quarta-feira, 12 de novembro de 2008

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES

FOGO, FELPA, FARMACOPEIA


A noite ficou branca uma vez mais.
Nesse luar vazio floresce a rocha,
a silva, o contorno do que nada acolhe.
Subo para a armação de ferro
e fungos e vírus e bactérias
esperam no pousio alagado,
relíquias celestiais, a natureza.
Tiro uma a uma cada roupa
na voltagem do frio, mudo o que fui
por detrás da noite, no pesadelo.

Esmago as folhas da hortelã-brava,
um odor carnívoro que se mistura
à bruma roída dos barcos na lagoa.
Tudo arde nas toalhas que nos limpam,
o sândalo deitado nos lençóis,
a linfa da estopa escura contra a luz.
Cor de açafroa, esse cardo cuja veste
depois de morta é, como nos surge a noite,
macerada.

O arbusto aberto no muro, o varandim
e o trago da chama, o teu retrato. Uma espora
no cerro do penhasco. Dessas coisas
que se perdem antes de lhes tocarmos.
O luar cai além do vidro, no desaire,
no alto morro preto onde este cansaço
por vezes é o deus

O feixe sombrio lança sobre socalcos
outros socalcos mais escuros, no tecto
de madeira ameaçada, a caminho do saguão,
direito ao que fica por dizer.
Quando atravessa o farol da alvenaria
ilumina-o para dentro, essa parte
partida da revolta de que somos o resto
calcinado, sem fundura, um volume
trazido pela escuridão à despedida
e que não cessa de louvar
nessa alegria lacerada.

É melhor que no outro quarto o corpo,
o meu, o deles, a gruta abafada
da parede sem reboco final,
acenda a noite com suores cobertos
pela lâmpada diminuta.
Que no outro quarto eu esqueça
a languidez suicida, o halo de passos
junto de um sabor, o conforto da derrota
que nos avisa com o longe, o seu esquife,
o bacelo translúcido despedaçado
e a viagem do sono, sem mais querer voltar.

Irão faltar-te as cartas que eu deixava
para tu pores os selos. Meu deus,
que mal faz a morte ao outro a quem
nos tira. Depois de nenhum mal nos fazer já
a nós.

Sempre que falo de noites assim
é o Douro visto da galeria. É Ariz. A minha avó
deu-me depois esta cadeira. Só lhe mudei
a lona. Apenas mudei eu. O pano cru
com a amarga simplicidade de tudo.
Cedro a cedro, a violência do que vai
diante de nós, dentro de mim.
Numa selha de zinco davam-me banho
e cantavam para eu não chorar,
é lá possível não chorar.


Alta Noite em Alta Fraga, Relógio d'Água, Lisboa, 2001.

domingo, 9 de novembro de 2008

CARLOS ALBERTO MACHADO

[HOJE VOU PARA O MERCADO VELHO EXPOR O MEU CORPO...]


Hoje vou para o mercado velho expor o meu corpo em pedaços
cada um bem identificado por uma etiqueta com nome e valor
tenho esperança de realizar uma boa transacção há tanta coisa lá
para trocar pelos pedaços ainda em bom estado deste meu corpo
inteiro não tem muita utilidade mas assim a retalho é precioso
em particular a mão direita o crânio o sexo o coração
oxalá ninguém queira comprar por atacado todos os pedaços
é que não sei onde guardei as instruções de montagem.


Talismã, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

JOÃO ALMEIDA

ANTÓNIO


Sob a ponte da auto-estrada
no fundo de um carreiro de formigas
três casas de madeira rápida

é um sítio lento e impuro onde peixes amarelos
cintilam. Crescem fetos na barriga das mulheres
um violador tímido
vinho
um doido arreganhado com olhos parados lá dentro

o António não está e olha para o chão
tem 17 anos e nunca lavou os dentes.
A assistente social pergunta ao guardador de peixes
por que é que o António tem faltado à escola. O barulho
dos carros é faz de conta uma cascata. Que não
sabe, está mal da barriga diz o doido sem sabedoria.

