Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Miguel Ribeiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Miguel Ribeiro. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de julho de 2010

RUI MIGUEL RIBEIRO

A TARDE


Nesta desaceleração
espero que os dias corram iguais,
uniformes e sem resistência.
Procuro de cada mistério
entender o mais simples.
Fico pelo que é mais rente,
mais sólido, com menos construção.

Já não chega ter os horários,
as entregas e as rotinas,
para aceitar o ritmo de furo lento
da vida. Mais próximo cresce o detalhe.
É mais precisa a dúvida.

Cai a tarde e a pausa continua
e com ela expira o natural desejo
de um prazer, um apetite pela
diagonal de luz que vai dividindo
o espaço, a marca invisível
que fica de mais um dia.


Resumo: A Poesia em 2009 [de XX Dias], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

RUI MIGUEL RIBEIRO

CORAÇÃO DE VIDRO


Faço o meu trabalho de desocupação.
De vazios que não me exigem manhãs,
nem horários, para ficarem marcados
em calendários prescritos: valetas
de dias sobre datas passadas.

A minha tristeza não tem trocos
nem desenganos. Nem com eles
o direito de encontrar, ao tacto
da superfície de alcatrão, aquilo
com que os meus membros silenciosos

respondem – a chamada aos bolsos
de pedras partidas, que lanço
contra um coração de vidro.


Criatura, n.º 4, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2009.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

RUI MIGUEL RIBEIRO

X - O CORAÇÃO


O coração assemelha-se
a quanto posso perder
– tudo – junto a ti.
Sob o sinal de anos pretéritos
a sós com o meu olhar
a colecção das nossas perdas
ganha um involuntário valor
sobre estes dias.

Adere a cada hora
um significado como uma forma
de gravidade sobre o tempo.

Hoje sei como se perde
a noite e nela a vida; como se
decompõe entre a luz e a sombra
onde um corpo espera.

Não é a ausência, tão-só o amor
quem faz esta vigília, esse excesso
que é também abreviatura
e aqui termina.


XX Dias, Averno, Lisboa, 2009.

domingo, 5 de julho de 2009

RUI MIGUEL RIBEIRO

ROMA


Roma, outra vez, um regresso.
Com o fim do Verão, a casa cobre-se
de um tom mais escuro,
provoca maiores movimentos,
sem nunca permitir um silêncio.

Os livros e os papéis estão revoltos
pelo quarto como despojos de um
tesouro assaltado. Os dedos trazem
ainda restos secos de palavras.
Apenas a tua presença era uma defesa,
um último refúgio para o corpo.

Ao fim do dia, no regresso de mais uma tarde
preenchida de livrarias, dizias-me que parecia
um livro fechado.

E não sei o que te responder.


Europa e Mais 3 Poemas, Letra Livre, Lisboa, 2007.