domingo, 17 de maio de 2009

ADÍLIA LOPES

AS PORTAS


I

Se não fecho
algumas portas
há correntes de ar
a mais

Se fecho
todas as portas
não posso sair
mais

Se não abro
algumas portas
não fecho
algumas portas

Se abro
todas as portas
desintegro-me


II

Atrás da porta
para sempre fechada
está o nada

Houve um momento
em que deixei de gostar
da minha mãe

Houve um momento
em que deixei de gostar
do meu pai

Houve um momento
em que deixei de gostar
de mim

Houve um momento
em que deixei de gostar
de ti

Houve um momento
em que parti

Houve um momento
em que voltei

Houve um momento
em que voltei a gostar
de todos

E todos estão
aqui

Mortos
e ausentes


Le vitrail la nuit. A árvore cortada, & etc, Lisboa, 2006.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

JOSÉ MIGUEL SILVA

PARTE POÉTICA


Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos por dia,
pois levanto-me tarde e primeiro há que lavar
os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
Chegar por fim a casa para a prosa
de uma carne à jardineira, o estrondo
das notícias, a louça por quebrar. Concluindo,
só por volta das duas da manhã começo a despir
o fato de macaco, a deixar as imagens correr,
simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.


Relâmpago, n.º 12, Fundação Luís Miguel Nava, Lisboa, 2003.

domingo, 10 de maio de 2009

BÉNÉDICTE HOUART

[HÁ COLARES QUE SÃO COLEIRAS]


há colares que são coleiras
há mulheres que são cadelas
certos homens, cães raivosos

os cães propriamente ditos
não foram para aqui chamados
embora metam o nariz em todo o lado
farejando coisas imaginárias
e, de resto, não falam, ladram
têm com certeza razão


Vida: variações, Cotovia, Lisboa, 2008.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

ARTUR ALEIXO

[AO FIM DA TARDE, NO PÁTIO DA ESCOLA]


Ao fim da tarde, no pátio da escola,
abrem-se os primeiros buracos
para jogar ao berlinde. Milimetricamente
procuram-se os locais do ano
passado. Dos mais velhos
é o primeiro testemunho na arte de invadir
o mundo. Afoitos, explicam também
como os botões sobram na roupa
dos mortos. Durante o velório
esperam o momento certo e zás,
sem contemplações, arrancam-nos dos punhos.

Roubados os botões, fica o relógio
valioso para enumerar os percalços
do mundo.


Telhados de Vidro, n.º 5, Averno, Lisboa, 2005.

domingo, 3 de maio de 2009

JOSÉ MÁRIO SILVA

O. F. (1967-2007)


Do que não precisamos agora é de brilhos fúteis,
truques verbais, exercícios de lirismo magoado.
As palavras são só palavras, nem coisas maiores
nem mais altas, apenas pedras que lançamos
ao poço para ouvir como se agitam as águas.
Lá fora o vento e os telhados agrestes, o céu
da cidade ostensivamente idêntico ao dos
dias felizes. Empilhamos, melancólicos,
livros que já foram mais transparentes.
Conferimos as margens, a mancha gráfica,
os indícios de uma perfeição talvez inútil.

Mesmo olhada de frente, a ausência
continua a ser cruel, o silêncio uma
ignomínia. Descemos à rua, bebemos
café, fingimos seguir em frente. As
palavras são pedras que afinal ficaram
nos bolsos, guardadas para um inimigo
que se ri e só destapa o rosto medonho
quando está fora do nosso alcance.


Luz Indecisa, Oceanos, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

JOÃO ALMEIDA

MAR CALHADO E ESTE SANGUE AINDA QUENTE


saí da cidade como de uma rua sem nome
não me lembro de nada, irei ter com o que houver

levo barulho no saco preto às costas
nódoas na roupa interior
e um poema da perna de pau

a alma foi dar horas, já não regressa e virá diferente
resta matéria gorda que a água do chuveiro não levou
um buraco no chão, e má memória

há versos que chegam à cancela como cães sem dono
outros aparecem e fazem chover
também me perco e deliro


Glória e Eternidade, Teatro de Vila Real, 2009.

domingo, 26 de abril de 2009

LUÍS FILIPE PARRADO

TUDO O QUE O MEU PAI ME DISSE QUANDO, AOS 15 ANOS, DECLAREI EM FAMÍLIA QUE IRIA COMEÇAR A ESCREVER POESIA


"Antes
de te sentares
à mesa
lava bem
essas mãos."