Lesmas pretas com os olhos pequenos pontos brancos
escondidos
brilham como brilha a alegria.


O Mal dos Postes de Alta Tensão, Black Sun Editores, Lisboa, 2000.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

MANUEL DE FREITAS

GUSTAV LEONHARDT, 2005


Às vezes, por breves instantes,
a beleza habita sobre a terra,
tão urgente e impronunciável
como o rosto em trompe l'oeil
na abóbada da igreja de São Roque.

Com isto, estarei talvez a fazer
a mesma triste figura da rapariga espanhola
que ao meu lado rabiscava poemas
dialécticos — «Argumentos» e «Contra-
Argumentos» velozmente incinerados
pela fundamentação física do génio.
Nós, poetas, só escrevemos disparates.

A beleza, dizia eu. Mas os meus pés,
o seu indiscutível peso sobre a terra,
coincidiam com o mármore da sepultura
número 44 (dois terços de paixão, outro de pó).

E aquele homem ajudava-nos a morrer
melhor.


Jukebox 2, Teatro de Vila Real, 2008.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

FERNANDO LUÍS SAMPAIO

NA MARGEM DO CORAÇÃO


Não voltes a perguntar se é isto
o destino porque não sei o que essa palavra
encobre, ou finta, ou derruba, sei
pouco do mundo para dizer isto ou aquilo.

Esta rua conduz a uma outra
que é cruzada por outra ainda. E
os ventos ali se cruzam, as vidas
também, há sempre engarrafamentos.

Mais abaixo fica o rio, apanhavas muitas
vezes o barco já de madrugada,
na manhã seguinte o percurso inverso.

Por mais que não desejes o infinito
prende-se a estes restos,
vegetação rasteira, inquietações,
e na margem do coração

perguntas de novo por que,
em tudo isso,
ninguém te repete o corpo.


Falsa Partida, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.

sábado, 18 de outubro de 2008

HERBERTO HELDER

[DO MUNDO QUE MALMOLHA OU DESOLHA NÃO ME DEFENDO]


do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento


A Faca não Corta o Fogo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2008.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

ANA PAULA INÁCIO

[PARTIR COM OS BARCOS]


Partir com os barcos
e ferir os dedos
ao puxar das redes.
Mas o sangue, que se confundirá nas malhas, não será
ainda tão significativo como aquele que verterá o peixe
ao cair nelas.


As Vinhas de Meu Pai, Quasi, Famalicão, 2000.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A. M. PIRES CABRAL

O REINO DAS GARÇAS


Decididamente,
aqui é o reino das garças.

São elas talvez, de tão tranquilas,
a chave do enigma
deste lugar de raríssimos rumores.

Algumas já se habituaram
ao tráfego dos barcos:
olham maquinalmente,
como um obreiro que cumpre
o dever fastidioso de contar
coisas que transitam
– cestos de uvas, barcos, horas,
outras aves –,
sem ordem do patrão
para abandonar o posto de vigia.

Outras, timoratos riscos brancos,
vê-se que temem o contágio dos poetas,
põem-se em fuga,
sobrevoando os juncos.

E eu a bordo sigo as garças:
às vezes sou a que fica,
às vezes sou a que voa.


Douro: Pizzicato e Chula, Cotovia, Lisboa, 2004.

sábado, 4 de outubro de 2008

FERNANDO PINTO DO AMARAL

[TENTA LER OUTRA VEZ. NÃO TE APETECE]


Tenta ler outra vez. Não te apetece
voltar à febre alheia, à superfície
frontal da madrugada? Cada página
destapava outra vida, destilando
o veneno da esperança, a invenção
de um jogo mais que jogo, para lá
do lume que gritava enquanto ardia
na bola de cristal. Ainda conheces
o assombro ou a doença a que chamavas
pensamento? Regressa, por favor,
não te escondas na montra dos sentidos,
no vão sabor do corpo. Não te agrada
o abraço das estrelas quando nascem?,
a rota universal do labirinto?


