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domingo, 16 de julho de 2017

JOSÉ MIGUEL SILVA

MÚSICA ANTOLÓGICA & TODOS CONTENTES


Bom é gostar daquilo que os amigos escrevem
e não ter de mentir na volta do correio.
Não há felicidade mais em conta nos tempos
que correm. Somos gratos a quem nos elucida
sobre a queda do cabelo ou a fraqueza da razão,
quem nos lembra que ainda temos tempo
de morrer acompanhados. E, só por esta vez,
esquecemos todo o nojo que sentimos
de nós próprios, escolhemos a camisa mais
lavada, escovamos o sorriso, e recebe-nos a rua
— quem diria! — com um beijo em cada face.


Últimos poemas, Averno, Lisboa, 2017.

domingo, 5 de março de 2017

JOSÉ MIGUEL SILVA

OS DADOS ESTÃO LANÇADOS — JEAN-PAUL SARTRE


Todos temos um primeiro livro, uma súbita
roldana, fornecida por acasos que desmentem
a balela do destino. Nada estava escrito
nessa noite de Dezembro, quando o Jaime
me emprestou, por entre brados de cassetes,
o rastilho dum rizoma movediço, que depressa
levaria a um sorteio de paixões encadeadas,
de Pessoa a Franz Kafka, Zaratustra, Baudelaire
e mais além, o largo mundo do enleio literário.

Cedo me fiz sócio, claro está, da biblioteca
e fez-se curta de repente a semanada, detestável
a conversa dos amigos que não liam, pavorosa
a centopeia do dever. Dum momento para o outro,
estava só e mais calado, mais inculto do que nunca.
Cada noite adiantava dez minutos o relógio
da insónia, e de manhã tinha um poema formidável
para o cesto dos papéis. Para mim, foi assim
que começou. Mais adiante explicarei como acabou.


Cão Celeste, n.º 10, Lisboa, 2016.

sábado, 30 de agosto de 2014

JOSÉ MIGUEL SILVA

NOCTURNO


A arte já sabemos nasce
da imperfeição das coisas
que trazemos para casa
com o pó da rua
quando a tarde finda
e não temos água quente
para lavar a cabeça.

Tentamos regular
com açudes de orações
o curso da tristeza
mudamos de cadeira
e levamos a noite
a dizer oxalá
como se a palavra
praticasse anestesia.


Ulisses já não mora aqui, 2.ª edição, revista, Língua Morta, Lisboa, 2014.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

JOSÉ MIGUEL SILVA

TEATRO POLÍTICO

Para o Rui Miguel Ribeiro

Quando tudo é mentira,
a mentira torna-se invisível
como o dedo do encenador.

O pano sobe, de fumo,
e nada representa nada
nem ninguém.

Às escuras, o público sorri,
o público aplaude, julgando
seguir, entender a história.

Se um grama de verdade,
todavia, custa hoje
setecentas ilusões apodrecidas

e o preço da entrada
é suspensão da descrença,
só de fora é perceptível

o entrecho da decomposição,
com seus ritos e porquês
assinalados a vermelho:

o vinho do desejo cultivado
em bardos de necessidade,
a bolha esburacada da democracia,

a corrente de facadas e suturas
a que chamamos progresso,
o beco sem saída da evolução.


Cão Celeste, n.º 4, Lisboa, 2013.

domingo, 7 de outubro de 2012

JOSÉ MIGUEL SILVA

PREOCUPAÇÕES NATURAIS


Eu não tinha muita coisa e hoje tenho
a soma dos teus passos quando desces
a correr os nossos treze degraus e
me prometes: até logo. Mas se
nada (ou só o nada) está escrito,
quem mais ama é quem mais tem
a recear. Com isso, passo horas
num rebate de dramáticos motivos:
engano-me na roda dos temperos,
ponho sal na cafeteira, maionese
no saleiro, vejo o mel mudar de cor
e se me chama o telefone empalideço
como o rosto do relógio da cozinha.
Só sossego quando as gatas me garantem
que chegaste e posso então, aliviado,
unir-me ao coro de miaus que te recebe,
para mais uma noite roubada ao escuro.


Resumo: A poesia em 2011 [de Serém, 24 de Março], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Fnac/Documenta, Lisboa, 2012.

domingo, 27 de novembro de 2011

JOSÉ MIGUEL SILVA

CORRENTE ALTERNA


Não sei o que é melhor neste jardim
amuralhado, se o aperto de viver
entre repouso e coerência, ou a injúria
de vogar entre palavras e mais nada,
dando visos de ilusão a criaturas

condenadas: a mesa posta à sombra
da figueira, a certezinha das roseiras
e das rãs, que não se cansam de louvar
a imolada providência dos insectos,
sem saberem da defunta Primavera.

