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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

RENATA CORREIA BOTELHO

[COMO ESTA CASA QUERO]


Como esta casa quero
abeirar-me da morte,

e assim fechar o corpo
no tempo de uma ave
cansada de sombras

fria, à espera
da fúria de deus.

Envelhecer escura
como esta casa,
cheia de fantasmas dentro

roseiras bravas
trepando ventanias

e um poço no sítio
difícil do coração.


Esta casa (com Emanuel Jorge Botelho, Inês Dias e Manuel de Freitas), Averno, Lisboa, 2013.

domingo, 9 de outubro de 2011

RENATA CORREIA BOTELHO

PALO SANTO


fendiam o castelo e o nosso palco, em madeira,
gotas temíveis, prontas a molhar de incerteza
a mala gasta do palhaço, o fato de trapezista
que se equilibrava a custo na solidão do cabide.

fizemos uma roda e uma chama lenta, como mandam
os mais fundos preceitos da magia, calámos
baixinho todas as vozes, deixámos aos pássaros
e ao palo santo a decisão suprema daquela noite.

nada sabia eu, até ali, da alma do fogo abrindo
caminho entre as intimações da chuva. e o céu
vergou-se, num sopro, a um rasgo de sol, que trago
nestes olhos entretanto regressados à borrasca.


Piolho, n.º 6, Edições Mortas/ Black Sun Editores, Porto/Lisboa, 2011.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

RENATA CORREIA BOTELHO

A SETA


para o meu pai

o tempo, espelho tosco com que
fintamos a morte, apontado para nós
como a lança do arqueiro;

hesita, por um instante apenas,
para depois avançar, implacável
e sem retorno, na nossa direcção.

mas a feroz verdade da seta
(a um brevíssimo suspiro do embate)
é aplacada pela memória,

um libertador bater de asas
que nos recolhe das águas
quando a tempestade nos arrasta.


Resumo: A poesia em 2010 [de Small song], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

RENATA CORREIA BOTELHO

EL PÁJARO


é de ti, passarinho, que fala
esta música. espero-te à varanda
do meu quarto, num abismo
que se ergue do chão aos meus olhos
ainda baços. encontraste aqui,
como eu, a tua sombra, pajarillo

tú me despertaste, enseñame a vivir
e vamos juntos, por aí, numa voz só,
entoando esta cantiga com os cavalos
bravos, fingindo a vida e logrando
a morte, recolhendo à terra,
passarinho, sem nada temer,

recolhendo à terra.


Small song, Averno, Lisboa, 2010.

domingo, 11 de julho de 2010

RENATA CORREIA BOTELHO

[ENCOSTO A FACE À PAREDE]


Encosto a face à parede
mais triste do quarto, fiel
guardiã do sol posto.

o coração que me deixaste
é uma casa difícil de habitar.


Resumo: A poesia em 2009 [de Um circo no nevoeiro], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 29 de novembro de 2009

RENATA CORREIA BOTELHO

[JÁ NINGUÉM NOS TOCA À PORTA]


já ninguém nos toca à porta
a vender cerejas.

devíamos talvez lembrar
à terra o nosso nome

plantar sílabas frescas
que nos matem a sede

ter um pingo de esperança
na morte depois da vida.


Um circo no nevoeiro, Averno, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

RENATA CORREIA BOTELHO

DEUS NOS LÍRIOS

para a minha mãe

sinto deus, todas as noites, nos lírios
de Monet. olham para mim,
por esta sombra incerta que morre
aos poucos comigo, cobrem
de seiva viva a escuridão da casa
e afastam os demónios
que se escondem nas frestas do sono.

pela manhã, junto as pétalas tenras
caídas no lençol, e rezo baixinho,
com os pardais, um verso branco.


Telhados de Vidro, n.º 12, Averno, Lisboa, 2009.

domingo, 22 de março de 2009

RENATA CORREIA BOTELHO

CARTA PARA A.


viste que os dias não passavam
disto, e viste bem. desse lado
do céu, tens o melhor miradouro
sobre a madrugada. se encontrares
o pintainho que sepultámos,
em segredo e lágrimas, no
quintal das tias, pede-lhe o
arco da sua asa nas noites de lua nova.
remete-me, quando puderes,
pacotes de chuva miúda, gosto
de a ver decalcar a terra, fundir-se
com as sementes de milho
no canto da achadinha.

entretanto, vou montando o
telescópio, com as instruções
que me deste. põe-te à vista
e combinamos um gelado a
meio caminho,
à hora da infância.


Avulsos, por causa, separata da revista Magma, Lajes do Pico, 2005.