Criatura, n.º 3, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2009.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

JOSÉ CARLOS BARROS

DO QUE A VIDA PODERIA TER SIDO


Os amigos juntam-se e falam do passado,
da música que já não se ouve na rádio,
do inverno em que choveu semanas a fio
e o rio saiu das margens para desenhar

nos troncos das árvores os círculos imperfeitos
da idade. Eles sabem para si mesmos que falam
do que nunca existiu: das mulheres
que se renderam para sempre às palavras do amor,

das perdizes caindo de asa nas encostas
iluminadas da urze, das corridas memoráveis
do vinte e cinco de abril, das tardes de domingo
que haveriam de envergonhar a uefa

se a televisão estivesse presente nas finais dos torneios
dos bombeiros voluntários. É disso que os amigos
falam: do que a vida poderia ter sido
se não fosse a filha da puta da vida que foi.


Criatura, n.º 3, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2009.

domingo, 19 de abril de 2009

DIOGO VAZ PINTO

ASTROLÁBIO


Guardei o recibo, que não serve para nada.
Dados impessoais: o nosso subtotal foi de 6.35
— pediste uma água mineral, um café
e uma sandes de ovo (em que nem tocaste);
pagámos caro por estarmos ali os dois,
na cafetaria do aeroporto com uma hora inteira
só para dizer uma palavra. Tudo
processado por computador, IVA incluído.
Uma operação que teve início precisamente
às 04:55 da madrugada. Agora
temos muito tempo para nos contentarmos
por já não termos que disputar as contas,
tu pagas os teus cafés, e eu sem ti
passo bem sem café.


Criatura, n.º 3, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2009.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

AO ANOITECER


Sou um velho rato celibatário
– a lei não me permite casamento.

Outros encontram sem dificuldade
o universo pronto a vestir

logo de manhã, desde que nasceram.
Depois trajam todas as convenções

– que lhes assentam bem, do colarinho
às mangas, até parece que Deus

é um alfaiate por conta deles.
A nós, a melhor roupa fica mal

– em nenhuma loja vendem sapatos
que nos deixem ir noutra direcção,

nem anel que não faça propaganda
à ordem sempre «natural» do mundo.


O Casamento Sempre Foi Gay e Nunca Triste, & etc, Lisboa, 2009.

domingo, 12 de abril de 2009

NUNES DA ROCHA

CANTIGA DA TININHA DO SEIXAL


Ay eu coitada, prá qui 'stou
Ervilhaca, à espera do meu Júlio
Que está de ressaca! Muyto me tarda
O meu Júlio na Guarda.

Ay eu coitada, prá qui 'stou
De mão no cono, por meu Júlio
Que falta co abono! Muyto me tarda
O meu Júlio na Guarda.


Cancioneiro da Trafaria, & etc, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

VINDEIRINHO

I


num impulso os dedos dela percorrem-lhe o index do rosto e as
pu
pilas dos olhos fixa
mente centraram
se imemoráveis naquela planície imensurável dos dele – passou
lhe inadvertidamente a mão – dedos, palma, pulso – pelas
costas enquanto todo

um cansaço impuro, quase extraordinário, de uma avioneta
atingida
por um raio – pensa n

a quantidade de vasos de flores que tem na
varanda inconcebível e sorricanta meio
adormecida

na casa não há televisão,
na casa não existem âncoras, não há incenso e os incansáveis
navios
partiram, saíram pela porta de incêndio das traseiras em
pianinho, pé ante



Domésticos, Black Sun Editores, Lisboa, 2001.

domingo, 5 de abril de 2009

TIAGO ARAÚJO

O LUGAR DO MORTO


ao teu lado, no lugar do morto, enquanto
conduzes a conversa a uma frase sem
preparação. chegámos tarde à praia,
como a quase tudo. o vento levanta o
pó do parque de estacionamento e não
saímos do carro. não sei a resposta certa
e por isso represento mal o meu papel secundário.
limito-me a ficar em silêncio, onde
sempre me senti mais confortável.
um lugar sombrio, discreto, abrigado
e ainda assim, segundo dizem, o mais perigoso.


Livre arbítrio, Averno, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

A. M. PIRES CABRAL

CASA EM RUÍNAS


O xisto das paredes acolheu
os poucos desejos. O telhado
cortou os grandes frios da geada,
desviou a chuva das enxergas.
Pelos postigos entrou alguma luz.
Rezou-se e morreu-se nessa casa.

