Mostrar mensagens com a etiqueta Nuno Júdice. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nuno Júdice. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

NUNO JÚDICE

NÚPCIAS


Uma inquietação de pólen suspende
o voo da abelha. Capturo-a com
os dedos da alma, e ouço-a zumbir
na minha cabeça, num limiar de
memórias que fazem parte de um verão
carregado de amêndoas e alfarroba.

Veio depois o zangão com o seu canto
áspero; e entreguei-lhe esse corpo
deitado na minha mão, queimado
pelo sol do meio-dia. Assim, entre
os declives da terra e os corais
do olhar, esqueci um presságio de azul.

Ter-me-iam confundido com um antigo
profeta, desses que pedem a esmola
de uma certeza em cada canto da
vida; ou pedir-me-iam o nome
de cada um deles para completar
os livros de frases inaudíveis como

as vozes apagadas pelo vento, como
esse murmúrio nascido num eco
de travesseiro, como o desejo gritado
no instante do naufrágio: e
em vão lhes confessei ter perdido
todos os sonhos, e nada ter para lhes dar.

Por vezes, digo, este pólen branco
que sobra nas corolas secas do inverno
serve de alimento aos famintos de amor:
e vejo-os partirem pelos campos, em busca
de imagens, deixando atrás deles
uma penumbra carregada de sentimentos.


Eufeme, n.º 1, edição de Sérgio Ninguém, s. l., 2016.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

NUNO JÚDICE

A TERRA DO NUNCA


Se eu fosse para a terra do nunca,
teria tudo o que quisesse numa cama de nada:

os sonhos que ninguém teve quando
o sol se punha de manhã;

a rapariga que cantava num canteiro
de flores vivas;

a água que sabia a vinho na boca
de todos os bêbedos.

Iria de bicicleta sem ter de pedalar,
numa estrada de nuvens.

E quando chegasse ao céu pisaria
as estrelas caídas num chão de nebulosas.

A terra do nunca é onde nunca
chegaria se eu fosse para a terra do nunca.

E é por isso que a apanho do chão,
e a meto em sacos de terra do nunca.

Um dia, quando alguém me pedir a terra do nunca,
despejarei todos os sacos à sua porta.

E a rapariga que cantava sairá da terra
com um canteiro de flores vivas.

E os bêbedos encherão os copos
com a água que sabia a vinho.

Na terra do nunca, com o sol a pôr-se
quando nasce o dia.


Poemas [de As Coisas Mais Simples], Leya, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

NUNO JÚDICE

A VARANDA DE JULIETA


Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas Julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.


Pedro, Lembrando Inês, Dom Quixote, Lisboa, 2001.