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domingo, 8 de julho de 2018

JORGE ROQUE

ESTUDOS LITERÁRIOS


Quando morrer vou deixar vários pares de sapatos novos, arrumados nas caixas, absolutamente por usar. Não será difícil encontrar tamanho de pé para o meu número, é aliás dos mais vulgares. Mas haverá outro problema: os sapatos são todos iguais, três ou quatro pares do mesmo modelo, variando quando muito a cor do cabedal e atacadores. Perfil neurótico, obsessivo, compulsivo, sei lá que mais o compêndio tem para mim reservado. E no entanto, bem mais simples, a razão era a dificuldade de encontrar sapatos que não me apertassem os pés.


Cão Celeste, n.º 12, Lisboa, 2018.

domingo, 31 de dezembro de 2017

JORGE ROQUE

BITOQUE COM OVO A CAVALO


A repetição de mais uma notícia frívola na televisão e o eco frívolo da notícia nas conversas à mesa. Vivemos no tempo da nulificação, disse para o ocasional conviva. Antes eram as drogas, o álcool, os êxtases, agora é a nulidade. E na conversa até então fluida, até então frívola, o súbito estorvo, tropeço. O quê, perguntou-me, erguendo os olhos do prato, nas mãos esquerda e direita os talheres suspensos em pausa. Anulação, traduzi, supondo que o problema era discursivo, já não ultrapassar-se, mas suprimir-se. Ah, respondeu-me, com um reconhecimento alheado, e retomou diligente a cirurgia ao bitoque com ovo a cavalo.


Cão Celeste, n.º 11, Lisboa, 2017.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

JORGE ROQUE

[SEMPRE VIVI NUM REDUTO]


Sempre vivi num reduto, sempre fui uma míngua de terra encostada a um muro. Mas o reduto estreita-se, o muro já mal me deixa mover nesse espaço exíguo que foi quanto me habituei a esperar da vida e era, visto de agora, um lugar feliz, uma cara onde o sorriso cabia.

[...]

Tresmalhado, Averno, Lisboa, 2016.

domingo, 25 de setembro de 2016

JORGE ROQUE

POUCAS ARMAS


Formado na moral, isto é, contra a natureza, tens poucas armas para viver neste tempo acérrimo de liberais. Eles têm uma razão: a justiça natural consumada na lei do mais forte, a verdade inocente da selvajaria animal. Tu tens uma razão diferente: o homem está desde sempre expulso da inocência que legitima a selvajaria, a sua verdadeira natureza constrói-se contra o natural.


Cão Celeste, n.º 9, Lisboa, 2016.

sábado, 9 de abril de 2016

JORGE ROQUE

QUATRO MUROS


Vinte e dois dias de férias, fins-de-semana, feriados, e vida nenhuma para ser a vida do escritor que seria, pelo menos de acordo com o funcionário que pontual pica o ponto, sem braço nem manguito a opor ao avanço da horda liberal.

Ó brilhante aluno que trocou ciências por letras quando ninguém esperava e, bem se sabia, letras são tretas com as quais nem os anjos se governam, quanto mais ele que em vez de asas tinha dores nas costas e, longe do paraíso, contas e impostos a pagar num torpe arrabalde dominado por espertos e caciques.

Ó promissor escritor a ficar fora de validade, passam os anos, passam os livros magros, esforçados, passa a indiferença que em torno deles se abate, a tua realidade são estas quatro horas por noite, estes quatro muros fechados, este quarto de vida roubado ao cansaço, ao tempo de sono, ao convívio com os outros, à alegria de escrever até. Um amador esforçado, um diletante sem meios de o ser, é isso que és. Um parvo, em suma. Ou, no melhor dos casos, um equivocado.

Deito vinho no copo, acendo um cigarro, releio o que escrevi. Não, nada há de errado, está tudo certo. Esta a vida real do escritor que sou, nas quatro horas, nos quatro muros, que me delimitam. Mais não há e, com solução ou sem, não é equívoco.


