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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

MIGUEL-MANSO

BALADA DA RUA DAMASCENO MONTEIRO


ardia de amor pela casa
numa confusão de silêncios ou
dizendo de outro modo

afundava-se numa líquida recordação cardíaca

ocultos pólen pólvora fósforos
a má reputação dos dedos
paixão cartografada remota
toponímia de enganos

braço a braço crescia alto
o incêndio no interior do peito
deliberado ritual de lâminas e pele
a transparente certeza
da cicatriz

mas ardia de amor pela casa soturna
silêncio dando para o saguão luz muitíssimo
extinta por sobre a larga extensão destruída

morrer, principalmente de amor, é
uma compendiosa tarefa doméstica

dentro do coração antigo
serei breve


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Contra a manhã burra], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

MIGUEL-MANSO

[ABRES O ALÇAPÃO, PÕES O BRAÇO]


Abres o alçapão, pões o braço lá dentro. O que retiras de lá não é o que retiras de lá, mas ocupa um lugar. É um lugar o que retiras do alçapão. Um lugar a menos


Um lugar a menos, edição do Autor, Lisboa, 2012.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

MIGUEL-MANSO

[PONHO PALAVRAS ONDE VOU MORRER]


ponho palavras onde vou morrer
e estremeço porque a vida se dissipa
como água derramada no soalho

entre muitas outras coisas escrever
é procurar nos confins

além tempo e sucessão de espaços
a demorada nomenclatura do efémero


Aqui podia viver gente, Primeiro Passo, Amadora, 2012.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

MIGUEL-MANSO

POEM NOT FOUND


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Ensinar o caminho ao Diabo, edição do Autor, Lisboa, 2012.

quinta-feira, 10 de março de 2011

MIGUEL-MANSO

O FOGO, A CIDADE


às vezes sobre
as palavras pesa um dia luminoso, a clara
imprecisão de um gesto
o corpo inclina-se para a água
do poema

a roupa estas mãos o torpor da casa
quando o silêncio a morna demorosa voz
se desfazem no ritmo entontecido
do mundo

caminho descalço sobre a página
olho uma outra vez
voltando-me para trás
o fogo, a cidade


Quando escreve descalça-se (3.ª edição, revista), Trama, Lisboa, 2011.

domingo, 2 de maio de 2010

MIGUEL-MANSO

OS CARIMBOS DE GENT


há maneiras bem piores, mesmo assim
de queimar a juventude

faltam ainda, no momento em que escrevo
sete carimbos até ao final
sete anos de pastor Jacob servia
ou seis, caso o leitor me confirme que
tem na sua frente este poema

sinal de que o mesmo terá sido, também ele
um dos escolhidos para definhar junto dos outros
no esmerado lote do terceiro livro

o livro beat
– de beatitude, assentemos assim –

se está a pensar, eventual leitor, acompanhar-me
mesmo que de modo fortuito, neste escusado exercício
saiba que nunca estive tão perdido como agora

duvide de tudo o que lhe parecer escorreito
não se deixe enganar sequer pela imprecisa
citação dos clássicos

Santo subito, edição do Autor, Lisboa, 2010.

domingo, 21 de março de 2010

MIGUEL-MANSO

NO NÚMERO DE OUTUBRO DA REVISTA WIRE


frente ao fotógrafo e ao leitor
o homem envelhecido parece que já não olha
Mitra o deus sol dos psicadélicos

noutra foto
no interior da revista o poeta está sentado
a uma pequena mesa de frente para a janela
onde as cortinas brancas filtram
a luz e o ruído da rua

sentado na cadeira de rodas
ele espera dentro da claridade
delicada da manhã

e depois durante a noite

assiste ao que resta do mundo
junto à máquina (a soft machine) de escrever
pousada no tampo (eu ia escrever
no tempo) da mesa

não sei se caem pétalas dentro
do olhar de Robert Wyatt não sei o que escreve
agora na tábua das constelações

essa realidade desabitada dos versos
e dos jardins


Divina música: antologia de poesia sobre música [de Contra a manhã burra], org. Amadeu Baptista, Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009.

domingo, 16 de agosto de 2009

MIGUEL-MANSO

WIM MERTENS
Stratégie de la Rupture


o Pragal (e evitámos sempre
peregrinações que fossem para lá
da praia mais a sul da Caparica) era
uma manhã muito branca

vindos de Lisboa e da Noite
ainda os olhos ruminavam os reflexos do rio
que havia maquinado beleza e cegueira
dentro do comboio da ponte e de nós

a sala de desenho
– com a palavra Deleuze a giz no quadro negro
seguida de mais uma daquelas citações bastante
herméticas e, diga-se, cheia de erros ortográficos –
era tão branca como a manhã do Pragal

alguns de nós eram os menos talentosos
artistas do Reino

eu, por exemplo, que preferia mil vezes
o almoço na cantina, a comer o coração da mãe
para entender a linguagem dos pássaros
e apreciava a chegada do bom tempo
cultivando a preguiça nos jardins

a minha produção, é verdade, caminhava já
para um lugar etéreo, ténue, um desses lugares
que podemos encontrar apenas no Dicionário de
lugares imaginários (nem deve ter sequer entrada)
limitava-me a marcar em algumas folhas
uns insuspeitos carimbos
que comprara

em lugar das académicas vaias
havia para nós, Joana, músicas


Telhados de Vidro, n.º 12, Averno, Lisboa, 2009.

domingo, 21 de junho de 2009

MIGUEL-MANSO

CONTINUAÇÃO DE JEAN NICOT


sou dentro de mim o que quer fugir
embora vá recusando a cada bafo
o panorama dos astronautas

tiro notas
dos calendários gigantes
das marés do sol e da lua
do rasto agrícola das nossas mãos
sobre a mesa

de madrugada
remo como exilado inca
em direcção à luz

se ainda me for fácil mentir direi
é afinal a única substância do poema
este cigarro entre estrofes


Contra a manhã burra (2.ª edição, revista), Mariposa Azual, Lisboa, 2009.

domingo, 25 de janeiro de 2009

MIGUEL-MANSO

CAFÉ CASTRO


com cigarros dando para altos janelões
com garrafas soturnas canções vazias
medito em esquemas falhos de viabilidade
financeira – são um descanso estas imaginações
diletantes e portuguesas na recuada
cidade de Budapeste

permitem chegar apenas a este lugar isolado
ao plano B: texto que o autor não
burila no interior do café

mas proponho-lhe:
esqueça tudo isto os cartazes cubanos a empregada
curiosa e loira e avance para o poema seguinte
sem grandes remorsos

evitará demorar-se num desenho de nuvens
no tecto de um quarto (qual?)
festejar o fim de nenhuma vindima
aperceber-se do erro juvenil que é fechar um poema
com a palavra morte
sobretudo não lhe falarei de Walt Whitman
ou David Beckham

mas depois, peço-lhe
atrase-se outra vez suspenda por um momento a leitura
num desses gestos vazios: coçar a cabeça
coçar o queixo

espere que este autor recupere de novo terreno
e partamos os dois para baixo – haverá outro sítio? –
para o poema seguinte


Quando escreve descalça-se, Trama, Lisboa, 2008.