Pena Suspensa, Dom Quixote, Lisboa, 2004.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

JOSÉ MIGUEL SILVA

LADRÕES DE BICICLETAS — VITTORIO DE SICA (1948)


Mil quilómetros por dia pedalava meu pai, desde
a cama junto ao Douro até à próspera Cerâmica
de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da Primavera, a poalha do suor em cada mão.

Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veículo de sombra,
solitário trepador pela encosta de Avintes. Não
trabalha em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões na nacional,
onde tudo, depois, será muito mais plano.


Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, Lisboa, 2005.

domingo, 28 de setembro de 2008

JOÃO ALMEIDA

FACIAL


Há três bruxas más em ti
zute a vassoura nas costas morre e nas ruas leva
o coração aberto, veias arrancadas às pernas
para salvar o dia
tudo igual ao que não sei

os comprimidos fora de prazo
cruzam o ar. Engole com o café à volta da mesa
senhor, senhor I'm better
when I'm bad diz na t-shirt da empregada

há a televisão ligada e animais para tudo no jardim
levantam voo os pássaros comuns
como grãos castanhos
e vozes uma a uma num turbilhão macio

vivo para coser a pele com cuidado.


A Formiga Argentina, Averno, Lisboa, 2005.

domingo, 21 de setembro de 2008

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

CARTÃO DE RESISTÊNCIA


Nos últimos dias do ano houve
que ir renovar o
cartão de identidade. Quer a lei que seja assim
de quando em tanto devemos ir
ao registo dizer que continuamos na mesma
(filhos dos mesmos pais
e país). Os
filhos das mães de Março são
filhos do mês de Junho mas
por alguma espúria ética querem ter
mesmo a certeza de que seguimos aqui
dando a cara pela república
apondo o
dedo na ferida.


Luz Última, Cotovia, Lisboa, 2006.

domingo, 14 de setembro de 2008

RUI PEDRO GONÇALVES

[EM SÃO JOÃO, NA MARÉ ALTA]


Em São João, na maré alta
Crianças puxam barcos a cordel.
Outras guardam em pequenos baldes
Estrelas, anémonas, conchas
Que poderiam ter trazido em peregrinação.
Há túneis com água,
Castelos de brincar
Onde a Sara inventa — por breves instantes —
A glória do seu reino e do seu nome.

Na maré baixa
Migram os rochedos,
As fortalezas dão lugar a pequenos lagos
De algas e canções.
As crianças disputam o pequeno areal
Enquanto os pais, de olhar mais distraído nos veleiros,
Sonham Dezembro disposto noutras fortalezas,
Num outro ângulo de visão.

A praia, o pequeno areal,
O mar em frente
Estende ou aproxima os pequenos sonhos
Baralhados num jogo de brincar.


Diques, Teatro de Vila Real, 2007.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

JORGE ROQUE

CANÇÃO


Doi-me aqui estou só.


Broto Sofro, Averno, Lisboa, 2008.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE

[GREGOR TRANSFORMOU-SE EM BARATA GIGANTE]


Gregor transformou-se em barata gigante.
Eu não: fiz-me aranhiço,
tão leve que uma leve brisa o faz
oscilar no seu fio de baba lisa.
Até que, contra a lei da natureza,
creio que tenho peso negativo,
e me elevo no ar se me não prendo
ao canto mais escuro desta ilha.
Quando descer à teia derradeira
não se verá no mundo alteração, ou só
talvez alguma mosca mais contente.
Em noites de luar, na alta esquina,
ficará a brilhar, mas sem ser vista,
a estrela que tracei como armadilha.


Aracne, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

RUI PIRES CABRAL

«I WAS ENTIRELY INSULAR.»


