Mostrar mensagens com a etiqueta Rosa Alice Branco. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rosa Alice Branco. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ROSA ALICE BRANCO

AS VESPAS DE PALERMO


A virgem sorri-me com boca de mosaico,
os meus olhos mergulham nos arabescos do chão,
geometria do sol descendo as ruas de Palermo.
Insectos aceleram bzz bzz até nas passadeiras
e Cristo impávido na igreja em frente.
Mas Cristo não atravessa as ruas:
está um pouco acima da cruz, um pouco antes.
Os anjos abandonam a escuridão do templo.
As vespas parecem pirilampos
e bzz bzz são as asas dos anjos
conversando sobre os turistas do dia.
O bzz bzz das vespas cá em baixo é de encontros
na noite de Palermo. Assentos tão etéreos
com um copo na mão, a outra na cintura
e nos punhos das vespas, vespas, vespas
atordoando o riso, o beijo passageiro.
E já os anjos estão a postos na sua nudez redonda
enquanto as vespas dormem um sono de alcatrão.
A ceia prepara-se. Cristo não nega o seu lugar à mesa.
Entre um bzz bzz e outro, olho-te no b barroco ou bizantino
e não aceito a tua morte, tu que atravessas acima das vespas,
vespas, vespas, acima do Etna que sobe ao céu
enquanto dentro se cozinham os infernos: a tua ceia,
os restos que deixaste para nós no microondas.


Gado do Senhor, & etc, Lisboa, 2011.

domingo, 23 de janeiro de 2011

ROSA ALICE BRANCO

NAS FOLHAS DE CHÁ


Estamos de passagem mas em caso algum
esqueceremos o orvalho. Os nossos poros
ossificaram o sangue, é o que a terra diz:
– o alcatrão não é o meu vestido de luto,
mas a pele irrespirável da minha carne.
Agora quem vai querê-la por noiva?
As grinaldas estão cheias de poeira e a
marcha nupcial desafina as estrelas.
O sol feito de gasolina na nossa pele
de verão apodrece depressa nas rugas.
Ainda ris por entre as frestas negras
e deixas entrever outro destino nas folhas
de chá. Mesmo assim o teu cadáver
é belo entre as flores do campo que resta
e o fumo do comboio que te cinza.
O orvalho é uma palavra dócil. Às primeiras
horas quando os despojos se deixam invisíveis
ainda me extasias como a uma princesa a florar
a erecção inicial antes da radiografia pulmonar.
Não choramos por nós quando te morremos?


Saudade: revista de poesia, n.º 12, Associação Amarante Cultural, Amarante, 2010.