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sábado, 27 de janeiro de 2018

JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

MEDITAÇÕES PORNOGRÁFICAS


[...]

Algumas vozes, jovem e benévolo leitor, poderão dizer que pornografia é o assunto menos apropriado para quem, como eu, começa a medir a existência não por anos, como os novos, mas por décadas, como os velhos. Ora, em meu cansado ver, parece que se enganam. É por uma questão de tempo acumulado de experiência que deste modo e nestes termos falo, pois estou, meu amigo invisível, a entrar com paz e sem azedume nessa idade em que já se vai preferindo o calor de certas imagens, assim como o braseiro de raros livros amados, à frieza cadavérica das pessoas. E de resto, tudo isto muito em breve de pouco há-de importar finalmente, caro irmão que de passagem me lês e de quem com pena despedindo me vou apartando devagar, porque razão tinha por inteiro e em grau superlativo Camilo Pessanha ao escrever os versos: «Imagens que passais pela retina / Dos meus olhos, porque não vos fixais? / Que passais como a água cristalina / Por uma fonte para nunca mais!...».


Telhados de Vidro, n.º 22, Averno, Lisboa, 2017.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

SE


Se tiver medo, não posso
atravessar esse bosque,

todas as copas das árvores
hão-de ladrar aos meus pés.

Até a lua por certo
com veneno cor do leite

à socapa vem morder-me
na ponta do calcanhar.

Se tiver medo, não posso
atravessar esse bosque,

as ervas hão-de ceifar-me
antes mesmo de morrer.


Obsessão, & etc, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

MARTÍRIO DE SÃO SEBASTIÃO


No canto esquerdo superior está suspenso
um anjo descido do céu para coroar
de glória o corpo martirizado do jovem
capitão da guarda pretoriana ao tempo
do imperador Diocleciano e apóstolo
da fé cristã fervoroso como se deixa
pela expressão facial adivinhar no quadro
feito por encomenda dos piedosos membros
da sacra confraria de São Sebastião
no ano de mil quinhentos e vinte e cinco
e comprado pelo grão-duque da Toscânia
muito mais tarde nos finais de Setecentos
para continuar na cidade de Florença
onde Sodoma, o pintor, o executou.


El Arte de la Pobreza: Diez Poetas Portugueses Contemporáneos (de O Rei de Sodoma e Algumas Palavras em sua Homenagem), org. José Ángel Cilleruelo, CEDMA, Málaga, 2007.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

AO ANOITECER


Sou um velho rato celibatário
– a lei não me permite casamento.

Outros encontram sem dificuldade
o universo pronto a vestir

logo de manhã, desde que nasceram.
Depois trajam todas as convenções

– que lhes assentam bem, do colarinho
às mangas, até parece que Deus

é um alfaiate por conta deles.
A nós, a melhor roupa fica mal

– em nenhuma loja vendem sapatos
que nos deixem ir noutra direcção,

nem anel que não faça propaganda
à ordem sempre «natural» do mundo.


O Casamento Sempre Foi Gay e Nunca Triste, & etc, Lisboa, 2009.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

OSSUÁRIO


Calor da tarde de Agosto
nesse Verão já longínquo.

Sobre a cancela um sobreiro:
sob o sobreiro, ninguém.

O resto ficou escondido
na margem de poucos versos.


A Mãe de Todas as Histórias, Averno, Lisboa, 2008.