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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

VÍTOR NOGUEIRA

BARCO


Até onde irá este barco? o que o espera no mar?
Antes porém da pergunta, há que desenhar as velas,
moderadas na tintura, muito suaves nos contornos.
E, além de marinheiros, haja no barco figuras
libertas e ociosas. E não pareça o pintor
que quis mostrar pela força tudo aquilo que sabia;
pelo contrário, que deixou muitas coisas por pintar.

E só então a pergunta. Aonde irá este barco?
o que o espera no mar? Experimentai na resposta
o caminho mais remoto, que a parte melhor da pintura
não se pode ver de fora, nem sequer se faz com a mão,
apenas com a fantasia. Agora sim, companheiros,
só nos falta um capitão. Querida baleia, a propósito,
acaso sabes de um homem a quem chamavam Ahab?


Modo fácil de copiar uma cidade, & etc., Lisboa, 2011.

domingo, 7 de novembro de 2010

VÍTOR NOGUEIRA

NOITE


Os gestos mudaram, a iluminação também.
Conseguimos esconder-nos atrás de nós mesmos.
A noite, como sempre, vai servindo para esperar.
De que se vive, afinal? De que se morre?


Quem diremos nós que viva?, Averno, Lisboa, 2010.

domingo, 18 de outubro de 2009

VÍTOR NOGUEIRA

GELO


Agora é apenas um café com paredes adornadas,
imagens retratando destemidos ancestrais.
O tempo foi passando, não foi? Um acidente
em câmara lenta a uma escala cataclísmica.

Grande parte daquilo que fazemos é construir
memória, uma promessa frágil ao futuro.
E pensar que na vida acumulamos tanta coisa,
sobretudo se por hábito não deitamos nada fora.

Mas ninguém pode travar a grande máquina.
Diz-se que a viagem conta mais do que o destino.
Perscruto as águas envolventes, em busca de
sombras, enquanto o mar revolto bate no casco.


Mar largo, & etc, Lisboa, 2009.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

VÍTOR NOGUEIRA

SOBRESSALTO


Um escape livre corta a Rua Alexandre Herculano,
fende, talvez sem remedeio, a escrita de um soneto.
O Senhor Gouveia não suporta marialvas
com fumaças de Apolos e farfalhices de Mercúrios.

Hoje, que os tempos mudaram, os D. Juans
não usam fina lâmina de Toledo, nem vão
da dama preferida, a lança em riste, disputar
a soberania da beleza, em ginetes de fina raça.

Hoje, a espada é, quando muito, um telemóvel;
os corcéis, motocicletas barulhentas; e o chapéu
emplumado, um capacete (que às vezes, apeados,
mantêm na cabeça, como um quico de comédia).

Depois, claro, os romances de amor são menos vivos,
menos cintilantes de ardores apaixonados.



Senhor Gouveia, Averno, Lisboa, 2006.

domingo, 30 de novembro de 2008

VÍTOR NOGUEIRA

MUSAS


Apolo, chamemos-lhe assim,
é caixeiro-viajante «por acaso», mas
quer tirar enfermagem. Diz que escreve poesia
— está visto, pode acontecer a qualquer um.
Em cima do escadote, o farol do comércio tradicional
organiza a prateleira das águas-de-colónia.
Tudo lhe parece um pouco excessivo.

Apolo insiste numa espécie de sermão
de Santo António aos desodorizantes:
alexandrinos e decassílabos,
arquitecturas de grande entusiasmo,
a nossa relação com a História,
seres iluminados que alcançam o Nirvana.

Mas, de novo, as leis do «acaso»
desempenham um papel importante:
pede-se ao dono do Fiat branco que o afaste,
ou será rebocado. Aí vai ele, o viajante.
De algum modo, a poesia é difícil para todos.
Basicamente, não fazemos a menor ideia
do que se passa no mundo.


Comércio tradicional, Averno, Lisboa, 2008.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

VÍTOR NOGUEIRA

CORTINA


Era Inverno e nós tínhamos sede.
Talvez por causa do medo, essa forma
de sermos fiéis a nós próprios.
Cambaleámos até ao fundo de Lisboa,
que nesse dia se estipulou ser uma casa
outrora propriedade de um judeu.
Pássaros esvoaçavam numa sala sem gente,
a janela ao fundo, em contraluz.
Escondemo-nos atrás de uma cortina,
espreitando pelo canto da janela
a memória do nosso passado comum.
Depois, estupidamente, discutimos
poesia. Éramos cinco. Decidimos
separar-nos em grupos de quatro.
Por qualquer razão fiquei sozinho.


Bagagem de mão, & etc, Lisboa, 2007.