quinta-feira, 14 de agosto de 2008

JOSÉ MÁRIO SILVA

CREPÚSCULO


A oliveira cresce de encontro ao céu,
com a luz dourada entre os ramos.
Há um perfume de rosas murchas,
o som do mar lá muito ao longe.
Calam-se por fim os ecos, as coisas.
Todos os caminhos levam à noite,
à sua cilada de estrelas e penumbra.


Nuvens & Labirintos, Gótica, Lisboa, 2001.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

MANUEL ANTÓNIO PINA

KM 82


I'm on the highway to hell a 170 à hora
no CD, ou então o rádio para sempre sintonizado
na final da Taça.
Nunca saberás o resultado, Faéton,
hey, mumma, look at me,
I'm on may way to the promised land
e está visto que uma ligação directa não chega
para pôr em marcha uma vida como a tua,
de subúrbio, ou para ir de encontro a um destino
diferente do abono da Caixa ou de um poste de betão.
Para quê palavras agora,
com a moral da história inteiramente à mostra?
E lágrimas, quem as chorará?
Nem a companhia de seguros, pois que
a tua morte foi facto de terceiro
e a tua vida não estava coberta
senão pela chuva da madrugada de sábado.
Um raio de Júpiter ou um pneu rebentado, que importa?
Ovídio ou o Jornal de Notícias?
Ilic frena jacent, ilic temone revulsus
axis, in hac radii fractarum parte rotarum.


Os Livros, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.

domingo, 10 de agosto de 2008

HELDER MOURA PEREIRA

[GRAVATA E BARBA CRESCIDA, INCLINAÇÃO E TARA PERDIDA]


Gravata e barba crescida, inclinação e tara perdida,
outra vez achada no último terço da vida. Nem em sonhos
ou lá dentro, muito dentro da cabeça, onde um órgão
ecoa em nós como numa catedral. E fica-te bem, gola
aberta e cara rapada, boca de sino e justa camisola.

Vamos à bola ou pelo menos aos matraquilhos, sem filhos,
sem coisa nenhuma, só nós dois, piadas e anedotas.
Quando acordas todos os dias a pensar no mesmo e perguntas
se há comprimidos para apagar a memória, parece
pelos meus olhos que a resposta vai ser sim. Mas não.

Tu tens olheiras de não fazer nada, como cansa retirar
ervas do chão, como cansa lançar a confusão no meu corpo
invisível onde não me conhecem. Be my toaster!
E assim, saudando-me, quem sabe se um dia eu serei capaz
de não me enganar na transmissão de um pensamento.

Eu quero que os teus pensamentos vão passear,
fala-me dos teus desejos, das tuas ambições, faz de conta
que eu sou um terapeuta breve a fingir que ouve histórias
emocionantes. Daquelas de fazer chorar as pedras da calçada.
Em guarda! E davas um salto como um espadachim. E um abraço.


Lágrima, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

CARLOS BESSA

ALÍVIO RÁPIDO


A idade da poesia cedo nos abandona.
A prosa, pelo contrário, vai-se tornando imperativa,
obriga-nos às flexões da fala e encobre,
com elas, possibilidade tão bela, tão nobre.
Como se falar fora maneira de transformar
o menos em muito, e assim em paz com os sonhos
e com menos ânsias nos dedicássemos
à arquitectura das grandes causas,
a família, o emprego, as heranças.
Morre-se tanto à espera da sorte grande.
Por isso, quando dizes amanhã todo eu me esforço
por não cair no mau teatro dos cúmulos,
o do forno, o da panela ao lume. Mas, confesso,
as palavras enchem-se de crude e empoladas
e vulgares, nesse tom tão rente ao risível,
não dizem, planam, afectadas, vazias.
Só depois me lembro que o amanhã é próprio
da meteorologia e que esperar
foi sempre um propósito digno. Mais não seja
porque o coração precisa de uma ginástica
rude, que o endureça e torne elegante.


