quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

RUI PEDRO GONÇALVES

[NESSA NOITE FICÁMOS RETIDOS NA ESTRADA]


Nessa noite ficámos retidos na estrada.
Os seus documentos, por favor.
Sim. Pode seguir. É sempre em frente.

As luzes eram tantas.
Projectavam, lado a lado, o teu rosto e o meu.

Gostaria de me ter despedido desse céu,
Antes que morresses numa página,
Num quarto de hospital,
Ou noutro lugar qualquer
Onde pudéssemos, em contracurva, despistar o leitor.

Sim. Pode seguir.


Noites na Granja, edição do Autor, 2006.

domingo, 11 de janeiro de 2009

ALBERTO PIMENTA

[MAS QUE MEMÓRIA]


mas que memória
podemos ter
de nós?
e de qual tempo?

deste tempo exterior
em que
depois de criados
e decifrados
os consensuais alfabetos
da exploração
da vida
chegou o projecto Stardust
com material inalterado
desde o início
do sistema solar,
que não nos diz
se então já havia actos de amor
e portanto
não nos diz nada (?)

é preciso emparedar o demente
que propõe que podia haver
o que não há.
e outros
como ele.

acham-se todos
cada vez mais
perdidos
no meio do próprio ruído,
carregando
males
e mails
como se a diferença
entre ambos estes termos
não fosse
apenas o espaço
de uma ou outra letra,
e a ressonância
da voz do homem
que treme fora como a terra dentro.


Imitação de Ovídio, & etc, Lisboa, 2006.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

RUI PIRES CABRAL

LIVROS


O tempo cumpriu as promessas que nos fez
e o dia já não é corrigido pela música:
estas casas não terminam em nenhum jardim,
estão viradas de frente para o inverno, a nossa
direcção. Mas não deixa de ser estranho
reler agora os livros de que gostávamos, os livros
que não podíamos compreender ainda:
enchemos com eles as estantes do futuro,
para o dia em que não poderíamos suportá-los,
de tão próximos. A bela geometria das superfícies
não pode continuar a distrair-nos de tudo
o que nos atormenta: a vida é isto, esta imensa
e inútil espera, e os livros afinal
jamais nos ensinaram outra coisa.


Praças e quintais, Averno, Lisboa, 2003.

domingo, 4 de janeiro de 2009

MANUEL DE FREITAS

SÃO MARTINHO


Tenho atrás de mim um bar
e à frente um cemitério.
Assim (na opinião de uma amigo)
deveria terminar não apenas o postal
mas um poema que não escrevi.
Serviam, para acompanhar as cervejas,
batatas a murro tão frias como eu.

Talvez o postal bastasse, agora que
a igreja velha, onde o meu pai
aprendeu música, já só abre
para velórios — diariamente, portanto.

Calado, à minha frente, um cemitério
– e, apenas um pouco atrás,
canções que vêm morrer
junto ao balcão do bar

não sei por quanto tempo.


Boa Morte, edição do Autor, Lisboa, 2008.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

ARMANDO SILVA CARVALHO

[VIAJOU SEMPRE ENTRE NÓS O RISO AGUDO DOS CÍNICOS]


Viajou sempre entre nós o riso agudo dos cínicos.
Houve palácios de palavras no ar ao nível do volante
Ou então uma perna de seda, umas calças eróticas
Nas maiores noites de glória da mão que te controla a força.

E sempre esse mau ciúme do teu génio
Em baixo, numa segunda instância
Das mudanças do sexo.


O Amante Japonês, Assírio & Alvim, Lisboa, 2008.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

JOSÉ CARLOS BARROS

EM VEZ DO SILÊNCIO


Riscar aos poucos, uma
a uma, as imagens, as palavras.
Reduzi-las a um breve núcleo
substantivo. E depois apagar
de novo, uma e outra, uma
e outra. Até à ilusão
da nascente, à nuvem
das águas subterrâneas.

Por uma poesia
que não dissesse. Que não enunciasse.
Que apenas deixasse
nas folhas das árvores
o que se esconde por dentro
do obscuro rumor
indecifrável das palavras.