O sol desaparece entre eucaliptos
e acácias infestantes. No laguinho
a noite tomba sobre folhas de nenúfar
e os peixes já recolhem para o fundo
o seu modelo de verdades sem mistura.

Está na hora de fechar este caderno
e acender o buzinão noticioso,
pois o espírito alimenta-se em atrito,
e a arte é um trajecto de nenúfar,
intervalo colorido, entre a luz e o lodo.


Serém, 24 de Março, Averno, Lisboa, 2011.

domingo, 17 de abril de 2011

JOSÉ MIGUEL SILVA

ANDRÉ GIDE

Para o Joaquim Manuel Magalhães

O mais veloz corredor da sua geração, pelo menos
no arranque, não admira que tenha chegado primeiro
a muito lado. Mas tão cedo partia, invariavelmente,
que nem louros nem medalhas, pois a prova ainda não
tinha começado. Sofria essa mania de correr por fora
de qualquer certame, por conta própria, em mandatos
espontâneos, auto-atribuídos. Deste modo, andava
sempre sozinho, porque quando os seus émulos partiam,
já ele estava em casa, a preparar com a sombra a sua
próxima aventura, que no fundo consistia em abrir pistas
para quem viesse atrás. Assim, se queria conversar com
alguém, só lhe restava fingir uma queda no senso-comum,
uma lesão no joelho – e amiúde o fazia, pois na verdade
pouco tinha de misantropo, chegando mesmo a execrar
como maldita a compulsão que o levava a partir antes
do tiro de largada, e a chegar primeiro onde ninguém
o esperava. Talvez isso explique a timidez de anacoreta
que sempre exibia, e a prudência relativa das suas passadas.
Dez ou vinte anos depois, acelerados epígonos diriam
morosas as suas corridas, convenientemente esquecidos,
como é próprio de retardatários sem vergonha, que se
faziam melhores tempos (os que faziam), era em pistas
utilmente batidas e inauguradas por ele, o pujante pioneiro.


Público, Lisboa, 16 de Abril de 2011.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

JOSÉ MIGUEL SILVA

FALA CIRCE


Três e meia da manhã.
É inútil procurar o candeeiro.
No estuque da insónia,
o filme recomeça.
Que fim será o fim?

Pretéritos prazeres,
cigarros consumidos
– é isto o coração:
um cinzeiro de metal?
Preferia não fumar.

Quero tanto o teu amor
que termino a odiar-me.
Quem me dera ser o Rambo,
saber sempre o que fazer ao inimigo.
Não sei por que sorrio,

quando tudo o que me resta é a magia
que me traz o Halcion: sonhar
que não existes, nem o filme,
nem o fumo, nem o frio, nem o fosco
cinzeiro de metal.


Poemas com cinema [de Ulisses já não mora aqui], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 5 de dezembro de 2010

JOSÉ MIGUEL SILVA

FIESOLE

Para a Anabela Vara Alves

Eu pensava que ser rico se cifrava
na licença de comprar todos os livros
que quisesse, sem credores nem arrepios
no estômago, e ter tempo para ler
duzentas páginas por dia, mais as duas,
três semanas de museus e passeatas
anuais por latitudes europeias.

As viagens propiciam o descaso,
certamente, de razão e sentimento.
Doutro modo não se explica que
assim que vi as casas de colina
que rodeiam Fiesole tenha logo
reduzido de seis maços para cinco
a minha dose de cigarros semanal.


Erros individuais, Relógio d'Água, Lisboa, 2010.

domingo, 15 de agosto de 2010

JOSÉ MIGUEL SILVA

A BARREIRA INVISÍVEL – TERRENCE MALLICK


É difícil caminhar sobre uma linha invisível,
uma linha de água, entre o mal e o mal.
Divididos pelo sangue que atravessa os pensamentos,
do inferno ao paraíso, com o medo entrelaçado
na memória, os bolsos pesarosos de metal ferroso,
caminha sobre as águas quem caminha sobre si.
Por isso é tão difícil caminhar sobre as águas.


Periférica, n.º 4, Vila Pouca de Aguiar, 2003.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

JOSÉ MIGUEL SILVA

PART-TIME

Fifteen minutes with you I wouldn't say no.
The Smiths

Durante muitos anos trabalhei em part-time
na Livraria Bakunine, ao Carregal.
Não foram os anos mais felizes da minha vida,
pois o amor, o ranço, a solidão, a verdade
é que ficava muitas horas encostado à montra
a ver se tu entravas perguntando se eu tinha
segredos, sebes, aluviões ou a ignorância
da morte. Dir-te-ia que sim. Mas tu,
Gata Borralheira, só querias saber de astrologia,
de puericultura, de pronto a vestir para o outono
da alma. Raios te partam, rapariga,
como podia eu amar-te, tão estúpida eras.


