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sexta-feira, 27 de julho de 2012

LUÍS FILIPE PARRADO

TEORIA DA NARRATIVA FAMILIAR


Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da cor da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois, a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.


Entre a carne e o osso, Língua Morta, Lisboa, 2012.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

LUÍS FILIPE PARRADO

COM UNHAS E DENTES


Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.


Resumo: A poesia em 2010 [de Criatura, n.º 5], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

LUÍS FILIPE PARRADO

AS UNHAS


Sim, as unhas. Único órgão humano
que merece ser cantado no poema,
ele mesmo uma espécie de unha, laminar.
Garras ou pétalas,
precisam de corte e medida certa,
insistindo, depois do fim
da carne (que guarneceram toda uma vida),
em crescer para nada.
Últimas, mínimas transparências
fibrosas e amareladas
— pelos muitos cigarros. E
ainda se riem da morte,
já no caixão, sinal
de força sob a irremediável fraqueza humana.
Espigões quebradiços
com que ferimos o chumbo,
esse coração que Conrad disse um dia ser de trevas.


Criatura, n.º 5, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2010.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

LUÍS FILIPE PARRADO

NA ASSEICEIRA, LENDO SOBRE A VIDA E A OBRA DE PAUL GAUGUIN


A luz de fim de Agosto declina sobre
o terraço desta casa na província
onde leio que

o pintor Paul Gauguin
se esquivou às obrigações familiares
abandonando mulher e filhos

para poder viajar pelos Mares do Sul
e «perseguir a sua arte».
Por ter lido agora estas palavras

ergo os olhos da página 57
e vejo à minha frente
o bando de corvos poisado

nos grossos cabos eléctricos,
a planura do céu, o campo de milho
mais extenso das redondezas

onde se escondem os meus filhos
um do outro, e os dois de mim.
Para Gauguin, regressando à leitura,

o apelo da criação,
o amor profundo pela pintura
falaram mais alto do que a prosa

da existência pequeno-burguesa
da segunda metade de Oitocentos
motivo que o conduziu à rejeição

«dos deveres convencionais
para com a família»,
definitivamente deixada para trás.

Mas, mesmo sublinhando frases claras,
não se torna evidente para mim
se o pintor fez o «que sentiu

que tinha que fazer para atingir
o seu mais alto grau de excelência pessoal»
e, deste modo, legar aos homens

«o fruto da sua arte»
(como argumentam Shai Biderman
& Eliana Jacobowitz)

ou se, mais exasperadamente
do que possa parecer,
a pintura foi a tábua de salvação,

o último recurso para a fuga
ao pântano (outros dirão ao inferno)
da vida conjugal, em Copenhaga,

com Mette Sophie Gad e as 5 crianças.
Quanto a mim,
gostaria de desfazer a dúvida

e prosseguir a leitura,
no entanto, na província,
o sol de fim de Agosto dissolve-se

por detrás do telhado da casa
e a noite vai estendendo uma frescura ventosa
que torna praticamente impossível

o acto de ler.
Quase às escuras
restam-me, pois, os gritos dos filhos,

algures,
e a voz da minha mulher a dizer
que é preciso pôr a mesa para o jantar.

Por isso,
porque não estamos no Taiti
nem no século XIX

nem eu sou o famoso pintor primitivo
moderno Paul Gauguin,
marco a página, fecho o livro

e levanto-me
para tratar dos pratos e talheres.
O poema, desculpem, tem que ficar por aqui.


Resumo: A Poesia em 2009 [de Criatura, n.º3], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 26 de abril de 2009

LUÍS FILIPE PARRADO

TUDO O QUE O MEU PAI ME DISSE QUANDO, AOS 15 ANOS, DECLAREI EM FAMÍLIA QUE IRIA COMEÇAR A ESCREVER POESIA


"Antes
de te sentares
à mesa
lava bem
essas mãos."


Criatura, n.º 3, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2009.