A arquitectura e a árvore:
um sistema filosófico
dividido entre a perfeição
da matemática e
a claridade iniludível
da experiência. Entre
a razão e a verdade.

Apagar as palavras, uma
a uma, até à ilusão
da primitiva vertigem
criadora. As raízes
da árvore erguendo-se
em vez do silêncio
e em vez do poema.


Sulscrito, n.º 1, Faro, 2007.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

PLÁTANOS


Depois de ter fechado tudo, abro de novo a porta
e corro, cambaleante, para a vazia escuridão
assusta-me a certas horas a companhia
do que não adormece
a resistência disso
que permanece no nosso espaço
movido por outras forças

Mas também acontece acender primeiro a luz
e só depois sentir um medo louco da casa que me acolhe
dos seus redemoinhos imperceptíveis
que julgo cada vez mais perto
como se estivesse para ser morto
às mãos do próprio Deus

Não sei bem acordar vivo destas coisas:
por vezes aproveito o ruído do entardecer e grito muito alto
ou deixo-te um instante só (um instante só)
para fechar os olhos que tanto ardem
ou atiro das margens folhas ao rio
para medir o tempo de uma vida
a naufragar


Relâmpago, n.º 12, Lisboa, 2003.

domingo, 21 de dezembro de 2008

A. M. PIRES CABRAL

OVO


Parece-me isto um comboio,
mas pode ser um ovo.

Bem entendido, um ovo enjeitado,
por chocar.

Bem entendido, um ovo por chocar
que nunca eclodirá.

Onde os passageiros
se vão bebendo a si mesmos na gema
e dão bicadas fortuitas
e cada vez mais raras
na casca que não abre por dentro.


Que Comboio É Este, Teatro de Vila Real, 2005.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

INÊS LOURENÇO

PENÉLOPE


Encontrava-a aos domingos
com a teia de crochet, perto
do estádio. Ulisses regressava
a Ítaca, no fim de mais uma
jornada de águias, dragões
e outros monstros. Argos
no banco de trás, abanava a cauda
para não morrer de velho.


A Enganosa Respiração da Manhã, Asa, Porto, 2002.

domingo, 14 de dezembro de 2008

MANUEL DE FREITAS

DUAS VEZES NADA


É assim, amiga. Encontramo-nos
quando calha nos bares de antigamente,
deixando que sobre o tampo azul
das mesas volte a pousar
um baço cemitério de garrafas.

Constatamos o pior, os seus aspectos.
Corpos e livros que foram ficando
por ler na voracidade da noite de Lisboa.
De facto, crescemos em alcoolémia,
acordamos tarde, em pânico,
e perdemos os dias e os dentes
com uma espécie de resignação.
Não temos, ao que parece, serventia.

Sorrimos um pouco, ao terceiro
gin, como quem renasce para a morte,
seus gestos de ternura ou de exuberância.
Talvez tenhamos calculado mal
o ângulo da queda, esta vitória
sem nobreza dos venenos todos.

Mas agora é tarde. Tudo fechou
para nós, para sempre. O amor,
o desejo, até o onanismo da destruição.
Antes de procurares a esmola
do último táxi, fica esta imagem
parada, a desvanecer-se
no frio mais frio da memória:

não dois corpos sentados a trocarem
medo, cigarros e palavras póstumas,
mas duas vezes nada, ninguém,
o silêncio da noite destronando
as cadeiras onde por razão nenhuma
nos sentámos. Os anos, amiga, passaram.


[Sic], Assírio & Alvim, Lisboa, 2002.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

ANA PAULA INÁCIO

HOMENAGEM A 4 POETAS E 1 CINEASTA


Livra-me das tentações
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
— foda-se! —
de morango.


Telhados de Vidro, n.º 11, Averno, Lisboa, 2008.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

ADÍLIA LOPES

MÚSICA DA RUA JOSÉ ESTÊVÃO, EM LISBOA


O portão do Pátio do Duarte

Os toques do quartel

O sino dos Anjos

Os pardais

As folhas dos choupos

*

Foi bom não me ter casado. Não tenho cabeça para outra cabeça.