Horas a fio cercado de angústia
por todas as partes. A noite era vária
e trazia pela mão os bebedores,
seus prometidos. Nos sonhos via,
recorrente, um sino que oscilava
sem ruído e a aldeia estranhamente

abandonada, quatro ruelas entregues
ao espanto de um meio-dia infinito.
Se acordava, logo vinha ter com ele
a mesma dor, como um animal
sedento de atenção e companhia.
Era um estado de renúncia

e nenhum verso o aproximava já
de si, mas de alguém desconhecido
entre corpos que passavam,
desconhecidos também, todos eles,
desde o primeiro. Não tinha
com quem falar, nem saberia dizer

como pudera perder-se
de tudo quanto amara e conhecera.
E ao começo do verão quase se deixou
vencer, sentado no seu exílio
a olhar para os telhados, lá em cima
onde o silêncio o sequestrava.


Telhados de Vidro, n.º 10, Averno, Lisboa, 2008.

sábado, 30 de agosto de 2008

MANUEL DE FREITAS

SUPERMERCADO

para a Ana Paula Inácio

Tenho 35 anos e sei finalmente o que
quero. Basta olhar para o cesto
de compras: bolachas Leibniz, papel
higiénico Renova, leite com chocolate
Agros e, claro, uma garrafa de Famous
Grouse e pelo menos seis latas de Super Bock.
Discos já tenho que cheguem, por muito
que me desminta, e não viverei o suficiente
para ler todos os livros que me ocuparam a casa.

É um bocadinho banal, eu sei, mas é a minha
prestação diária enquanto consumidor, o meu fado
simples, enxuto, quase isento de lágrimas & remorsos.
Acordo para almoçar no Doce Lindo (ou Doce Belo, ainda
não houve rotina que me fizesse decorar o nome),
passo pelo supermercado, onde desejo ou nem por isso
todas as ternas e voláteis isildas deste mundo perfeito
– e volto a subir devagar as escadas de madeira rombas.

Só muitas horas depois, quando as luzes
me garantem que o bairro inteiro dorme,
escrevo poemas como este, versos em que
inutilmente vos digo que sou um homem feliz,
un roseau pensant, o mais belo cadáver de Lisboa.


Telhados de Vidro, n.º 10, Averno, Lisboa, 2008.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

MANUEL GUSMÃO

A MEIO DO CADERNO


Ao meio das folhas, no meio das vozes
que abrem e cantam a clareira, a corda
de algodão delgada e branca que atravessou
quatro orifícios, quatro furos petrolíferos,
dá o nó e o laço
que seguram as páginas de terra e
formam o caderno. Nas praias imóveis
nas suas ondas quietas, na rugosidade
branca das suas verdes folhas, podes
agora
escrever na leitura o livro
entre ti e mim tecido/entretecido
das sílabas vivas do surdo clamor
do mundo, do vivo enquanto
vivo.

Beija o anel do luar e
do sol: a música do mundo
presa na haste viva que o livro
hasteia branca e vermelha.


Telhados de Vidro, n.º 10, Averno, Lisboa, 2008.

sábado, 23 de agosto de 2008

FÁTIMA MALDONADO

ENGENHOS DA NOITE


1

A noite reconstrói
a vida já segada
o cepo onde rompeu
a pele do pescoço
à infância transida
o surto mais febril
vai entoando loas
na esperança
d'açaimar
genéticos desgarros
percutem botões
na árvore da vida
as lobas nos fojos
mutilam nas presas
correntes do sonho
suportam muralhas
e a memória insiste
em devorar miúdos.


2

Sôfrega vindima
a crispação da mente
recolhe podres cachos
nos cestos enrijecem
soníferas gavinhas
o sono imperial
triunfa da vigília
ao descansar lembranças
a escama da sutura
expande pus
a inquinada linfa
onde a memória assusta.


Vida Extenuada, & etc, Lisboa, 2008.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

FERNANDO GUERREIRO

[A CONSCIÊNCIA MELANCÓLICA DAS PALAVRAS]


A consciência melancólica das palavras
abandonara-o, comunicando ao que escrevia
a solidez da crosta que uma vez removida
nos dá a ver, por detrás das barreiras
do ser, as formas mais inseguras da vida.
Ultimamente, no entanto, custava-lhe
encontrar um lugar que lhe agradasse
para as palavras e pedia mais tempo
para depor no chão o fardo de dor
a que se reduzia para ele o destino
da poesia. Restava-lhe, talvez,
o relato das formas menores
de existência – em que as palavras,
por cima do abismo, ainda descobrem
a vegetação a que se agarrar
no caminho da subida. Mas
a poesia, para se escrever,
requer um mínimo de experiência –
migalhas de ser, pelo som coloridas,
antes que sobre elas caia
a cortina do crepúsculo.


