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domingo, 30 de julho de 2017

RUI NUNES

[LAMPEDUSA]


Não se regressa aos mortos:
eles expulsam-nos de qualquer regresso.
Sôfregos da sua morte, flutuam
com o abandono de detritos:
em volta respira a água.
Expectante.

Barcos por entre
o arquipélago instável dos corpos
perdidos numa névoa que cheira a gasolina:
o som dos motores redesenha
o mapa dos naufrágios,
a geometria dos afogados.

[...]


Lampedusa, Paralelo W, Lisboa, 2017.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

RUI NUNES

(REGRESSO)


Tudo o que faço não passa de um preâmbulo. Mas, contra todos os preâmbulos, ou como todos os preâmbulos, estes só anunciam outros preâmbulos:
a negra palavra do abutre.
A negra paisagem do abutre


A crisálida, Relógio d'Água, Lisboa, 2016.


domingo, 22 de setembro de 2013

RUI NUNES

[FAÇAM COM AS PALAVRAS AQUILO QUE QUISEREM]


façam com as palavras aquilo que quiserem,
desfaçam-nas:
uma palavra desfeita não magoa,
uma palavra inteira rasga a boca,
uma palavra inteira é a certeza
de outra palavra inteira, a corda fina
que vai da trave à terra, do caibro ao vento
de uma janela aberta:
a imprecisa
minúcia da poeira


Uma viagem no Outono, Relógio d'Água, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

RUI NUNES

MÉDIO ORIENTE


Explode:
as mãos traçam um som insuportável:
a história pára nesse gesto
mas recomeça um pouco mais à frente.
O que sobra de um corpo
é a silenciosa queda dos destroços.
O trigo escurece, as rêses comem a própria carne,
e os gafanhotos anunciam a manhã do ódio:
o desenho do tempo fica dia a dia mais nítido.

os vidros resguardam-no do clamor
e nos vasos de begónias floresce o néon.
Sentado à secretária, o homem risca uma palavra,
leva as mãos aos lábios,
medita,
e reescreve a morte.

como se diz este último resíduo,
estes corpos que irradiam morte,
o anónimo de uma luz insuportável?
como se diz uma palavra
meticulosamente destruída,
estes sons desavindos?
ou uma criança que não sabe correr?

a eternidade é a bebedeira dos desesperados:
viagem rápida, dia em estilhas
que acaba em três ou quatro gotas
no vidro da janela:
insectos esborrachados contra um pára-brisas.

é preciso decifrar os escombros.


Telhados de Vidro, n.º 14, Averno, Lisboa, 2010.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

RUI NUNES

4.


(branco)
de todas as cores a mais subtil
chama-se cegueira: nome
que avança até se apagar


Telhados de Vidro, n.º 6, Averno, Lisboa, 2006.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

RUI NUNES

VÉSPERAS PORTUGUESAS


o dia corre de poente para nascente, a chuva
é um lençol tenso sobre os velhos que separam
as lembranças, com palavras que não chegam
a dizer: esquecem os subterfúgios do tempo
e avançam cambaleantes pelas grandes fissuras
entregues ao despovoamento alucinante

no interior dos carros, os crimes
são ligeiras confidências


Ofício de Vésperas, Relógio d'Água, Lisboa, 2007.