Hoje as paredes vão-se aos poucos derruindo:
aproximam-se do chão de que nasceram.
Como se se executasse nela
um antigo memento: quia petra es
et in petram reverteris.

Há muito que o vento derrubou
a derradeira telha. Caíram de podres
as vigas do telhado, e há já alguns invernos
que deram achas para arder no lume.
Quase não há vestígios de postigos –
salvo uma floreira que parece ali
um capricho escarninho.

Cumpriu-se na casa um ciclo.
Hoje não tem serventia,
salvo para alguns animais furtivos
que a ocupam e lhe pedem afinal
as mesmas funções simples
que aquele que a edificou pediu outrora.

Na sua decadência persistente,
a casa mete pena, como todos
os sonhos que algum dia floresceram
e depois se foram esfarelando.

Está visto: as casas não têm
a mesma estouvada vocação
de eternidade
que atormenta os seus donos.


Arado, Cotovia, Lisboa, 2009.

domingo, 29 de março de 2009

NUNO MOURA

[COM O SEU CABELO DE COMA]


Com o seu cabelo de coma
e a mão a erguer os beicinhos de mola
ele olhava para cima e eu segui-o
apanhei alguns dos seus pensamentos
devo tê-lo apanhado no mesmo verso do tecto
casámos no dia 10 de Junho feriado
depois o gajo percebeu
que eu estava sempre de escada feita
para os seus pensamentos
ele aprendeu
começou a fazer o mesmo comigo
aquele gajo tá noutra fase já
é um puro cabeça-ficçe
um despístulo
aquele gajo
também é treino
por exemplo ele pensa na conferência
com candeeiros de pé alto onde eu estou
aquele gajo
e até consegue ler o bilhete que alguém me passa
para o meio da saia
já não dava para estar com ele
aquele gajo.


Magma, n.º 0, Lajes do Pico, 2005.

quarta-feira, 25 de março de 2009

JOSÉ MIGUEL SILVA

SUICIDA


Quando me lancei fi-lo na convicção
de que o meu sofrimento mudaria de dono,
ficaria para ela, merecido legado
para quem sempre gostou de nutrir o ciúme,
essa carnívora planta a cujo habitat
chamamos coração. Eu pensava desfrutar
da vingança por toda a eternidade.
Mas o facto é que à medida que o meu corpo
descia em direcção ao rio um calafrio
fez-me pôr em dúvida a eficácia do castigo:
e se ela recusar a expiação, se for mentira
este consolo que me ofereço, derradeiro?
Ao passar, amigos, pelo tabuleiro de baixo
já ia arrependido. O pânico safou do meu rosto
o beatífico sorriso. Que estúpido sou,
que mesquinho, bem mereço... e não tive tempo
para pensar mais nada. Tu que passas
por esta lápide, escuta: ninguém morre de amor.
De orgulho sim, de despeito, de pura idiotice
ou desejo insaciado. E o sermos amados
quase sempre só depende de nós.


Telhados de Vidro, n.º 2, Averno, Lisboa, 2004.

domingo, 22 de março de 2009

RENATA CORREIA BOTELHO

CARTA PARA A.


viste que os dias não passavam
disto, e viste bem. desse lado
do céu, tens o melhor miradouro
sobre a madrugada. se encontrares
o pintainho que sepultámos,
em segredo e lágrimas, no
quintal das tias, pede-lhe o
arco da sua asa nas noites de lua nova.
remete-me, quando puderes,
pacotes de chuva miúda, gosto
de a ver decalcar a terra, fundir-se
com as sementes de milho
no canto da achadinha.

entretanto, vou montando o
telescópio, com as instruções
que me deste. põe-te à vista
e combinamos um gelado a
meio caminho,
à hora da infância.


Avulsos, por causa, separata da revista Magma, Lajes do Pico, 2005.

quarta-feira, 18 de março de 2009

JORGE GOMES MIRANDA

DIDO AND AENEAS, HENRY PURCELL


O que arde quando tudo arde
não são as torres de Cartago
mas esta cidade de sombra, transformação
fabril, cenografia marítima
que um dia quisemos fazer nossa, no início
de um milénio de míseras vozes –
lamentações com excesso de vibrato,
frases de uma elegância inexpressiva.

Sobre o mar as naus,
uma luz triunfante?
Mistificações, enganos
de fim de tarde.
Prelúdios de uma desistência
sem pantomimas
e momentos operáticos.

