.
Estou nos Urais, na cidade de Oziórssk –
...cidade dos lagos –
trabalho muito e ganho pouco. Tenho o
meu apartamento de duas assoalhadas onde
faço obras há três meses sem parar. Temos
aqui muita neve e muito frio e os ursos
não lêem a poesia portuguesa, nem a russa.
Estou no lado oposto da Europa, a 40
kms da Ásia... mas na Europa. (Somos um
bocado europeus.) Não vejo hipótese de
ir para Portugal até um milagre qualquer
acontecer, mas não vale a pena ter pena de
mim, eu tinha muitas saudades da neve.
Digo-te, por isso, um bom natal.
Oziórssk, dezembro de 1995.


Versos e prosas em forma de Natal [de Não é certo este dizer], Relógio d'Água, Lisboa, 2010.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

OS DIAS DE BRUEGEL


Os campos estão lavrados, mesmo sob a
neve do inverno permanecem
estendem o horizonte de terra fértil e a ave
marinha voa sobre o íris amarelo

estão armados os cavaleiros d'áustria e de
filipe segundo, rei espanhol,
massacram os inocentes, o sentido das vidas
a história de imaginada Flandres

dão o passo sobre a branca paisagem os
caçadores, desliza na água do degelo
uma barca de improviso, mas logo

desce de novo a luz do outono sobre a aldeia e o
silêncio, cor do inverno. (Acontece,
há caminhos mais longos do que
outros. O destino a que

é suposto chegarmos está desenhado à
partida. Desculpa ser tão bruto – o destino,
triunfo da morte.)


Sobre mármore, Teatro de Vila Real, 2010.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

X


Nesse dia de setembro desenhei a árvore que
sustém o torso humano; os ramos
trazem a vibração de um instrumento
mantêm um som semelhante ao mover articulado
das patas de uma aranha.

Parece-me que nos últimos dias
aprendi muito em relação ao traço que ilumina
a transparência do desenho
no conflito que existe entre a
superfície da morte e a profundidade da vida.

A grafite, a tinta-da-china observa os
seus segredos e experimenta o nenhum sentimento
ao descrever o plano interior das cartilagens
a pele do mundo sob o que nos move
ardentemente.


Jardim das Amoreiras, Relógio d'Água, Lisboa, 2003.

domingo, 13 de dezembro de 2009

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

XIII


Tenho para mim neste derrotado começo de século
neste farrapo de país em que a própria língua virá em
breve a ser idioma secreto
e a quem ninguém chamará pátria nem tão-pouco
nação, apesar da vigilância sobre a nossa existência
ser matéria autocrática e clerical,

tenho para mim que nesta geografia
a casa rural é a expressão mais pura que sobrevive,
qualquer coisa ao alcance
entre o castelo e a igreja, entre a cruz e o adro,
ornamento que sustenta o carácter da arte e da paisagem.
Expressão do movimento, de uma cor.

Ao fim do pátio, onde a alma da casa termina, está
uma taça de granito. Bebedouro de pássaros nos meses
quentes, cobre-se de medronhos
pelos cálidos dias outonais do verão de São Martinho.
Em oferta, do áspero amarelo ao quente laranja,
no contraste da pedra o meio dia intensifica de brilho

cambiantes vermelhos – rosa vivíssimo e sangue
esmagado – o calor abre em ouro o corpo do fruto,
insectos despertam de um íntimo, longínquo mundo de
treva, como se subissem da mais antiga morte, da mais profunda vida.


Mãe-do-fogo, Relógio d'Água, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

TEMPO GIUSTO


Abriu o armário da loiça. Porta de pinho presa de
humidade. As suas mãos
trouxeram, uma a uma, as várias peças de
um fabulário de faiança, azul sobre puríssimo branco.

