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domingo, 13 de agosto de 2017

RUI PIRES CABRAL

EL PRADO


Os quadros são coisas completas
na engrenagem das salas
e nós vamos no rasto que eles deixam.

Comemos uma salada reles no buffet do Prado
e os «novos artistas de Espanha»
fumam-nos o tabaco todo com os cotovelos
fincados no mapa.

A beleza tem peso e consequência, as salas
parecem tão cheias que não sobra no espaço
um lugar para nós.

Velhas como as árvores,
as Meninas.


Passagens: Poesia, artes gráficas [de A super-realidade], org. Joana Matos Frias, Assírio & Alvim, Lisboa, 2016.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

RUI PIRES CABRAL

THE STRANGER SONG


Ele quis dizer-te agarra
a noite e não pudeste
contentá-lo. Agora
é tarde. Cai uma nódoa
na parede, na camisa

do poema. És acossado
pelo fim que consentiste
e pela sombra da razão
que não tiveste. Olhas
em volta

e só não vês o que aí está
se não quiseres perder de vez
a ilusão de uma saída.
Nos arredores, a luz
é torpe, o verso

inquina. Não há
comboio a estas horas
que te leve ao outro lado
onde te espera, por engano,
a tua vida.

A mil braças de profundidade, AA. VV., Eclusa, Lisboa, 2016.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

RUI PIRES CABRAL

IV. AVANT-DERNIÈRES PENSÉES 3


Basta de elegias às cidades brancas
do fim do Verão. As luzes secaram
dentro das palavras, já nada
as instiga – e que importa, afinal?

Seja como for, tive pouca fé
e más companhias do melhor que há:
amores viajantes, livros emprestados
(tudo é emprestado, se formos a ver),

amigos seguros e outros que o não
foram, nem tinham de ser. Uma coisa
é certa: a hora passou e os versos
murcharam. Deixai-os morrer.


Telhados de Vidro, n.º 20, Averno, Lisboa, 2015.

domingo, 15 de março de 2015

RUI PIRES CABRAL

MEU AMIGO


Depois de tudo, no vazio
da manhã inabitável,

ajuda-me a negar
este remorso:

eu só queria uma canção
que não morresse

e a hipótese de um poema
que não fosse

o lugar onde me encontro
uma vez mais,

sem desculpa, sem remédio,
diante de mim mesmo.


Morada, Assírio & Alvim, Lisboa, 2015.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

RUI PIRES CABRAL

[NO, HE SAID, I WILL]


No, he said, I will
fight for my life; and
I will be someone else,
in another room
on a different
Sunday

[...]


Oh! Lusitania, Paralelo W, Lisboa, 2014.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

RUI PIRES CABRAL

CIDADE DOS DESAPARECIDOS


Muitas vezes não amei Lisboa,
não soube amá-la ao anoitecer
dos dias úteis, quando era gasta,
parada e suja, e nos autocarros
quase vazios viajava de luz acesa
a entranhada tristeza do mundo
que foi a minha primeira e mais
precoce intuição. Grande cidade
dos desaparecidos, eu não tive
tantas vezes a saúde de gostar
dos teus pequenos jardins
abandonados. Quando nos cafés
já iam desligando as máquinas
e do outro lado da linha ninguém
voltava jamais a responder
como eu queria, quantas vezes
não pude achar o sítio e o sossego
para esquecer e dormir? Mesmo assim,
eu não te fiz justiça, Lisboa, quando
me deixei de ti: eu não era exemplo,
eu sempre estranhei um pouco a cama
da vida.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Longe da aldeia], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

domingo, 8 de dezembro de 2013

RUI PIRES CABRAL

STARDUST


Cidades, breves
atalhos da noite,
o desejo que eu trazia
de negar e perder
tudo: ruas e versos
a fio, amadas canções
dos mortos, a própria
razão de ser.


Stardust, Nenhures, Lisboa, 2013.

domingo, 27 de outubro de 2013

RUI PIRES CABRAL

MEU AMIGO


Depois de tudo, no vazio
da manhã inabitável,

ajuda-me a negar
este remorso:

eu só queria uma canção
que não morresse

e a hipótese de um poema
que não fosse

o lugar onde me encontro
uma vez mais,

sem desculpa, sem remédio,
diante de mim mesmo.


Resumo: A poesia em 2012 [de Ladrador], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

RUI PIRES CABRAL

OUTRO CASTELO


A melhor parte da minha juventude
entreguei-a à imatura ambição
da arqueologia, aos dias passados
na serra entre ruínas crestadas
pelo resplendor de Agosto.
Algumas fotografias sobrevivem
dessa época, mostram muros
derruídos e esconsos alicerces
ou túmulos cavados em penedos
com uma régua de desenho
para escala: não tinha então
do tempo ou da morte
uma ideia mais própria
e imediata.