Os teus braços, interlúdios musicais
no estertor urbano.


Falésias, Teatro de Vila Real, 2006.

domingo, 15 de março de 2009

JORGE ROQUE

[PODER E CONTRAPODER PERSEGUEM CEGOS O MESMO PODER]


Poder e contrapoder perseguem cegos o mesmo poder. Assim não é de espantar que a inteligência do poder consista precisamente em fomentar o contrapoder. Um preceito antigo por largos séculos testado: a melhor forma de derrotar o inimigo é seduzi-lo.
a
a
Telhados de Vidro, n.º 8, Averno, Lisboa, 2007.

quarta-feira, 11 de março de 2009

AMADEU BAPTISTA

[O TOLDO ILUMINA O QUE OUTRORA FOI CASA RURAL]


o toldo ilumina o que outrora foi casa rural
e de onde chega ainda o cheiro denso
a erva recém-cortada há cinquenta anos
e a leite fresco de recente ordenha.
a cadeira de plástico está molhada
mas sento-me, ainda assim. não muito longe
os homens invadiram o terreiro
e sob a copa de um cedro centenário
jogam o fito contando pelos dedos
concentrando nas mãos o dom do sobressalto
com que a vida que têm os derruba.
é gente de idade, não são velhos.
vistos assim de perto parecem mais crianças
que acabam de chegar vindas da escola
do que vultos vergados pelo peso dos trabalhos
tão duros como os que já passaram.
olhando-os penso em ti, comovo-me em segredo,
pergunto-te a distância a que te encontras
e quais os teus desígnios trazendo-me para aqui,
sabendo-se que preferia estar com os meus filhos
na casa que perdi.
é indiferente culpar-te ou não culpar-te.
é indiferente pertencer a esta cisão
que me determina a palavra e o silêncio,
o mal de ter nascido, a dor de ir morrer.
perdida a juventude a hora do abate
apenas configura o desencanto
que só pode transcender quem me transcende
pela pouca misericórdia disto tudo.
levanto-me, dou dois passos,
aproximo-me do balcão por um copo de água
e vejo na tv imagens da barbárie.
com um fio de sangue sulcando-lhe a cabeça
jaz um homem sem peito entre as ruínas
e há uma anciã que em silêncio grita.
por um segundo vejo tudo turvo
e quase compreendo. de quanto recebi,
o carro resplandecente é a mais-valia.


Os Selos da Lituânia, & etc, Lisboa, 2009.

domingo, 8 de março de 2009

VASCO GATO

PRIMAVERA PRIMEIRA


estremeço desde o princípio do meu rosto
desde o momento em que sorri e me sorriram
e é nesse lugar ínfimo que suspendo todas as palavras
que fecho os olhos e sinto a frescura de todas as águas
o oceano que cessa e atende o esvoaçar da primavera

é a primeira primavera de todos os outonos
é aqui que em silêncio se bordam os calendários
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores
– no futuro não há esquecimento nem segredos
cada coração guarda apenas o que for mais comum


Um Mover de Mão, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

quinta-feira, 5 de março de 2009

RUI PIRES CABRAL

«HE LOVED BEAUTY THAT LOOKED KIND OF DESTROYED.»


Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.


Telhados de Vidro, n.º 8, Averno, Lisboa, 2007.
[Versão revista pelo Autor, para Oráculos de cabeceira, Averno, Lisboa, 2009.]

domingo, 1 de março de 2009

MANUEL DE FREITAS

PRINCÍPIO


Havia junto ao velho portão
um monte de tijolos vermelhos
e não existe nenhuma razão concreta
para se considerar relevante aquele momento.

Porém, julgando tocar a eternidade,
a criança ordenou ao tempo
que parasse. Pequeno deus
brincando sozinho ao entardecer,
sob as amarras azuis do bibe.

A ordem, claro, não pôde
ser cumprida. E só lhe restam
agora o tempo, o nada, a morte
e as palavras que não sabem dizê-los.

Ou essa música para mãos paradas
que trouxe consigo o Outono,
junto do velho portão verde
que tantos anos depois reabriu.

Chama-se Pandora, Cassandra,
Télefo, mas volta a assinar

Manuel António.



Beau séjour, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

ANA PAULA INÁCIO

[OS MILAGRES ACONTECEM]


Os milagres acontecem
a horas incertas
e nunca estou em casa
quando o carteiro passa.
Hoje, abriu a primeira flor
e eu disse é um sinal.
Olho em volta: estou só
trago esta sombra comigo.