Serviu-me nessa tarde o último chá,
caiu de um rude bule
vidrado
para a chávena que trazia as armas de um dos avós;

um dos seus dedos acariciava, sentia a temperatura do
chá, enquanto passava, ao de leve, sobre a ferida
heráldica carregada de um S maiúsculo, honorada com

o arminho de um fugaz pariato.
«Coisas da pequena pátria.» E sorria de um modo
sonhador; «por cinquenta cêntimos o centro do homem funciona».


Invisíveis correntes, Relógio d'Água, Lisboa, 2004.

domingo, 31 de maio de 2009

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

CASA DE CHÁ EM VILA REAL


Numa manhã de junho sentado à mesa de uma
casa de chá em Vila Real tive um sonho que
me espantou e as imaginações na minha cama,
em S. Gonçalo, no Marão,
e as visões na minha cabeça me turvaram.

Por mim se fez este balcão pelo
qual foram introduzidos à minha presença os
frades domínicos da Sé, ali defronte.
Vinham dar-me a interpretação das cornijas
acachorradas da sua casa.

Entraram os frades segundo o nome do nosso
deus. Eu contei-lhes o sonho.

Crescia uma árvore que quase chegava ao céu.
Vinha da margem do Corgo, passava a
cidade, chegava bem alto.
Ao lado falavam d'antigos namorados entre o
coração e o terror

o pressentimento do futuro. Falavam
já dos melhores trechos do bispo Osório,
admirável em latim.
Ao lado crescia aquela árvore
cuja altura era grande dentro e fora da

minha cabeça.
Viam as aves do céu fazerem morada
nos ramos, os frades acharam sombra
sob as traves de madeira da sua igreja e
cantavam derrubai a árvore cortai-lhe os

ramos sacudi as folhas.
A única coisa a fazer era beber o chá e
esperar pela esquina da avenida.


A pequena pátria [de Tronos e dominações], Editorial Presença, Lisboa, 2002.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

CASTELO DO REI


Não passa de um retrato pintado por João
Baptista Ribeiro, nem sequer excelente, datado de
1828. Nesse ano os três estados do reino aclamam
Miguel, rei absoluto. Homenagem,
e também paixão, sobre o tempo inteiro
vencido. Sei de quem o visite e fique preso a uma
franja do tecido da camisa; parece papel transparente,
lágrima sobre a mão direita
que segura o ceptro. O nariz levemente aquilino,
suave castanho o olhar
e os lábios – pesaram todas as palavras no exílio
a enganosa derrota dos ritos, e da morte
quando se chega a um cais estrangeiro de mãos
vazias. No grande rumor da outra margem
ninguém sabe quem é dono do seu fogo

parou o rei debaixo de uma árvore
o sentido e o destino têm a cor da face honrada
os banqueiros, a usura, trazem as chaves
descarregam nos vestíbulos de pedra negra a infelicidade.


Castelos: I a XXXV, Averno, Lisboa, 2004.

domingo, 27 de julho de 2008

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

O TESOURO


Quando me levaram de casa dos meus pais
guardei comigo o meu tesouro. Uma caixa
de cartão, que um elástico fechava, dormia comigo
escondida dentro dos lençóis. Coisas de que
só eu sabia o nenhum valor. O carimbo de
borracha do avô Jaime, um dente meu, de leite, que
eu mesmo arrancara,
um coral da ilha de Moçambique que me dera
o tio Patuleia, duas moedas com as efígies de
D. Luís e de D. Carlos. Mais umas coisas que
o tempo perdeu na jornada da infância.

Mas uma noite o tesouro
ficou dentro de uma gaveta, não mais o levei para
atravessar comigo a jaula do sono. De
gaveta em gaveta, descubro-o
quando mudo de casa. Não é fácil afastar a caixa
esmaecida onde adormeceu. Primitivo, como os
primeiros princípios da filosofia ou
os primeiros sons de um verso. Hei-de por fim
perdê-lo, como no horizonte se forma e desfaz a
arte poética de um arco-íris.


Termo de Óbidos, Relógio d'Água, Lisboa, 2006.