Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Pedro Gonçalves. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Pedro Gonçalves. Mostrar todas as mensagens

domingo, 1 de agosto de 2010

RUI PEDRO GONÇALVES

[ATALHEI A NOITE]


Atalhei a noite,
Tentei chegar ao trilho mais certo dos teus passos
Caminhando no cerejal.
A velha casa era agora um borrão no crepúsculo,
Lembrava-me a fúria das crianças em louca correria.

Percorri, às apalpadelas, o quarto escuro, produzido pela idade
E foi aí que pedi a Purviance um copo de água.
Ela adiantara um torrão de açúcar para que a memória
Não fosse um frango fugido do galinheiro.

Alimentara-me de tudo isso, e nem o teu corpo encontrara
Para que a aventura fosse mais doce,
Mais secreta de certezas.
Sentira-me envergonhado por ser surpreendido
Quando te procurara
Tacteando uma imagem para ti.

Olhei pela janela.
Vi os ciganos em viagem em direcção ao sul.
Não sei se ias.
Não sei.

Eu fui.


Nitratos do Chile, Língua Morta, Lisboa, 2010.

domingo, 17 de janeiro de 2010

RUI PEDRO GONÇALVES

[O QUE DIZEM OS ESPELHOS, IMPERADOR?]

para a Inês Dias

O que dizem os espelhos, Imperador?
Será o vazio quem procura as imagens
Ou são as águas que esperam rostos mergulhados – carruagens
cheias de transeuntes
Que passeiam nesta margem, junto ao rio?

Não dizes.

Acabas sempre por guardar segredo.
Fazes o teu jogo.
Começas, acabas, mas permaneces imóvel como o espelho que,
um dia,
Hei-de partir.
Partirei, sim. O teu reino não dura sempre. Nem o meu.
E as imagens quebram-se contra o mundo novo. São coisas
recentes
Novas danças
Que fazem com que as coisas sejam, nem sei como dizer, talvez
Como um pêndulo de relógio.

Mas um dia, se quiseres
Diz-me se o vazio é actor principal.
E quanto tempo está em cena. Se alguém o aguarda
Mesmo depois de actuar
Ou se vai mesmo em digressão.

Existe um espelho que me espera.

Não me quero reconhecer.


Telhados de Vidro, n.º 13, Averno, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

RUI PEDRO GONÇALVES

[NESSA NOITE FICÁMOS RETIDOS NA ESTRADA]


Nessa noite ficámos retidos na estrada.
Os seus documentos, por favor.
Sim. Pode seguir. É sempre em frente.

As luzes eram tantas.
Projectavam, lado a lado, o teu rosto e o meu.

Gostaria de me ter despedido desse céu,
Antes que morresses numa página,
Num quarto de hospital,
Ou noutro lugar qualquer
Onde pudéssemos, em contracurva, despistar o leitor.

Sim. Pode seguir.


Noites na Granja, edição do Autor, 2006.

domingo, 14 de setembro de 2008

RUI PEDRO GONÇALVES

[EM SÃO JOÃO, NA MARÉ ALTA]


Em São João, na maré alta
Crianças puxam barcos a cordel.
Outras guardam em pequenos baldes
Estrelas, anémonas, conchas
Que poderiam ter trazido em peregrinação.
Há túneis com água,
Castelos de brincar
Onde a Sara inventa — por breves instantes —
A glória do seu reino e do seu nome.

Na maré baixa
Migram os rochedos,
As fortalezas dão lugar a pequenos lagos
De algas e canções.
As crianças disputam o pequeno areal
Enquanto os pais, de olhar mais distraído nos veleiros,
Sonham Dezembro disposto noutras fortalezas,
Num outro ângulo de visão.

A praia, o pequeno areal,
O mar em frente
Estende ou aproxima os pequenos sonhos
Baralhados num jogo de brincar.


Diques, Teatro de Vila Real, 2007.