Cão Celeste, n.º 8, Lisboa, 2015.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

JORGE ROQUE

AS PALAVRAS


A princípio somos nós que queremos as palavras, que elas se entregassem era o nosso desejo mais fundo, o mundo tornar-se-ia completo e a vida revelar-se-ia no seu rosto pleno. Mas nada acontece como pensamos. Sucedem-se anos de lutas, cansaços, vitórias pequenas, críticas razoáveis nos jornais, amigos que dizem que gostam e nós sabemos que não assim tanto, estão a ser amáveis e devemos do coração agradecer-lhes, porque gostarem de nós vale muito mais do que tudo o que escrevemos, embora isto seja apenas o começo da aprendizagem. Eis que algo inesperadamente se altera, tão inesperado que só nos damos conta depois, são agora as palavras que nos querem, elas mesmas que se entregam, de certo modo estendendo-nos o que sempre desejámos, tão diferente afinal, tão sem sorte, olhado do tempo que passou. Chamam-nos, puxam-nos, insaciáveis não nos largam, e nós vamos, vamos, no lugar a que chegámos quase nada nos chama e nós pouco queremos ouvir, que havemos de fazer senão ir, ir, mesmo que não haja brilho, mesmo que não haja esperança, e o jogo só possa terminar com a derrota do único jogador. E é isso que repetem os braços caídos com que seguimos, seguimos, sabendo que o mundo só fica cada vez mais gasto e a vida, rosto pobre que enfim olhamos nos olhos, já só nos mostra a nossa morte, os ossos salientes sobre a pele baça, a testa cada vez mais alta, a cara que teremos quando formos velhos, a nossa, exacta.


Nu contra nu, Averno, Lisboa, 2014.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

JORGE ROQUE

A CELA


O problema não são apenas os senhores da escravatura. O problema é que os escravos se reconhecem como tal. Os senhores talvez se pudessem derrotar. Mas como vencer os muros de quem ignora a liberdade e dentro de si ergue a cela que o encerra?


Cão Celeste, n.º 4, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

JORGE ROQUE

FOME SEM SENHOR

 
O poder é uma fome sem senhor. Duas mandíbulas só dentes, voracidade e estômago. Uma certeza cujo sentido é não parar de mastigar. Não devora apenas os medíocres e os fracos, importa que o entendas. Devora todos por igual.


Cão Celeste, n.º 3, Lisboa, 2013.

domingo, 18 de novembro de 2012

JORGE ROQUE

CÍRCULO


Temos de confiar nas pessoas, afirmava o meu pai, perante as objecções da minha mãe que eram muitas e fundamentadas, e eu criança pouco entendia, embora me sentisse inclinado a defender o meu pai contra as armas e razões da minha mãe, talvez porque na sua eloquência a minha mãe ganhasse clara vantagem e eu nutrisse simpatia pelos derrotados, ou simplesmente porque o gene se tivesse cumprido e eu na minha crença insensata repetisse o meu pai.
 
Quanto mais sofro por viver de coração aberto, é o que desta memória hoje se ilumina, mais me reconheço nas palavras do meu pai. Quanto mais envelheço, mais me aproximo do lugar que deixou vazio.


Cão Celeste, n.º 2, Lisboa, 2012.

domingo, 22 de julho de 2012

JORGE ROQUE

[UM MOVIMENTO MAL CALCULADO]


Um movimento mal calculado, um atrito ou um deslize inesperados, a faca desviou-se do seu curso, nada a fará voltar atrás agora. O gume encontrou o dedo, atravessou a pele, rasgou vasos sanguíneos, camadas sucessivas de tecido celular, imobilizou-se junto à trama fibrosa dos tendões e recuou, afastado num gesto reflexo a que, um instante depois, se juntou em clarão a dor. Só então o sangue em lençol fino, progressivamente mais grosso e escuro, cobriu o dedo e começou a gotejar, formando pequenas poças nos lugares de sobreposição, alternadas com pingos em distribuição aleatória. O desalento, a revolta, a raiva de não reverter o tempo, a realidade, a vida. Inúteis, bem sabes. Venha pois o raciocínio, a acção consequente: avaliar o golpe, lavar, desinfectar, fazer um penso em compressão para estancar a hemorragia. Iniciar o lento trabalho da aceitação. Delimitar, conformar, deslocar para outro ângulo de onde descobrir novo olhar. O poema, por exemplo.


Canção da vida, Averno, Lisboa, 2012.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

JORGE ROQUE

UM EXEMPLAR FALHADO DA ESPÉCIE


[...]