.......... Ao revisitar convosco
um dos perdidos castelos
desses anos, quase me doeu
que aquela beleza inteira
pudesse ter persistido
na sua inalterada solidão,
enquanto o verde do planalto
estendia o mesmo sossego
em todas as direcções.
Ali em cima, afinal,
a única mudança
estava em mim –

.......... e a vossa presença,
amigos feitos noutra terra
e noutra idade, tornava
mais exacto o sentimento
de ter regressado irreconhecível
a um lugar do meu passado,
apenas para adivinhar
uma distância que não se vence
e o espectro de outro castelo
ao qual não é possível regressar.


Roteiro artístico-literário de Carrazeda de Ansiães [de Novas memórias de Ansiães], org. de Otília Lage, Junta de Freguesia de Carrazeda de Ansiães, 2013.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

RUI PIRES CABRAL

A EDIÇÃO INGLESA

para a Mariana Pinto dos Santos

Na primavera de 1476
o jovem Leonardo da Vinci
escreveu no verso de uma carta
desesperada: If there is no love,
what then? Escreveu-o, bem
entendido, no seu vernáculo
nativo – eu é que só tenho
a edição inglesa.

De quantas coisas
nesta vida, meu Deus, só tenho
a edição inglesa – quer dizer,
a precária, aproximativa
tradução? E que fazer
com estas noites de Junho,
se o amor, justamente,
é uma delas?


Grisu, n.º 1, Grisu – Associação Cultural, Guimarães, 2012.

domingo, 15 de abril de 2012

RUI PIRES CABRAL

PLANO DE EVASÃO


Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite –

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo

que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.


Ladrador (AA. VV.) Averno, Lisboa, 2012.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

RUI PIRES CABRAL

UMA CASA NA PADARIA

para a Daniela Gomes

Era uma casa qualquer onde a linguagem se sentava
como uma rainha. Não havia terra que ficasse
perto, o próprio ar já nos mordia os braços
e havia um rato morto na cozinha.

Pintávamos criaturas incompletas no vermelho inteiro
das bisnagas, por vezes o nosso retrato às avessas
com sombras no coração. Pelos telhados
os gatos vinham visitar-nos com cautela, as plantas
duravam pouco nas unhas de cada mês.

Havia tempo de sobra e um lance de degraus
que subia vacilante até onde fosse preciso.
E nós lá em cima cheios de graça,
com frio nas mãos e tinta nas mangas.


A super-realidade (2.ª edição, revista), Língua Morta, Lisboa, 2011.

sábado, 1 de outubro de 2011

RUI PIRES CABRAL

O CABO DOS DIAMANTES VISTO DE POINT-À-PIZEAU


para o Luis Manuel Gaspar


A água-forte com jangadas
surge aqui reproduzida
por gentileza dos Irmãos
Maggs, de Londres:
....................as cores
já desbotaram e há pontos
de acidez na margem esquerda –
mas como lhes agradeço
a gentileza!
..........Os inimagináveis
Irmãos Maggs, de Londres:
quem eram, de que morreram
(seriam mais que dois)?
....................O tema
tem a urgência de um apelo
à evasão – é como sair à noite
num país desconhecido,
....................tanto mais
que as circunstâncias, nos passeios
junto ao rio, atiçam o tédio
nativo sob o chuvisco
de Março
..........e nada se compara
em mistério e sedução
ao Cabo dos Diamantes
visto de Point-à-Pizeau.


Piolho, n.º 6, Edições Mortas/Black Sun Editores, Porto/Lisboa, 2011.

domingo, 10 de julho de 2011

RUI PIRES CABRAL

ENTRETANTO


Não há que ter ilusões:
nós também somos

o fim da nossa estrada.
Com estas mãos,

com este mesmo coração
é que chegamos

ao cabo do futuro,
à extrema situação

de que partimos.
Mas, entretanto,

escrevamos.


Público, Lisboa, 9 de Julho de 2011.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

RUI PIRES CABRAL

FORA DO LUGAR

para a Daniela

A dor é uma desordem inimiga
das palavras com o silêncio todo fora
do lugar. Saberemos tomar um caminho
por essa floresta escura? Poderemos
sequer recuperar a pequena bússola partida,
a caneta e o papel, as nossas certezas
de trazer no bolso?

