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domingo, 28 de maio de 2017

ROSA MARIA MARTELO

[VER PASSAR NAS FOLHAS DAS ÁRVORES]

Ver passar nas folhas das árvores
a cauda aberta dos peixes

no brilho de mica do granito,
a cintilação nocturna das estrelas

nas veias da mão, a ramificação
das pétalas

de rosa
(por exemplo). Porque o mundo copia

desvairadamente as suas cópias de cópias
enquanto inventa as diferenças:

insano mestre de loucos, artesãos,
da sombra esguia do fim da tarde,

multiplicador de inexistências,
mãos zootécnicas refeitas na parede

onde uma asa, uma ave, é (e não é)
a sombra de uma ideia projectada.


Siringe, Averno, Lisboa, 2017.

sábado, 16 de agosto de 2014

ROSA MARIA MARTELO

CORTES


Sobre a mesa iluminada pela luz da tarde, uma jarra de flores expõe a beleza cortada, agonizante, assassinada pelo amor da beleza, que a trouxe para dentro de casa, para morrer. Muito juntas, as flores sobrevivem ainda, e encenam no pouco tempo que resta o mundo de onde vieram. Parecem vivas, quase deixam esquecer que são o grande ramo da morte a emergir de um frasco transparente. A contemplação da beleza: acredita na suspensão absoluta do instante, mesmo se tudo em volta lhe diz que não é bem disso que se trata. Repara, alguns ramos já começam a secar.


Matéria, Averno, Lisboa, 2014.

domingo, 30 de dezembro de 2012

ROSA MARIA MARTELO

RESTITUIÇÃO


Bicéfalo e eu acabáramos de regressar do nada graças a uma improvável brisa, quando aquela mulher, que a avaliar pelo recorte e nitidez das roupas certamente estaria viva, se dirigiu a nós de sorriso constrangido, a saber se podíamos indicar-lhe o caminho para a Rua do Mundo.
 
Se deus gostasse de máquinas fotográficas, talvez nos tivesse reunido num instantâneo embaraçoso: uma mulher viva e sem sombra e as sombras sem vivos que nós somos, os três juntos à beira nada. Mas era preciso que deus nos visse, coisa de que duvido. De qualquer modo, havia demasiada luz para uma boa fotografia.
 
Dissemos-lhe que não, que não éramos dali, não sabíamos o caminho. E para que a mulher pudesse encontrar a rua procurada, logo desaparecemos levando connosco toda a brancura à nossa frente, esse grande vazio que ela tranquilamente não via.


Nós, os desconhecidos, org. de Daniela Gomes e Rui Pires Cabral, Averno, Lisboa, 2012.

sábado, 28 de maio de 2011

ROSA MARIA MARTELO

LÍRIOS


Um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada
outras mãos que não as minhas haverá para o recolher
outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.
Depois, nem isso.
Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos
como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos. Esse dia virá.
Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.
Ou quase assim.

Dispo agora toda esta roupa e escrevo
– sem frio nem perda nem desastre –
a partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso vivo da relva
uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro.


Público, Lisboa, 28 de Maio de 2011.

domingo, 27 de dezembro de 2009

ROSA MARIA MARTELO

SOMBRAS


A noite não é o avesso do dia, sequer o seu contrário – de noite os motores do dia trabalham ainda, desengatados, um pouco como bate o coração de quem dorme. Roldanas lentas movem-se fora dos eixos do sentido, trazem para dentro dos quartos a oscilação das sombras, o vento nas árvores, ruídos ao longe. O ar enegrece contra os muros, destila uma liga muito ténue, reúne as peças soltas. Até de olhos fechados se pressente o brilho das coisas quietas, as idas e vindas, os êmbolos, a inquieta vibração de estarem vivas.


A porta de Duchamp, Averno, Lisboa, 2009.