Telhados de Vidro, n.º 11, Averno, Lisboa, 2008.

sábado, 6 de dezembro de 2008

CARLOS BESSA

APENSAR


Eu vou pensar. Ah, estúpido.
Pensar, não se pensa em português.
Em francês, sim. Ou, quem sabe,
em alemão. De resto,
pensar é bom se houver
um pouco de Ricoeur, Derrida
ou será de angina de peito?

Está bem, não penso.
Cito-te. Dou-te a mão.
Afinal, tu é que sabes,
que orientas,
que espalhas a vaidade
e a razão.


Telhados de Vidro, n.º 11, Averno, Lisboa, 2008.

domingo, 30 de novembro de 2008

VÍTOR NOGUEIRA

MUSAS


Apolo, chamemos-lhe assim,
é caixeiro-viajante «por acaso», mas
quer tirar enfermagem. Diz que escreve poesia
— está visto, pode acontecer a qualquer um.
Em cima do escadote, o farol do comércio tradicional
organiza a prateleira das águas-de-colónia.
Tudo lhe parece um pouco excessivo.

Apolo insiste numa espécie de sermão
de Santo António aos desodorizantes:
alexandrinos e decassílabos,
arquitecturas de grande entusiasmo,
a nossa relação com a História,
seres iluminados que alcançam o Nirvana.

Mas, de novo, as leis do «acaso»
desempenham um papel importante:
pede-se ao dono do Fiat branco que o afaste,
ou será rebocado. Aí vai ele, o viajante.
De algum modo, a poesia é difícil para todos.
Basicamente, não fazemos a menor ideia
do que se passa no mundo.


Comércio tradicional, Averno, Lisboa, 2008.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

RUI PIRES CABRAL

SHIRLEY ANN EALES


Na vitrina lê-se Livros Raros
e Usados sob o azul inclinado
de um toldo – mesmo em frente
à glacial cafetaria de franchise
onde o dia destrata o desejo
e não se pode fumar. Subo
aos pequenos gabinetes
mergulhados no doce bafio
da literatura e percorro de A
a Z as espinhas estreitas

e rachadas da poesia. É o sítio
mais vazio de Novembro
e o que mais me reconforta;
o livro que escolho, por metade
de uma libra, traz no frontispício
um nome e uma morada: Shirley Ann
Eales, de Scottsville – um sumido
autógrafo de maiúsculas magras
e triangulares onde a imaginação
encontra por enquanto pretexto

e oxigénio suficientes para arder.
O livro teve outra existência,
pertenceu a outra casa, a outra mesa
de cabeceira – e o pensamento,
de tão óbvio, conjura de repente
uma vertigem, é um corredor
abrupto para a imensidão do mundo
onde trafica o acaso. Ah, sabemos
que a vida é improvável se damos
por nós a cismar, a meio de uma tarde

insípida, numa mulher desconhecida
que lia poemas em Scottsville, nos anos
70. Mas haverá aqui alguma espécie
de sentido, algum sinal guardado
para alguém mais sábio ou inocente
do que eu? Não sei quem és
nem onde estás agora, Shirley Ann,
mas como seria belo se pudesses
um dia encontrar, por obra da mesma
sorte, o teu nome nestes versos.


Longe da aldeia, Averno, Lisboa, 2005.

domingo, 23 de novembro de 2008

JOSÉ MIGUEL SILVA

TREVAS

Para o Manuel de Freitas

E o pior é que chamamos liberdade
a um tapete que, rolante, já não ouve
a opinião dos nossos pés; que nos leva
para onde e anuímos, alheados,
aos mecânicos desígnios do terror.

Respiramos cadeados, consumimos injustiça,
damos duas várias voltas ao risonho torniquete
que nos serve de chapéu; trocamos a cabeça
por um prato de aspirinas. Os clássicos da vida
sem tristeza nem remorso (Cinderela,

Varadero, off-shore) iluminam o cenário
em que dormimos, inocentes como balas
e nem sei como não somos mais felizes.
As rémoras, os ogres, os deuses mais bonitos,
velam nossa carne como grifos educados.