Caminhos de Guia, Black Sun Editores, Lisboa, 2002.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

JOSÉ CARLOS BARROS

AS FRONTEIRAS


Era no tempo improvável da etnografia:
vestíamos jeans e corríamos no restolho,
viravam-se nos lameiros os fenos
três dias depois de ceifados
à lâmina, vivíamos depressa
a ler o Cesariny ou a debulhar
o milho nos sobrados, espalhava-se no chão
a caminho da igreja o alecrim.
Parece que foi no séc. XIX
entre retratos como se fossem a sépia e os bilhetes
do expresso de Lisboa comprados
no Cunha a ver os concertos de jazz.
O que nos traiu não é fácil de dizer.
Agora é apenas como se um estranho caleidoscópio
misturasse a tristeza e o êxtase
do que fomos, do que quase chegámos a ser.


Periférica, n.º 13, Vilarelho, Vila Pouca de Aguiar, 2005.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

JOSÉ MÁRIO SILVA

CREPÚSCULO


A oliveira cresce de encontro ao céu,
com a luz dourada entre os ramos.
Há um perfume de rosas murchas,
o som do mar lá muito ao longe.
Calam-se por fim os ecos, as coisas.
Todos os caminhos levam à noite,
à sua cilada de estrelas e penumbra.


Nuvens & Labirintos, Gótica, Lisboa, 2001.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

MANUEL ANTÓNIO PINA

KM 82


I'm on the highway to hell a 170 à hora
no CD, ou então o rádio para sempre sintonizado
na final da Taça.
Nunca saberás o resultado, Faéton,
hey, mumma, look at me,
I'm on may way to the promised land
e está visto que uma ligação directa não chega
para pôr em marcha uma vida como a tua,
de subúrbio, ou para ir de encontro a um destino
diferente do abono da Caixa ou de um poste de betão.
Para quê palavras agora,
com a moral da história inteiramente à mostra?
E lágrimas, quem as chorará?
Nem a companhia de seguros, pois que
a tua morte foi facto de terceiro
e a tua vida não estava coberta
senão pela chuva da madrugada de sábado.
Um raio de Júpiter ou um pneu rebentado, que importa?
Ovídio ou o Jornal de Notícias?
Ilic frena jacent, ilic temone revulsus
axis, in hac radii fractarum parte rotarum.


Os Livros, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.

domingo, 10 de agosto de 2008

HELDER MOURA PEREIRA

[GRAVATA E BARBA CRESCIDA, INCLINAÇÃO E TARA PERDIDA]


Gravata e barba crescida, inclinação e tara perdida,
outra vez achada no último terço da vida. Nem em sonhos
ou lá dentro, muito dentro da cabeça, onde um órgão
ecoa em nós como numa catedral. E fica-te bem, gola
aberta e cara rapada, boca de sino e justa camisola.

Vamos à bola ou pelo menos aos matraquilhos, sem filhos,
sem coisa nenhuma, só nós dois, piadas e anedotas.
Quando acordas todos os dias a pensar no mesmo e perguntas
se há comprimidos para apagar a memória, parece
pelos meus olhos que a resposta vai ser sim. Mas não.

Tu tens olheiras de não fazer nada, como cansa retirar
ervas do chão, como cansa lançar a confusão no meu corpo
invisível onde não me conhecem. Be my toaster!
E assim, saudando-me, quem sabe se um dia eu serei capaz
de não me enganar na transmissão de um pensamento.

Eu quero que os teus pensamentos vão passear,
fala-me dos teus desejos, das tuas ambições, faz de conta
que eu sou um terapeuta breve a fingir que ouve histórias
emocionantes. Daquelas de fazer chorar as pedras da calçada.
Em guarda! E davas um salto como um espadachim. E um abraço.


