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terça-feira, 26 de novembro de 2013

JOSÉ MÁRIO SILVA

AVENIDA ALMIRANTE REIS


Os corpos encostados à parede
talvez recordem paisagens brancas,
um inverno ucraniano com árvores
perdidas na neve. Que outros olhos
viram estes olhos? Eu passo por eles,
eles não me vêem. Partilham a garrafa
de vinho, um pente. E a montra do café,
apagada e triste, serve-lhes de espelho.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Luz indecisa], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

domingo, 3 de maio de 2009

JOSÉ MÁRIO SILVA

O. F. (1967-2007)


Do que não precisamos agora é de brilhos fúteis,
truques verbais, exercícios de lirismo magoado.
As palavras são só palavras, nem coisas maiores
nem mais altas, apenas pedras que lançamos
ao poço para ouvir como se agitam as águas.
Lá fora o vento e os telhados agrestes, o céu
da cidade ostensivamente idêntico ao dos
dias felizes. Empilhamos, melancólicos,
livros que já foram mais transparentes.
Conferimos as margens, a mancha gráfica,
os indícios de uma perfeição talvez inútil.

Mesmo olhada de frente, a ausência
continua a ser cruel, o silêncio uma
ignomínia. Descemos à rua, bebemos
café, fingimos seguir em frente. As
palavras são pedras que afinal ficaram
nos bolsos, guardadas para um inimigo
que se ri e só destapa o rosto medonho
quando está fora do nosso alcance.


Luz Indecisa, Oceanos, Lisboa, 2009.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

JOSÉ MÁRIO SILVA

CREPÚSCULO


A oliveira cresce de encontro ao céu,
com a luz dourada entre os ramos.
Há um perfume de rosas murchas,
o som do mar lá muito ao longe.
Calam-se por fim os ecos, as coisas.
Todos os caminhos levam à noite,
à sua cilada de estrelas e penumbra.


Nuvens & Labirintos, Gótica, Lisboa, 2001.