Dezanove Maneiras de Fazer a Mesma Pergunta, Teatro de Vila Real, 2007.

domingo, 3 de agosto de 2008

ALEXANDRE SARRAZOLA

REIS


está para chegar o inverno
desbotam as cores de estio no teu sorriso
são martinho atravessa a Rua da Palma
e a avó reza a santa bárbara

eu mordo o lábio quando tocam os sinos
no jardim zoológico abrigam-se os leões
passa a última fanfarra à nossa porta
chegou o tempo de jogar ao prego

virá o discurso do patriarca
e o radiador entre os pés e a televisão
o gato dorme ao nosso colo
vamos pôr os músicos sobre o musgo do presépio

depois chegam os Reis (é um dia sempre triste)
e sob a chuva de domingo a alma passeia
envergando o seu fato branco de janeiro


Thaumatrope, Averno, Lisboa, 2007.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

INÊS LOURENÇO

CONTA DE PERO VAZ DE CAMINHA


O homem do Guarani tosse
e espirra constantemente, enquanto
serve os cimbalinos em chávena escaldada
ao dono da residencial Grande Rio
e à striper brasileira. Ela discute no seu
português com adoçante
a conta da electricidade, que no seu país
não entra no contrato.


Logros Consentidos, & etc, Lisboa, 2005.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

ALBERTO PIMENTA

[HENRIQUE II]


Henrique II
o da morte anunciada
pelo astrólogo italiano
também não prescindia
do acanto
envolvendo sempre nele
o seu monograma
nos relevos e painéis
dos seus castelos
agora que lhe preste
as folhas secam
lá onde ele estará
ou não estará em lado nenhum
e aí as folhas
secam também


Prodigioso Acanto, & etc, Lisboa, 2008.

terça-feira, 29 de julho de 2008

JOSÉ CARLOS SOARES

[DESCIA A TEMPESTADE]


Descia a tempestade
como quem vai
comprar cigarros ao outro

lado da vida. Lá ia
de mãos nos bolsos de alguma
inclinação. Subia

para os comboios na estação
mais fria, lia

sobretudo nobre
azul e poesia.


Bátega, edição do Autor, Porto, 2006.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

VÍTOR NOGUEIRA

CORTINA


Era Inverno e nós tínhamos sede.
Talvez por causa do medo, essa forma
de sermos fiéis a nós próprios.
Cambaleámos até ao fundo de Lisboa,
que nesse dia se estipulou ser uma casa
outrora propriedade de um judeu.
Pássaros esvoaçavam numa sala sem gente,
a janela ao fundo, em contraluz.
Escondemo-nos atrás de uma cortina,
espreitando pelo canto da janela
a memória do nosso passado comum.
Depois, estupidamente, discutimos
poesia. Éramos cinco. Decidimos
separar-nos em grupos de quatro.
Por qualquer razão fiquei sozinho.


Bagagem de mão, & etc, Lisboa, 2007.

domingo, 27 de julho de 2008

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

O TESOURO


Quando me levaram de casa dos meus pais
guardei comigo o meu tesouro. Uma caixa
de cartão, que um elástico fechava, dormia comigo
escondida dentro dos lençóis. Coisas de que
só eu sabia o nenhum valor. O carimbo de
borracha do avô Jaime, um dente meu, de leite, que
eu mesmo arrancara,
um coral da ilha de Moçambique que me dera
o tio Patuleia, duas moedas com as efígies de
D. Luís e de D. Carlos. Mais umas coisas que
o tempo perdeu na jornada da infância.

Mas uma noite o tesouro
ficou dentro de uma gaveta, não mais o levei para
atravessar comigo a jaula do sono. De
gaveta em gaveta, descubro-o
quando mudo de casa. Não é fácil afastar a caixa
esmaecida onde adormeceu. Primitivo, como os
primeiros princípios da filosofia ou
os primeiros sons de um verso. Hei-de por fim
perdê-lo, como no horizonte se forma e desfaz a
arte poética de um arco-íris.


Termo de Óbidos, Relógio d'Água, Lisboa, 2006.

sábado, 26 de julho de 2008

RUI PIRES CABRAL

[PASSAGEM DE PEÕES]


À vinda do supermercado
diz-me o pequeno monstro
que às vezes me faz companhia:
«E qual é a tua razão de ser?»

Na rua, a tarde rola devagar
entre prédios murchos — e ele
acrescenta: Não me digas
que são os versos.»

E ri-se.