Lágrima, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

CARLOS BESSA

ALÍVIO RÁPIDO


A idade da poesia cedo nos abandona.
A prosa, pelo contrário, vai-se tornando imperativa,
obriga-nos às flexões da fala e encobre,
com elas, possibilidade tão bela, tão nobre.
Como se falar fora maneira de transformar
o menos em muito, e assim em paz com os sonhos
e com menos ânsias nos dedicássemos
à arquitectura das grandes causas,
a família, o emprego, as heranças.
Morre-se tanto à espera da sorte grande.
Por isso, quando dizes amanhã todo eu me esforço
por não cair no mau teatro dos cúmulos,
o do forno, o da panela ao lume. Mas, confesso,
as palavras enchem-se de crude e empoladas
e vulgares, nesse tom tão rente ao risível,
não dizem, planam, afectadas, vazias.
Só depois me lembro que o amanhã é próprio
da meteorologia e que esperar
foi sempre um propósito digno. Mais não seja
porque o coração precisa de uma ginástica
rude, que o endureça e torne elegante.


Dezanove Maneiras de Fazer a Mesma Pergunta, Teatro de Vila Real, 2007.

domingo, 3 de agosto de 2008

ALEXANDRE SARRAZOLA

REIS


está para chegar o inverno
desbotam as cores de estio no teu sorriso
são martinho atravessa a Rua da Palma
e a avó reza a santa bárbara

eu mordo o lábio quando tocam os sinos
no jardim zoológico abrigam-se os leões
passa a última fanfarra à nossa porta
chegou o tempo de jogar ao prego

virá o discurso do patriarca
e o radiador entre os pés e a televisão
o gato dorme ao nosso colo
vamos pôr os músicos sobre o musgo do presépio

depois chegam os Reis (é um dia sempre triste)
e sob a chuva de domingo a alma passeia
envergando o seu fato branco de janeiro


Thaumatrope, Averno, Lisboa, 2007.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

INÊS LOURENÇO

CONTA DE PERO VAZ DE CAMINHA


O homem do Guarani tosse
e espirra constantemente, enquanto
serve os cimbalinos em chávena escaldada
ao dono da residencial Grande Rio
e à striper brasileira. Ela discute no seu
português com adoçante
a conta da electricidade, que no seu país
não entra no contrato.


Logros Consentidos, & etc, Lisboa, 2005.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

ALBERTO PIMENTA

[HENRIQUE II]


Henrique II
o da morte anunciada
pelo astrólogo italiano
também não prescindia
do acanto
envolvendo sempre nele
o seu monograma
nos relevos e painéis
dos seus castelos
agora que lhe preste
as folhas secam
lá onde ele estará
ou não estará em lado nenhum
e aí as folhas
secam também


Prodigioso Acanto, & etc, Lisboa, 2008.

terça-feira, 29 de julho de 2008

JOSÉ CARLOS SOARES

[DESCIA A TEMPESTADE]


Descia a tempestade
como quem vai
comprar cigarros ao outro

lado da vida. Lá ia
de mãos nos bolsos de alguma
inclinação. Subia

para os comboios na estação
mais fria, lia

sobretudo nobre
azul e poesia.


Bátega, edição do Autor, Porto, 2006.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

VÍTOR NOGUEIRA

CORTINA


Era Inverno e nós tínhamos sede.
Talvez por causa do medo, essa forma
de sermos fiéis a nós próprios.
Cambaleámos até ao fundo de Lisboa,
que nesse dia se estipulou ser uma casa
outrora propriedade de um judeu.
Pássaros esvoaçavam numa sala sem gente,
a janela ao fundo, em contraluz.
Escondemo-nos atrás de uma cortina,
espreitando pelo canto da janela
a memória do nosso passado comum.
Depois, estupidamente, discutimos
poesia. Éramos cinco. Decidimos
separar-nos em grupos de quatro.
Por qualquer razão fiquei sozinho.


Bagagem de mão, & etc, Lisboa, 2007.