Mostrar mensagens com a etiqueta José Alberto Oliveira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Alberto Oliveira. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

FOLHAS


Duas folhas secas
de plátano
entram comigo
no elevador.
Também elas
empurradas
pelo vento.


Telhados de Vidro, n.º 21, Averno, Lisboa, 2016.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

CRÓNICA


Uma gripe que se arrasta,
um jantar que ficou azedo,
uma lembrança por enganosa,
um empenho que não vale o que custa.
Para outra altura fica o resumo
dos milagres, o relato dos prodígios,
a prova derradeira da falência dos humores.

Agora, mais do que antes, os artistas
têm pressa e o demiurgo acordou;
o espírito afundou-se nas águas.
Amanhã, quem acordar cedo terá
mais tempo para se arrepender.


Como se nada fosse, Assírio & Alvim, Lisboa, 2015.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

LEMA


Depois alguém morreu;
a estada tornou-se penosa,
o verão parecia não ter fim.
Era tempo de fazer malas
e projectos, de trocar
pautas por desacertos,
como, no último trimestre
do liceu, quem se apaixona
e arrepende da solidão que perdeu.
Assim chegou o outono
– depois alguém morreu.


Resumo: A poesia em 2011 [de Tentativa e erro], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2012.

domingo, 17 de julho de 2011

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

CRÓNICA


Uma gripe que se arrasta,
um jantar que ficou azedo,
uma lembrança por enganosa,
um empenho que não vale o que custa.
Para outra altura fica o resumo
dos milagres, o relato dos prodígios,
a prova derradeira da falência dos humores.

Agora, mais do que antes, os artistas
têm pressa e o demiurgo acordou;
o espírito afundou-se nas águas.
Amanhã quem acordar cedo terá
mais tempo para se arrepender.


Telhados de Vidro, n.º 15, Averno, Lisboa, Junho de 2011.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

ANNA MAGNANI


A mãe de Luis Buñuel, no fim da vida,
folheava revistas, página por página,
não reconhecia os filhos, placa giratória
em torno da qual os objectos se instalavam
ou, de súbito, nasciam. A mãe de Luis
Buñuel, no fim da vida, feita um aviso.

A luz inclina-se nos telhados de Lisboa,
assegurando que nem um sopro condensa
no negativo. Há noites em que conseguimos
alcançar uma tristeza comum: a cadela
mordisca a pata, eu fumo um cigarro.
Do enquadramento resulta a insensatez do equilíbrio:

uma greta de frieiras, o cieiro nos lábios,
a maldade que resiste numa máquina eléctrica,
desligada. Escrevo à luz das velas,
haverá linhas baralhadas. Um comércio
de sucedâneos, de imitações rasteiras
de vigarices caducas, tem dourado o século.

Não têm conta os utensílios baratos
que se podem comprar, até a crédito.
Finge-se que não se percebe. Como sofrer,
sem reclamar o sofrimento? Um rosto que exige
renúncia, a fé toda que foi extraviada,
um abismo, de olhos enxutos.


Poemas com cinema [de Peças desirmanadas e outra mobília], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 13 de setembro de 2009

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

BEATITUDE


Assim, bento de ignorância
e desleixo, deslizo
pelo cano dos dias
– projectos? – todos grandes
e muitos,
certo de que o tempo
os vai gastando,
ao ritmo a que se amontoam
as beatas no cinzeiro
e com o mesmo cheiro.


Nada Tão Importante, Que Não Possa Ser Dito, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

POLÍTICA


É um poeta sério,
que escreve versos sérios,
foi o que me disseram,

árduos, saudáveis,
que se podem repetir
antes de almoço

e depois da eucaristia,
em que a realidade,
essa puta velha,

não é menos resistente
que ele e outros,
que dão o corpo ao manifesto
e confirmam, sem caução,

que a solidão é paciente
e o desejo anónimo
– as manhas do canastro

cabem todas em qualquer
cama ou no verso
e meio que ainda falta.


Mais Tarde, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.