O tratado das sementes, o saber do lenhador,
queremos lá saber de quem é pobre como nós.
Confiados ao acaso, disputamos amuletos,
reforçamos sob os pés a solidez do desacerto,
colocamos outra pedra no sapato.

Para o centro do inferno dirigimos
este filho, o filho deste carro,
cativados pelo direito conquistado
de entregar os nossos dias, como rezes,
ao cutelo de despachos infiéis.

Neste cerco, viver é uma questão
de prorrogar o desalento, de iludir
o infortúnio: cerramos uma porta suicida,
desatamos a gravata, ficamos satisfeitos
quando o gelo, na bebida, é de boa qualidade.

Se olhamos para o chão desaparece
o horizonte; se olhamos para o céu
ficamos sós. Não percebo como rimos
quando pedem que posemos para a foto
de família. Alguém nos enganamos.

Confundidos pelo surto de mentira,
leiloados pela última hipnose,
enxertados no pedúnculo da morte,
semi-envergonhados, de sorriso padecido,
dizei-me se este rosto de cartão amarrotado,

se esta alma como um campo pedregoso,
se estes pés adaptados ao espinho,
se isto que nós vemos é um homem.


Ulisses já não mora aqui, & etc, Lisboa, 2002.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

POLÍTICA


É um poeta sério,
que escreve versos sérios,
foi o que me disseram,

árduos, saudáveis,
que se podem repetir
antes de almoço

e depois da eucaristia,
em que a realidade,
essa puta velha,

não é menos resistente
que ele e outros,
que dão o corpo ao manifesto
e confirmam, sem caução,

que a solidão é paciente
e o desejo anónimo
– as manhas do canastro

cabem todas em qualquer
cama ou no verso
e meio que ainda falta.


Mais Tarde, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.

domingo, 16 de novembro de 2008

JOSÉ RICARDO NUNES

INCÊNDIO DE ANO NOVO


Mais do que terra, momentos
houve em que quis deitar para a fornalha
o coração e as outras coisas todas
para as quais não encontro nomes rigorosos.


Novas Razões, Gótica, Lisboa, 2002.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES

FOGO, FELPA, FARMACOPEIA


A noite ficou branca uma vez mais.
Nesse luar vazio floresce a rocha,
a silva, o contorno do que nada acolhe.
Subo para a armação de ferro
e fungos e vírus e bactérias
esperam no pousio alagado,
relíquias celestiais, a natureza.
Tiro uma a uma cada roupa
na voltagem do frio, mudo o que fui
por detrás da noite, no pesadelo.

Esmago as folhas da hortelã-brava,
um odor carnívoro que se mistura
à bruma roída dos barcos na lagoa.
Tudo arde nas toalhas que nos limpam,
o sândalo deitado nos lençóis,
a linfa da estopa escura contra a luz.
Cor de açafroa, esse cardo cuja veste
depois de morta é, como nos surge a noite,
macerada.

O arbusto aberto no muro, o varandim
e o trago da chama, o teu retrato. Uma espora
no cerro do penhasco. Dessas coisas
que se perdem antes de lhes tocarmos.
O luar cai além do vidro, no desaire,
no alto morro preto onde este cansaço
por vezes é o deus

O feixe sombrio lança sobre socalcos
outros socalcos mais escuros, no tecto
de madeira ameaçada, a caminho do saguão,
direito ao que fica por dizer.
Quando atravessa o farol da alvenaria
ilumina-o para dentro, essa parte
partida da revolta de que somos o resto
calcinado, sem fundura, um volume
trazido pela escuridão à despedida
e que não cessa de louvar
nessa alegria lacerada.