Não nos avisaram contra o medo,
não nos disseram que pode chegar
a qualquer hora, deslealmente,
enquanto o sol dorme na paisagem e as ervas
se levantam para receber o Verão. E agora
que quase nos perdemos, sem mapa ou sentido
que nos sirva, o nosso único guia é o amor
dos que nos esperam numa sala branca
onde o chão nos falta e não há estações.


Periférica, n.º 6, Vila Pouca de Aguiar, 2003.

domingo, 3 de outubro de 2010

RUI PIRES CABRAL

FOTOGRAFIAS


Nesta vida — é um facto — estamos sempre
a desaprender coisas novas. O mundo
vai guardando a luz nas suas bainhas negras
e temos a melindrosa companhia dos fantasmas
que nos procuraram: eles governam rudemente
os nossos pequenos reinos e há um ceptro novo

para cada coroação. De repente, com a volta
das estações, damos por nós muito mais velhos
nas fotografias. As razões que nos assistiam
empalidecem em paisagens cruelmente coagidas
pela luz. Fomos expulsos dos grandes palácios

da alegria? Onde estão os mapas que nos guiavam
lá dentro, exactos como o instinto? Não sabemos
responder: o caminho turva-se: são as incertezas
da maturidade. As palavras não nos iluminam
e o amor está condenado aos defeitos naturais
do coração, que ainda assim há-de voltar a arder

sem defesa nem socorro uma vez mais.


Periférica, n.º 4, Vila Pouca de Aguiar, 2003.

domingo, 27 de junho de 2010

RUI PIRES CABRAL

RESTAURANTE POLACO


A noite é sustentada pelos seus enfeites
como um homem morto ligado às máquinas.
Os clientes folheiam livros, tudo polacos
do mesmo quarteirão. Percebemos
de repente: há qualquer coisa acima das palavras
que não se deixa decifrar. Em cidades estranhas
dispomos melhor dos sentidos, somos arriscados
nas nossas intuições. E depois da sopa, do chá
morno, ao sair para a rua, podemos descobrir
que ainda estamos vivos e que no fim de contas
nunca conhecemos outra condição. Esta é a hora
que nos representa. E aquilo a que chamamos realidade
segue connosco na mesma direcção.


Periférica, n.º 3, Vila Pouca de Aguiar, 2002.

domingo, 18 de abril de 2010

RUI PIRES CABRAL

«NÃO TENHAS CONFIANÇA NA TUA JUVENTUDE.»

para o Manuel de Freitas

Noites de tabaco com resina
de Marrocos, pequenos quartos

onde a música era enorme.
As ruas pulsavam, eram coisas

mortais, o pensamento um carrossel
de monstros vivos. E nós os únicos,

os mais sós, os mais relapsos
no caminho que descia do devaneio

à angústia. Esquecidos das horas
num qualquer degrau perdido,

o futuro era aterrador: it will end
in tears. E tudo o que sabíamos

estava errado, menos isso.


Resumo: A poesia em 2009 [de Oráculos de cabeceira], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 3 de janeiro de 2010

RUI PIRES CABRAL

O CÉU VISTO DE CIMA


Tu já estavas prometido à tristeza
da cidade mais pequena, mas a noite
tinha passagens secretas, bastava seguir
os sinais.

A sombra de um réptil avançava muito fundo
nos teus estratos, tacteavas num território de pedras difíceis,
às vezes perigosas. Depois imergias e a boca estava
amarga outra vez, a roupa amontoada na cadeira
como o princípio de um poema indesejado.
Reflectindo nos teus olhos, o céu
era um lugar inabitável.


El arte de la pobreza: Diez poetas portugueses contemporáneos [de A super-realidade], org. José Ángel Cilleruelo, CEDMA, Málaga, 2007.

domingo, 15 de novembro de 2009

RUI PIRES CABRAL

VILA REAL


para a Daniela e a Viviana

Estamos sentados entre o xisto e a caruma
no chão da montanha. Os choupos são uma impressão
riscada no cenário à nossa frente, mas nós temos as mãos ocupadas
com outros pensamentos. Às vezes era doloroso viver atrás
das montanhas, pressentíamos a distância do mundo como uma faca
e usávamos o mesmo gume para dividir entre nós
as enormes tardes de domingo.

Nós os três contra o ar duro do Marão, os braços em torno
dos joelhos. Quase uma imagem para a música das cassetes
que eu levava para todo o lado (alguma desenquadrada peça de Satie
entre Polly Jean e Tom Waits a uivar como um cão). Tínhamos vindo
à procura da neve debaixo dos troncos, atirámos pequenas pedras
às fundações do vale. E como parece branco e nítido o inverno.



Poemas de Rui Pires Cabral [de Música antológica & onze cidades], Oficina Raquel, Rio de Janeiro, 2007.