Capitais da solidão, Teatro de Vila Real, 2006.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

ADÍLIA LOPES

CÍRCULO DE POESIA


É um tapete
é um olho
é o Sol
é um caracol
é um espelho
é uma espiral
é um alvo
é um ovo
é uma maminha
é uma aranha


Caderno, & etc, Lisboa, 2007.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

RUI NUNES

VÉSPERAS PORTUGUESAS


o dia corre de poente para nascente, a chuva
é um lençol tenso sobre os velhos que separam
as lembranças, com palavras que não chegam
a dizer: esquecem os subterfúgios do tempo
e avançam cambaleantes pelas grandes fissuras
entregues ao despovoamento alucinante

no interior dos carros, os crimes
são ligeiras confidências


Ofício de Vésperas, Relógio d'Água, Lisboa, 2007.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

CARLOS POÇAS FALCÃO

[TODOS SABEMOS ACENDER UM FÓSFORO]


Todos sabemos acender um fósforo
a quem nos pede lume.

Talvez fosse uma conversa
possível até ao fim. Mas o mais vulgar
é ficarmos onde estamos
com o fósforo aceso à beira do rosto

— e antes de haver tempo
a chama queima os dedos.


Coração Alcantilado, Opera Omnia, Guimarães, 2007.

terça-feira, 22 de julho de 2008

MANUEL DE FREITAS

QUERELLE



Não tenho, para ser sincero,
muita simpatia por aquele rapaz
de óculos escuros que roubava livros
em Santarém. Rapou o cabelo,
decorou páginas inteiras de Genet,
sem que nada percebesse do amor.

E, no entanto, é ele que me pede agora
contas da vida que não vivi — esse
náufrago de espelhos abolidos e
de noites sem saída. Esse rosto imberbe
que finjo reconhecer ao longe.

Talvez lhe pudesse simplesmente
dizer: ao menos não engordei,
cretino, e escrevi mais poemas
do que tu alguma vez sonhaste.

Mas ele riposta, implacável:
não te voltarão a chamar rapaz.
Deves-me todos os poemas que escreveste.


Walkmen (com José Miguel Silva), & etc, Lisboa, 2007.

JOSÉ MIGUEL SILVA

SO GOODNIGHT


Não posso dizer que tenha aprendido grande coisa
nos últimos, digamos, duzentos anos.
Há muitas perguntas que vão perdendo altura
à medida que as penas tombam e também
as garras já não prendem como soíam.
Depois de ter visto de que palha são enchidos
os príncipes felizes, já não saio de casa
sem levar comigo uma carteira de fósforos.
Agora tenho mais tempo morto, só de cinco
em cinco anos compro uma pilha nova
para o relógio. Em vez de cortar os pulsos
cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
para lhe perguntar por que não tocas.
E o que mais me custa, no fim de contas,
é dar razão a Confúcio quando afirma:
quanto mais te ergues para Deus mais ele
de ti se afasta, deixando-te sozinho
a arrumar a casa. Mas estes chineses,
na filosofia moral como no ténis de mesa,
acabam sempre por levar a taça,
e por esta altura da minha queda já concedo
que seja o silêncio a condição natural
para uma ave sem nome que Setembro chamou
e que há duzentos anos não aprende nada.


Walkmen (com Manuel de Freitas), & etc, Lisboa, 2007.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

OSSUÁRIO


Calor da tarde de Agosto
nesse Verão já longínquo.

Sobre a cancela um sobreiro:
sob o sobreiro, ninguém.

O resto ficou escondido
na margem de poucos versos.


A Mãe de Todas as Histórias, Averno, Lisboa, 2008.

JORGE GOMES MIRANDA

PROPOSIÇÃO


Acordam muito cedo para contemplar o dia
ainda isento de contendas.
As pernas arrastam um caminho
que só eles conhecem.
Num pequeno espelho, bastião da beleza que não morre,
agasalham o peito.
As palavras mais ternas guardam-nas
para pombos e netos. Ou quando
conversam com um filho que não chegou a nascer.

Os documentos pessoais em sacas de plástico preto
que depois os acompanham quando saem à rua.
Em Setembro olham fixamente o céu
como se quisessem compreender.
Há muito escolheram a roupa que querem levar.


Velhos, Teatro de Vila Real, 2008.

A. M. PIRES CABRAL

CONSELHO AOS INEXPERIENTES


Tal como os bifes,
é sempre bom fraccionar o grande Tudo
em pequenos, nutritivos nadas:

cabem melhor na boca,
digerem-se melhor, dão melhores fezes.


As Têmporas da Cinza, Cotovia, Lisboa, 2008.