Vago Pressentimento Azul por Cima, Ilhas, Porto, 2000.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

PEDRO JORDÃO

I'M A GHOST STORY


eu costumava morrer por acidente. entendam:
eu não sabia o que eram corpos desabotoados.
eu tinha sentimentos exactos e caía em poços
que não vinham nos meus mapas de algibeira.
agora caminho acompanhado por quem partiu
e abandono-me metodicamente a cada desastre.


Criatura, n.º 2, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2008.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

DIOGO VAZ PINTO

PELOS PIORES MOTIVOS


Uma última canção antes que deixe a lua
desistir de nós. Depois será tarde, mesmo
que insistas contra o tempo na repetição
do mesmo beijo, outro golpe fraco e triste,
sinal apenas de que nunca tivemos jeito
para mentir um ao outro. De um certo modo
(que não resultou melhor a nosso favor)
fomos sempre fiéis e até nos quisemos bem.

Esta noite, se eu prefiro assobiar, és tu
quem dança. Seguimos numa despedida
que não sendo a primeira nem a última
vem sendo a constante, e por ruas
que não se lembrarão de nós, retiramo-nos
desvirtuando a melodia, no conforto
estranho de estarmos juntos, mas dilacerados
pela presença de uma terceira sombra.


Criatura, n.º 2, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2008.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

DAVID TELES PEREIRA

CÉLINE

para a Julie

A vida tem destes acasos literários:
um comboio, dois livros e a pior
das razões para nos apaixonarmos.
Tenho vinte e dois anos e o equivalente
em retratos teus – periféricos ou não –
catalogados de acordo com as horas psicologicamente
intermináveis do teu sorriso.

O nosso amor é como o lado vazio duma ampulheta,
ou seja, inverso ao próprio tempo que não marca
o surgir inesperado daquelas noites em que tudo acontece
numa peça de teatro à qual nunca comparecemos.

As tuas mãos são um jardim demasiado inconstante
para fazer fila e esperar a morte. Tens seis letras no nome
e antes que amanheça saberei em que lugar do meu corpo
cada uma delas cabe.


Criatura, n.º 2, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2008.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

VÍTOR NOGUEIRA

SOBRESSALTO


Um escape livre corta a Rua Alexandre Herculano,
fende, talvez sem remedeio, a escrita de um soneto.
O Senhor Gouveia não suporta marialvas
com fumaças de Apolos e farfalhices de Mercúrios.

Hoje, que os tempos mudaram, os D. Juans
não usam fina lâmina de Toledo, nem vão
da dama preferida, a lança em riste, disputar
a soberania da beleza, em ginetes de fina raça.

Hoje, a espada é, quando muito, um telemóvel;
os corcéis, motocicletas barulhentas; e o chapéu
emplumado, um capacete (que às vezes, apeados,
mantêm na cabeça, como um quico de comédia).

Depois, claro, os romances de amor são menos vivos,
menos cintilantes de ardores apaixonados.



Senhor Gouveia, Averno, Lisboa, 2006.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

LUÍS QUINTAIS

A MÚSICA


Depressa
as gargantas
foram cortadas.

Agora, em ti, habitando-te:
música desse sangue
tão espesso,

tão mais espesso
que a água.


Mais Espesso que a Água, Cotovia, Lisboa, 2008.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

CARLOS BESSA

SOMBRAS


Em agosto, à sombra de uma esplanada
Da Batalha, no Porto, a beber cerveja
Água tónica, ruidosos e contentes, todos.
Ele com um livro de Gil de Biedma.
Folheia-o enquanto um aventureiro da guitarra
Dedilha a sobrevivência dessa vagabundagem
Que já foi literatura e cinema.
Lembra-se, então, de um homem que vendia poemas
Para comprar laranjas ou de um outro que
Os dava a troco de um sorriso.
As arestas da cidade ferem-lhe o pensamento.
Tem de tudo, angústia e humor
Arrumado nas estantes e sabe que
Quanto mais se vive com o tempo
Mais se morre com ele. É difícil
Permanecer em silêncio, continuar
No fingimento dessa felicidade.
As gargalhadas param. Talvez um poeta
Não saiba senão falar do que se esqueceu.
Pst pst, a conta, por favor.


Em Trânsito, & etc, Lisboa, 2003.