quinta-feira, 24 de julho de 2008

RUI NUNES

VÉSPERAS PORTUGUESAS


o dia corre de poente para nascente, a chuva
é um lençol tenso sobre os velhos que separam
as lembranças, com palavras que não chegam
a dizer: esquecem os subterfúgios do tempo
e avançam cambaleantes pelas grandes fissuras
entregues ao despovoamento alucinante

no interior dos carros, os crimes
são ligeiras confidências


Ofício de Vésperas, Relógio d'Água, Lisboa, 2007.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

CARLOS POÇAS FALCÃO

[TODOS SABEMOS ACENDER UM FÓSFORO]


Todos sabemos acender um fósforo
a quem nos pede lume.

Talvez fosse uma conversa
possível até ao fim. Mas o mais vulgar
é ficarmos onde estamos
com o fósforo aceso à beira do rosto

— e antes de haver tempo
a chama queima os dedos.


Coração Alcantilado, Opera Omnia, Guimarães, 2007.

terça-feira, 22 de julho de 2008

MANUEL DE FREITAS

QUERELLE



Não tenho, para ser sincero,
muita simpatia por aquele rapaz
de óculos escuros que roubava livros
em Santarém. Rapou o cabelo,
decorou páginas inteiras de Genet,
sem que nada percebesse do amor.

E, no entanto, é ele que me pede agora
contas da vida que não vivi — esse
náufrago de espelhos abolidos e
de noites sem saída. Esse rosto imberbe
que finjo reconhecer ao longe.

Talvez lhe pudesse simplesmente
dizer: ao menos não engordei,
cretino, e escrevi mais poemas
do que tu alguma vez sonhaste.

Mas ele riposta, implacável:
não te voltarão a chamar rapaz.
Deves-me todos os poemas que escreveste.


Walkmen (com José Miguel Silva), & etc, Lisboa, 2007.

JOSÉ MIGUEL SILVA

SO GOODNIGHT


Não posso dizer que tenha aprendido grande coisa
nos últimos, digamos, duzentos anos.
Há muitas perguntas que vão perdendo altura
à medida que as penas tombam e também
as garras já não prendem como soíam.
Depois de ter visto de que palha são enchidos
os príncipes felizes, já não saio de casa
sem levar comigo uma carteira de fósforos.
Agora tenho mais tempo morto, só de cinco
em cinco anos compro uma pilha nova
para o relógio. Em vez de cortar os pulsos
cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
para lhe perguntar por que não tocas.
E o que mais me custa, no fim de contas,
é dar razão a Confúcio quando afirma:
quanto mais te ergues para Deus mais ele
de ti se afasta, deixando-te sozinho
a arrumar a casa. Mas estes chineses,
na filosofia moral como no ténis de mesa,
acabam sempre por levar a taça,
e por esta altura da minha queda já concedo
que seja o silêncio a condição natural
para uma ave sem nome que Setembro chamou
e que há duzentos anos não aprende nada.


Walkmen (com Manuel de Freitas), & etc, Lisboa, 2007.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

OSSUÁRIO


Calor da tarde de Agosto
nesse Verão já longínquo.

Sobre a cancela um sobreiro:
sob o sobreiro, ninguém.

O resto ficou escondido
na margem de poucos versos.


A Mãe de Todas as Histórias, Averno, Lisboa, 2008.

JORGE GOMES MIRANDA

PROPOSIÇÃO


Acordam muito cedo para contemplar o dia
ainda isento de contendas.
As pernas arrastam um caminho
que só eles conhecem.
Num pequeno espelho, bastião da beleza que não morre,
agasalham o peito.
As palavras mais ternas guardam-nas
para pombos e netos. Ou quando
conversam com um filho que não chegou a nascer.

Os documentos pessoais em sacas de plástico preto
que depois os acompanham quando saem à rua.
Em Setembro olham fixamente o céu
como se quisessem compreender.
Há muito escolheram a roupa que querem levar.


Velhos, Teatro de Vila Real, 2008.

A. M. PIRES CABRAL

CONSELHO AOS INEXPERIENTES


Tal como os bifes,
é sempre bom fraccionar o grande Tudo
em pequenos, nutritivos nadas:

cabem melhor na boca,
digerem-se melhor, dão melhores fezes.


As Têmporas da Cinza, Cotovia, Lisboa, 2008.