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segunda-feira, 25 de julho de 2016

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[FABRIQUEI EU TODO O VIDRO]

[...]

Fabriquei eu todo o vidro preciso nas janelas de uma casa à minha medida. Uma parte-de-casa, digo, algures, ou de alguém. Importava ficar-se ao abrigo de ventos de granizo, ter uma referência nascida do empreendimento destas mãos. O que me imiscuiu em tantas e tão perdulárias moradas. Logo em muito miúdo habituara-me a pequenos domínios como o cantinho de uma marquise solarenga, clara, onde o vão entre quatro pés do tanque em cimento me bastava para tecer cobiçosas intrigas. Jamais me atrevia a espiar o território adulto, verdadeiro campo de treino para a desconfiança e o desatino. Era como escolher na encosta íngreme da ravina o mergulho directo num casulo.

[...]


Narrativa (edição revista), Alambique, Lisboa, 2016.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[ERA UM PAÍS, UM CORPO]


Era um país, um corpo,
uma cidade de ossos
calcinados, onde nem cães
metiam o dente.

E o corpo é um cristal lívido
no centro d'uma praça, deportado,
límpido, onde nem os homens
se atrevem.

A cidade aposta-se toda
na espessura do sono, na
candura banal, vulgar,

do país em ruína:
impaciente.


Cal, Averno, Lisboa, 2015.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

PAULO DA COSTA DOMINGOS

O VERÃO PARTIU...


O Verão partiu
E nunca devia ter vindo.
Quente foi o sol
Mas não pode ser só isto.

Tudo veio para partir,
Em minhas mãos tudo caiu,
Corola de cinco pétalas,
Mas não pode ser só isto.

Nenhum mal se perdeu,
Nenhum bem foi em vão,
À clara luz tudo arde
Mas não pode ser só isto.

A vida me prende
Sob a sua asa intacto,
Sempre a sorte do meu lado,
Mas não pode ser só isto.

Nem uma folha se consumiu
Nem uma vara quebrada...
Vidro límpido é o dia,
Mas não pode ser só isto.


A morte dos outros, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2014.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[QUER-SE UM POUCO]


Quer-se um pouco
de sossego. Uma latada. Eu explico:
vinho em suspensão.

Os animais domésticos chegam-se
à prometida sombra
para os diálogos imaginários
e o afago do pêlo. No seu mundo
de (eventual) violência
o fascismo do capital mantém-lhes
a ortografia intacta, inequívoca
a fonética. E o vinho
não é metáfora lá onde
talvez um deus queira

impor a culpa.


«Voici la poésie ce matin et pour la prose il y a les journaux», Averno, Lisboa, 2014.

sábado, 31 de agosto de 2013

PAULO DA COSTA DOMINGOS

ESTADOS GERAIS


A palmada nas costas
acompanha a rodada paga;
o obrigado-meu-povo
com a sacanada feita;
o desencarceramento dentre
chapa em harmónio;
as harmonias entrecortadas
pela brusquidão de serras;
os prefácios, as badanas
e os tumultos das massas;
agulhas nas virilhas
para uma ligação via satélite.

Uma côdea dura no ânus
concita o sorriso partidário;
a macaca caída das árvores
durante a última ceia;
o burro que ri no hemi-
ciclo e a vaca na palha;

a santa aliança divorciada
da sagrada família.


Resumo: A poesia em 2012 [de Poemas abrasileirados], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[DEPOIS HÁ UNS TIPOS SIMPÁTICOS]


Depois há uns tipos simpáticos
que se põem assim como que de lado,
hieroglificamente a assistir
ao espectáculo do espectáculo

dos sacrifícios, e bolsam com a bolsa
cheia de conjecturas e trans-
versalidades para a benemerência
do raquítico pensamento nacional.


Averbamento, & etc, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[AQUILO QUE NOS TIRA O SONO]


Aquilo que nos tira o sono
e nos põe a pensar na morte
com uma farpa cravada no ombro
e o jornal fechado no Desporto
são as vizinhas inacessíveis.
Bezerras imaturas, figurantes de cena
nesta quinta pedagógica. Rapa,
tira, põe, nas cidades desertas
de coração: «-se bem!»


O homem quase novo, Frenesi, Lisboa, 2010.

domingo, 25 de abril de 2010

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[QUE É FEITO DOS NOSSOS CONTEMPORÂNEOS? PARTIRAM]


Que é feito dos nossos contemporâneos? Partiram
alguns, para o deserto, à procura
de emprego, à procura de dinheiro; outros
receberam no peito, braços abertos,
um deserto que lhes nutre a sujeição,
o cadáver adiado. A muito poucos
bastou um vinho, a música, o jogo dos enlaces,
a notabilíssima fala dos corpos! E a Arte
estes colocou na estrada larga do instinto,
o verbo agir-livre, donde claramente
se vê o subúrbio mental do homem nado-morto,
da mulher inerte.


A Escrita, & etc, Lisboa, 2010.