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domingo, 29 de abril de 2018

TIAGO ARAÚJO

SMASHED TO PIECES (IN THE STILL OF THE NIGHT)


no café kafka ainda é permitido o tabaco,
mas fumo apenas passivamente,
como tenho feito toda a vida.
há duas horas que espero por mim
frente a uma chávena de chá preto que começa
a perder o calor e a marca das duas mãos
que a seguraram antes. quase sem aviso,
um corpo foi substituído por outro corpo,
um pouco mais velho e lento.
entrei no café de cadeiras vermelhas, mas não voltei a sair.
terás de viver agora, mais uma vez, com a pessoa diferente
que de forma periódica vai herdando o meu nome
e os meus medos, pouco mais.
a transformação adicional coincidiu com a mudança para esta
cidade onde uma antiga torre defensiva de betão
anuncia que algo se estilhaçou no
silêncio da noite. não tenho a certeza, mas julgo que
terá sido a juventude.


Ano zero, Averno, Lisboa, 2018.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

TIAGO ARAÚJO

LILAC WINE


neste clima de opinião, as tuas palavras deixaram de fazer sentido. existem vozes que reproduzem a voz humana a cantar o vinho de uma árvore persa, pesado como o nome que não chamo alto. a andar de costas contra o futuro, vejo apenas o que já passou: a música num quarto virado a norte, escolhido como espaço para avaliar a economia dos afectos. a teoria dos jogos exige um indivíduo racional e que queira vencer. talvez por isso todos os planos tenham falhado. ficarei mais um pouco à tua espera, até ser demasiado tarde para regressar ao território das pequenas recompensas. esta terra é um lugar povoado de mitos que vamos destruindo um a um. resta agora a ilusão de que, num tempo que nos chegou a ser contemporâneo, teríamos palavras para descrever esta perda de idades passadas. as opiniões dividem-se sobre a continuidade do ser ao longo de uma vida feita de lentas metamorfoses. a passagem dos anos, a construção do corpo e as circunstâncias criaram três ou quatro rapazes com o meu nome. não fui eu que, na adolescência, regressei a pé a casa, pela noite dos subúrbios, depois de ter perdido o último comboio e, sem o saber ainda, a tua atenção. sou hoje o duplo da memória de mim próprio e, em alguns minutos roubados às horas, escrevo a biografia de um desconhecido.


Telhados de Vidro, n.º 20, Averno, Lisboa, 2015.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

TIAGO ARAÚJO

(MISS CURTIS)


cada um escolhe o que fazer com a
sua sombra. Jenna foi encontrada pendurada numa
árvore de espécie não identificada na notícia
de jornal. foi o décimo sétimo caso em poucos meses,
numa pequena vila onde a adolescência
custa tanto a passar como em todos as outras.
os mecanismos da imitação podem explicar
o método, mas não mais essa rendição
incondicional antes do início das batalhas.
à sombra desse exército deitam-se
jovens adultos em mantas nos dias de verão.
nada disto faz sentido para nós, os mais lentos,
as desculpas de quem tem pressa em perder.

[The Times, 20.02.2010]
 
 
 
Respirar debaixo de água, Averno, Lisboa, 2013.

terça-feira, 31 de maio de 2011

TIAGO ARAÚJO

(ESTUDO DO ROSTO)


espelho meu, quem sou
eu? não tenho tido tempo para deixar a barba por fazer.
quanto ao resto, tenho a cara de sempre,
a que muda com os climas, e a mesma
necessidade de aperfeiçoar a técnica do
auto-retrato, de forma repetitiva e sem paixão,
para reconhecer um rosto que muda
com a luz e determinadas palavras.
foi assim que descobri esta tendência para
inclinar a cabeça para mais perto
de um dos ombros enquanto
morro,
por segundos, ao ler nesta descrição de livros alinhados
nas estantes, roupa dobrada nos armários, família
em volta da mesa, os princípios de uma ordem
provisória, que não sobreviverá sem mim
ou, no pior dos cenários, me sobreviverá,
afinal, com tudo o resto,
sem sobressaltos e uma memória
finita.

colecciono fotografias de família, vendidas em alfarrabistas
por pouco dinheiro, como prova de que estamos
a uma ou duas gerações do esquecimento.
invento dedicatórias, parentescos, datas e locais,
espalho-as em molduras pela casa para confundir visitas
e me vingar de uma memória que me atraiçoa sem descanso
porque
este rosto me levou mais de três décadas a destruir,
para agora abandonar à sua sorte, sem a gentil companhia de
desconhecidos, na descida aos infernos pelos túneis
das estações de metro ou num café quase vazio
de Alcântara, a meio da tarde, quando as mesas estão reservadas
........ para os
que não têm ocupação ou pressa. os jornais do dia no balcão e
na parede do fundo o espelho convexo em que
Parmigianino e depois Ashbery se viram
sozinhos, rodeados de objectos, e a certeza de mais uma
morte fixada em auto-retrato.


Resumo: A poesia em 2010 [de Criatura, n.º 5], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

TIAGO ARAÚJO

(SJ-06)


as formas de conhecer-te são só duas
ou três; esta é a que demora mais tempo.
a chuva parou e continuamos distraídos neste
amor de cabotagem, nunca demasiado
longe ou perto da carne e dos órgãos que uma
abóbada de ossos protege. cumprimos
a liturgia das horas, repetida sem convicção ou
eficácia, e por vezes as palavras começam
a fazer sentido, como os gestos com que
te aproximo de mim, com uma só mão
e algum sono. uma navegação lenta,
familiar e confortável, porque
essa é a melhor forma de te conhecer
os dedos e o modo como os usas
para fazer tranças às horas, como quem
tece cabelos ou desfia um rosário
sem murmúrios, apenas a técnica de rodar
terços e mistérios no fundo da mão
para entreter os pretendentes e
esperar que eu regresse das longas
viagens – dez anos de cada vez –
em que me ausento sem sair de casa.
esta tarde estive em Lisboa e trago-te maçãs
vermelhas de uma mercearia da rua dos Lusíadas,
com as quais tenciono adormecer-te (como
na história que contamos todos as noites), porque
é essa a única forma de te conhecer
os medos e interpretar os sonhos, escrever
ao teu lado, enquanto dormes, a lista
das tarefas diárias com que nos ocupamos a
matar o tempo.

Criatura, n.º 5, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2010.

domingo, 5 de abril de 2009

TIAGO ARAÚJO

O LUGAR DO MORTO


ao teu lado, no lugar do morto, enquanto
conduzes a conversa a uma frase sem
preparação. chegámos tarde à praia,
como a quase tudo. o vento levanta o
pó do parque de estacionamento e não
saímos do carro. não sei a resposta certa
e por isso represento mal o meu papel secundário.
limito-me a ficar em silêncio, onde
sempre me senti mais confortável.
um lugar sombrio, discreto, abrigado
e ainda assim, segundo dizem, o mais perigoso.


Livre arbítrio, Averno, Lisboa, 2009.