É melhor que no outro quarto o corpo,
o meu, o deles, a gruta abafada
da parede sem reboco final,
acenda a noite com suores cobertos
pela lâmpada diminuta.
Que no outro quarto eu esqueça
a languidez suicida, o halo de passos
junto de um sabor, o conforto da derrota
que nos avisa com o longe, o seu esquife,
o bacelo translúcido despedaçado
e a viagem do sono, sem mais querer voltar.

Irão faltar-te as cartas que eu deixava
para tu pores os selos. Meu deus,
que mal faz a morte ao outro a quem
nos tira. Depois de nenhum mal nos fazer já
a nós.

Sempre que falo de noites assim
é o Douro visto da galeria. É Ariz. A minha avó
deu-me depois esta cadeira. Só lhe mudei
a lona. Apenas mudei eu. O pano cru
com a amarga simplicidade de tudo.
Cedro a cedro, a violência do que vai
diante de nós, dentro de mim.
Numa selha de zinco davam-me banho
e cantavam para eu não chorar,
é lá possível não chorar.


Alta Noite em Alta Fraga, Relógio d'Água, Lisboa, 2001.

domingo, 9 de novembro de 2008

CARLOS ALBERTO MACHADO

[HOJE VOU PARA O MERCADO VELHO EXPOR O MEU CORPO...]


Hoje vou para o mercado velho expor o meu corpo em pedaços
cada um bem identificado por uma etiqueta com nome e valor
tenho esperança de realizar uma boa transacção há tanta coisa lá
para trocar pelos pedaços ainda em bom estado deste meu corpo
inteiro não tem muita utilidade mas assim a retalho é precioso
em particular a mão direita o crânio o sexo o coração
oxalá ninguém queira comprar por atacado todos os pedaços
é que não sei onde guardei as instruções de montagem.


Talismã, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

JOÃO ALMEIDA

ANTÓNIO


Sob a ponte da auto-estrada
no fundo de um carreiro de formigas
três casas de madeira rápida

é um sítio lento e impuro onde peixes amarelos
cintilam. Crescem fetos na barriga das mulheres
um violador tímido
vinho
um doido arreganhado com olhos parados lá dentro

o António não está e olha para o chão
tem 17 anos e nunca lavou os dentes.
A assistente social pergunta ao guardador de peixes
por que é que o António tem faltado à escola. O barulho
dos carros é faz de conta uma cascata. Que não
sabe, está mal da barriga diz o doido sem sabedoria.

Lesmas pretas com os olhos pequenos pontos brancos
escondidos
brilham como brilha a alegria.


O Mal dos Postes de Alta Tensão, Black Sun Editores, Lisboa, 2000.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

MANUEL DE FREITAS

GUSTAV LEONHARDT, 2005


Às vezes, por breves instantes,
a beleza habita sobre a terra,
tão urgente e impronunciável
como o rosto em trompe l'oeil
na abóbada da igreja de São Roque.

Com isto, estarei talvez a fazer
a mesma triste figura da rapariga espanhola
que ao meu lado rabiscava poemas
dialécticos — «Argumentos» e «Contra-
Argumentos» velozmente incinerados
pela fundamentação física do génio.
Nós, poetas, só escrevemos disparates.

A beleza, dizia eu. Mas os meus pés,
o seu indiscutível peso sobre a terra,
coincidiam com o mármore da sepultura
número 44 (dois terços de paixão, outro de pó).

E aquele homem ajudava-nos a morrer
melhor.


Jukebox 2, Teatro de Vila Real, 2008.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

FERNANDO LUÍS SAMPAIO

NA MARGEM DO CORAÇÃO


Não voltes a perguntar se é isto
o destino porque não sei o que essa palavra
encobre, ou finta, ou derruba, sei
pouco do mundo para dizer isto ou aquilo.

Esta rua conduz a uma outra
que é cruzada por outra ainda. E
os ventos ali se cruzam, as vidas
também, há sempre engarrafamentos.

Mais abaixo fica o rio, apanhavas muitas
vezes o barco já de madrugada,
na manhã seguinte o percurso inverso.

Por mais que não desejes o infinito
prende-se a estes restos,
vegetação rasteira, inquietações,
e na margem do coração

perguntas de novo por que,
em tudo isso,
ninguém te repete o corpo.