2

Suicido-me devagar a pão com queijo, vinho tinto, cigarros e solidão. Bem sei que podia comprar sopa, já que não a faço. Podia também comprar um microondas, serviria para aquecer a sopa e ainda preparar refeições pré-cozinhadas. Não se trataria de um grande passo, do ponto de vista do destino da humanidade, mas significaria ao menos comida quente no prato. Podia até casar-me, segundo o juízo optimista da minha mãe, e desse modo adquirir tudo isto num pacote bonificado, diminuindo o custo de cada um dos artigos individualmente considerados. Está tudo certo, por conseguinte, eu errado. Determinam os factos, no entanto, que o casamento é para mim um caso semelhante ao do microondas, ou seja, uma circunstância de que não suporto o ruído e, não serei eu que o anuncie, se há coisa que ninguém pode é ser aquele que não é (assim se desmorona um admirável plano, ignorando as esperanças da minha mãe). Resta acrescentar que nada há de heróico no meu gesto, nem eu me ocupo já de o iludir. É a mão que tenho (e a que não tenho). O prato que recuso (e o que aceito). Pão com queijo, vinho tinto, cigarros e solidão, cumpro-me no que sou: um exemplar falhado da espécie.


Ladrador (AA. VV.), Averno, Lisboa, 2012.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

JORGE ROQUE

VIOLA PARTIDA, 3



Agilidade técnica, destreza na rima, ouvido para o ritmo, instinto harmónico – e a morte, Doutor, e a morte? Como nas teclas os dedos do pianista, a posição exacta, momento, peso, a ascensão e queda de cada nota, o seu trajecto contra o silêncio que a revela – e a morte, Doutor, e a morte? Conhecimento dos poetas de outras épocas, genealogia da língua, amplitude e precisão do léxico – e a morte, Doutor, e a morte? Domínio pleno do instrumento, no fundo é disto que se trata, claridade da articulação, objectividade expressiva, intensidade interior, saturação lírica – e a morte, Doutor, e a morte?


Telhados de Vidro, n.º 15, Averno, Lisboa, Junho de 2011.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

JORGE ROQUE

CANÇÃO DA VIDA, 1


Caem-lhe as peças de xadrez do tabuleiro derrubadas por movimentos mal calculados. Ouvem-se no andar de baixo a embaterem no soalho e calarem-se num som trémulo, quase um lamento. Ele apanha-as e volta a colocá-las nos lugares de que se lembra. Sabe que erra os lugares, principalmente quando cai mais do que uma peça. Sabe também que não importa. Como não importa quem ganha ou quem perde, ele ou o outro que com a sua mão joga do outro lado. Importante é não parar de jogar. Cansar a noite, cumprir a vida, deitar-se para amanhã recomeçar.


Telhados de Vidro, n.º 14, Averno, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

JORGE ROQUE

2


Da paixão cansei-me (pode acolher tanta morte um corpo, esse mesmo que brilha à luz do desejo, esse mesmo que guarda a promessa da alegria). A verdade gastou-se (isto é o mais fácil de compreender: a verdade gasta-se, quando chegamos ao lugar de a encontrar, sabemos por fim que não existe). Sobrou o que sou e o que não sou também, pelo meio a linha de uma estreita solidão, e é isto que te dou (isto o que te posso dar). Só aqui, só agora, este sorriso de estar vivo, e por vezes o cansaço (que embora não pareça faz parte do sorriso). E agora já me entendes? E agora ainda me queres?


Telhados de Vidro, n.º 13, Averno, Lisboa, 2009.

domingo, 15 de março de 2009

JORGE ROQUE

[PODER E CONTRAPODER PERSEGUEM CEGOS O MESMO PODER]


Poder e contrapoder perseguem cegos o mesmo poder. Assim não é de espantar que a inteligência do poder consista precisamente em fomentar o contrapoder. Um preceito antigo por largos séculos testado: a melhor forma de derrotar o inimigo é seduzi-lo.
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Telhados de Vidro, n.º 8, Averno, Lisboa, 2007.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

JORGE ROQUE

CANÇÃO


Doi-me aqui estou só.


Broto Sofro, Averno, Lisboa, 2008.