Periférica, n.º 3, Vila Pouca de Aguiar, 2002.

quarta-feira, 17 de março de 2010

JOSÉ MIGUEL SILVA

SONHOS POP


Baixo, guitarra, furor, bateria: o habitual
da insurreição juvenil, retiro de ofendidos
ou coisa que o valha, por todo um meio Inverno
de rotos acordes. Dizer que foi um sonho
é já efabular, se até os instrumentos eram
emprestados, os gritos de empestado, a pose,
o cuspo dos pês no microfone suburbano.
Não, não era isso. Não era sequer a música:

apenas a suspeita de nenhum futuro, como
berravam os piores cantores; o desconsolo
do real, tão alheio à fantasia do possível.
Quando tudo nos chamava pelo nome e
ninguém desconhecia que devíamos à morte
uma conta calada, um balúrdio de espuma.
E assim a juventude, em nosso peito,
retumbava uma batida detestável.

Foram cinco, seis semanas de frustradas
tentativas, todas muito de partir o comboiinho
do sentido. Pelo tropel de decibéis desnorteados
percebemos que corríamos a monte, sem
feitio nem agrado. Não era por ali. Paciência,
concluímos, cada um para seu lado: o das vozes
para os livros, o baixista para as mágoas,
o guitar para a mentira, o baterista para a morte.


Divina música: antologia de poesia sobre música (de Walkmen), org. Amadeu Baptista, Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

JOSÉ MIGUEL SILVA

NO PRONTO-A-VESTIR


Não precisava de outro par de calças
mas a luz, o suborno dos sorrisos, a ternura
de cetim obrigaram-me a entrar.
Depois, na pátria dos Lotófagos,
a festa carmesim, o vermelho-coração,
o gosto a paraíso nos decotes de veludo
– entre ganga e algodão dividi o meu pesar.

Tempos houve em que das torres das igrejas
se avistavam os limites da cidade (ou era
da verdade?). Mas foram, como sabes, encolhendo.
Pouco a pouco fomos vendo, impossíveis
de limpar, as nódoas nos tecidos mais amados,
o nastro dos afectos desfiado pelo vento.
Desbotaram os caminhos, alargaram os casacos
e a sombra dos sobreiros, quem a viu e quem a vê.

Nada disso, porém – garantiram-me na loja –
poderá acontecer com as minhas calças novas.


El arte de la pobreza: diez poetas portugueses contemporáneos (de Ulisses já não mora aqui), org. José Ángel Cilleruelo, CEDMA, Málaga, 2007.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

JOSÉ MIGUEL SILVA

VIA DI CITTÁ


Nas cidades educadas, como Siena,
as casas fazem os homens e não
os homens as casas; as ruas param
para os deixar passar e eles passam,

como lhes cumpre, sem protestos
de pilão e camartelo, agradecidos,
deixando atrás de si o palco limpo
para a gala dos vindouros e seus actos.

Suas sombras acomodam-se à virtude
de passar sem aparato. Não se toldam
com licores de petulante afirmação,
não arruínam, por despeito, a perfeição.

Limitam-se a passar, a transferir
duma gaveta para outra as escrituras,
o afecto dos contratos. E nisso mostram
tudo o que, na vida, é possível aprender.


Telhados de Vidro, n.º 11, Averno, Lisboa, 2008.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

JOSÉ MIGUEL SILVA

PARTE POÉTICA


Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos por dia,
pois levanto-me tarde e primeiro há que lavar
os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
Chegar por fim a casa para a prosa
de uma carne à jardineira, o estrondo
das notícias, a louça por quebrar. Concluindo,
só por volta das duas da manhã começo a despir
o fato de macaco, a deixar as imagens correr,
simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.


Relâmpago, n.º 12, Fundação Luís Miguel Nava, Lisboa, 2003.

quarta-feira, 25 de março de 2009

JOSÉ MIGUEL SILVA

SUICIDA


Quando me lancei fi-lo na convicção
de que o meu sofrimento mudaria de dono,
ficaria para ela, merecido legado
para quem sempre gostou de nutrir o ciúme,
essa carnívora planta a cujo habitat
chamamos coração. Eu pensava desfrutar
da vingança por toda a eternidade.
Mas o facto é que à medida que o meu corpo
descia em direcção ao rio um calafrio
fez-me pôr em dúvida a eficácia do castigo:
e se ela recusar a expiação, se for mentira
este consolo que me ofereço, derradeiro?
Ao passar, amigos, pelo tabuleiro de baixo
já ia arrependido. O pânico safou do meu rosto
o beatífico sorriso. Que estúpido sou,
que mesquinho, bem mereço... e não tive tempo
para pensar mais nada. Tu que passas
por esta lápide, escuta: ninguém morre de amor.
De orgulho sim, de despeito, de pura idiotice
ou desejo insaciado. E o sermos amados
quase sempre só depende de nós.