Falsa Partida, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.

sábado, 18 de outubro de 2008

HERBERTO HELDER

[DO MUNDO QUE MALMOLHA OU DESOLHA NÃO ME DEFENDO]


do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento


A Faca não Corta o Fogo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2008.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

ANA PAULA INÁCIO

[PARTIR COM OS BARCOS]


Partir com os barcos
e ferir os dedos
ao puxar das redes.
Mas o sangue, que se confundirá nas malhas, não será
ainda tão significativo como aquele que verterá o peixe
ao cair nelas.


As Vinhas de Meu Pai, Quasi, Famalicão, 2000.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A. M. PIRES CABRAL

O REINO DAS GARÇAS


Decididamente,
aqui é o reino das garças.

São elas talvez, de tão tranquilas,
a chave do enigma
deste lugar de raríssimos rumores.

Algumas já se habituaram
ao tráfego dos barcos:
olham maquinalmente,
como um obreiro que cumpre
o dever fastidioso de contar
coisas que transitam
– cestos de uvas, barcos, horas,
outras aves –,
sem ordem do patrão
para abandonar o posto de vigia.

Outras, timoratos riscos brancos,
vê-se que temem o contágio dos poetas,
põem-se em fuga,
sobrevoando os juncos.

E eu a bordo sigo as garças:
às vezes sou a que fica,
às vezes sou a que voa.


Douro: Pizzicato e Chula, Cotovia, Lisboa, 2004.

sábado, 4 de outubro de 2008

FERNANDO PINTO DO AMARAL

[TENTA LER OUTRA VEZ. NÃO TE APETECE]


Tenta ler outra vez. Não te apetece
voltar à febre alheia, à superfície
frontal da madrugada? Cada página
destapava outra vida, destilando
o veneno da esperança, a invenção
de um jogo mais que jogo, para lá
do lume que gritava enquanto ardia
na bola de cristal. Ainda conheces
o assombro ou a doença a que chamavas
pensamento? Regressa, por favor,
não te escondas na montra dos sentidos,
no vão sabor do corpo. Não te agrada
o abraço das estrelas quando nascem?,
a rota universal do labirinto?


Pena Suspensa, Dom Quixote, Lisboa, 2004.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

JOSÉ MIGUEL SILVA

LADRÕES DE BICICLETAS — VITTORIO DE SICA (1948)


Mil quilómetros por dia pedalava meu pai, desde
a cama junto ao Douro até à próspera Cerâmica
de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da Primavera, a poalha do suor em cada mão.

Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veículo de sombra,
solitário trepador pela encosta de Avintes. Não
trabalha em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões na nacional,
onde tudo, depois, será muito mais plano.


Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, Lisboa, 2005.

domingo, 28 de setembro de 2008

JOÃO ALMEIDA

FACIAL


Há três bruxas más em ti
zute a vassoura nas costas morre e nas ruas leva
o coração aberto, veias arrancadas às pernas
para salvar o dia
tudo igual ao que não sei

os comprimidos fora de prazo
cruzam o ar. Engole com o café à volta da mesa
senhor, senhor I'm better
when I'm bad diz na t-shirt da empregada

há a televisão ligada e animais para tudo no jardim
levantam voo os pássaros comuns
como grãos castanhos
e vozes uma a uma num turbilhão macio

vivo para coser a pele com cuidado.


A Formiga Argentina, Averno, Lisboa, 2005.

domingo, 21 de setembro de 2008

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

CARTÃO DE RESISTÊNCIA


Nos últimos dias do ano houve
que ir renovar o
cartão de identidade. Quer a lei que seja assim
de quando em tanto devemos ir
ao registo dizer que continuamos na mesma
(filhos dos mesmos pais
e país). Os
filhos das mães de Março são
filhos do mês de Junho mas
por alguma espúria ética querem ter
mesmo a certeza de que seguimos aqui
dando a cara pela república
apondo o
dedo na ferida.


Luz Última, Cotovia, Lisboa, 2006.