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quinta-feira, 7 de julho de 2016

VASCO GATO

[IMPRESSO A GIZ NA ARDÓSIA]


Impresso a giz na ardósia,
um gesto de desamparo.

Vem, parece dizer a mão,
traz-me o continente
da tua estranheza.

E esse é o veneno.
E esse é o demónio que abalou
a podridão dos anjos.


Primeiro direito, Artefacto, Lisboa, 2016.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

VASCO GATO

[OS NAVIOS DESMANCHAM-SE SOBRE O CAIS]


Os navios desmancham-se sobre o cais, contornam-se uns aos outros como grandes doenças. Fotografo a cidade a pensar nesses navios, na sua condição de lepra serena. As pontes alçam-se, os rádios difundem canções francesas que não sabemos se existem. Os navios. E nós, como eles, apitando longamente a nossa partida, para que nos acenem mãos francesas ou polacas, para que um lenço conserve subtil a memória desta nossa discreta, fatídica expedição.


Rusga, Trama, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

VASCO GATO

[NÃO DEVEMOS SER FORTES]


Não devemos ser fortes quando está em causa a transfiguração. Há uma espécie de força que é uma espécie de fraqueza, e uma espécie de fraqueza que é uma espécie de força. Como distinguir? Se no pescoço se notar o vinco da corda é porque não estamos a viver.


Omertà, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2007.

domingo, 8 de março de 2009

VASCO GATO

PRIMAVERA PRIMEIRA


estremeço desde o princípio do meu rosto
desde o momento em que sorri e me sorriram
e é nesse lugar ínfimo que suspendo todas as palavras
que fecho os olhos e sinto a frescura de todas as águas
o oceano que cessa e atende o esvoaçar da primavera

é a primeira primavera de todos os outonos
é aqui que em silêncio se bordam os calendários
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores
– no futuro não há esquecimento nem segredos
cada coração guarda apenas o que for mais comum


Um Mover de Mão, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.