Telhados de Vidro, n.º 2, Averno, Lisboa, 2004.

domingo, 18 de janeiro de 2009

JOSÉ MIGUEL SILVA

QUATRO


Nesse tempo ainda as raparigas
não tinham sido inventadas.
Éramos só nós, o bando dos andróginos,
a correr atrás dos gatos.

Amoras e ameixas acenavam-nos
atrás de gradeados.
Quem mijava a cinco metros
empunhava o caduceu.
A ordem natural era seguida
com feroz habilidade.

Nenhum de nós sabia
o decálogo de cor. À força
e ao arrojo chamávamos humano.
Entrávamos em Tróia de joelhos
esfolados. E uma pedra, bem lançada,
valia um argumento.

O pior que nos podia acontecer
era sermos exilados, condenados
a brincar ao invisível
com a raça das escuras raparigas,
aprender a passajar o verso heróico.

Só mais tarde o gineceu saiu à rua;
trazendo laçarotes, mandamentos,
aromas esquisitos. Mas isso, já se sabe,
é outra história.


Vista para um pátio, Relógio d'Água, Lisboa, 2003.

domingo, 23 de novembro de 2008

JOSÉ MIGUEL SILVA

TREVAS

Para o Manuel de Freitas

E o pior é que chamamos liberdade
a um tapete que, rolante, já não ouve
a opinião dos nossos pés; que nos leva
para onde e anuímos, alheados,
aos mecânicos desígnios do terror.

Respiramos cadeados, consumimos injustiça,
damos duas várias voltas ao risonho torniquete
que nos serve de chapéu; trocamos a cabeça
por um prato de aspirinas. Os clássicos da vida
sem tristeza nem remorso (Cinderela,

Varadero, off-shore) iluminam o cenário
em que dormimos, inocentes como balas
e nem sei como não somos mais felizes.
As rémoras, os ogres, os deuses mais bonitos,
velam nossa carne como grifos educados.

O tratado das sementes, o saber do lenhador,
queremos lá saber de quem é pobre como nós.
Confiados ao acaso, disputamos amuletos,
reforçamos sob os pés a solidez do desacerto,
colocamos outra pedra no sapato.

Para o centro do inferno dirigimos
este filho, o filho deste carro,
cativados pelo direito conquistado
de entregar os nossos dias, como rezes,
ao cutelo de despachos infiéis.

Neste cerco, viver é uma questão
de prorrogar o desalento, de iludir
o infortúnio: cerramos uma porta suicida,
desatamos a gravata, ficamos satisfeitos
quando o gelo, na bebida, é de boa qualidade.

Se olhamos para o chão desaparece
o horizonte; se olhamos para o céu
ficamos sós. Não percebo como rimos
quando pedem que posemos para a foto
de família. Alguém nos enganamos.

Confundidos pelo surto de mentira,
leiloados pela última hipnose,
enxertados no pedúnculo da morte,
semi-envergonhados, de sorriso padecido,
dizei-me se este rosto de cartão amarrotado,

se esta alma como um campo pedregoso,
se estes pés adaptados ao espinho,
se isto que nós vemos é um homem.


Ulisses já não mora aqui, & etc, Lisboa, 2002.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

JOSÉ MIGUEL SILVA

LADRÕES DE BICICLETAS — VITTORIO DE SICA (1948)


Mil quilómetros por dia pedalava meu pai, desde
a cama junto ao Douro até à próspera Cerâmica
de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da Primavera, a poalha do suor em cada mão.

Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veículo de sombra,
solitário trepador pela encosta de Avintes. Não
trabalha em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões na nacional,
onde tudo, depois, será muito mais plano.


Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, Lisboa, 2005.

terça-feira, 22 de julho de 2008

JOSÉ MIGUEL SILVA

SO GOODNIGHT


Não posso dizer que tenha aprendido grande coisa
nos últimos, digamos, duzentos anos.
Há muitas perguntas que vão perdendo altura
à medida que as penas tombam e também
as garras já não prendem como soíam.
Depois de ter visto de que palha são enchidos
os príncipes felizes, já não saio de casa
sem levar comigo uma carteira de fósforos.
Agora tenho mais tempo morto, só de cinco
em cinco anos compro uma pilha nova
para o relógio. Em vez de cortar os pulsos
cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
para lhe perguntar por que não tocas.
E o que mais me custa, no fim de contas,
é dar razão a Confúcio quando afirma:
quanto mais te ergues para Deus mais ele
de ti se afasta, deixando-te sozinho
a arrumar a casa. Mas estes chineses,
na filosofia moral como no ténis de mesa,
acabam sempre por levar a taça,
e por esta altura da minha queda já concedo
que seja o silêncio a condição natural
para uma ave sem nome que Setembro chamou
e que há duzentos anos não aprende nada.


Walkmen (com Manuel de Freitas), & etc, Lisboa, 2007.