domingo, 30 de agosto de 2009

PEDRO MEXIA

OS DINHEIROS


Judas não se enforcou na figueira.
A figueira é uma árvore benigna.
Judas enforcou-se
nos trinta dinheiros.


Senhor Fantasma, Oceanos, Lisboa, 2007.

domingo, 23 de agosto de 2009

M. PARISSY

O TEU FUMO

o meu retrato do mizé

amar todo o amor impossível
foi o caminho do teu animal
envelhecido e estropiado

guardaste retratos de tempestade
levaste universos inteiros
no bolso mais pequeno da tua mochila
execraste promontórios

o farol do teu sonho
nunca te deu sinais de liberdade

respiram por ti as tintas
cores de fantasmas exibindo
esperma cornos e ruas estreitas
poetas que perseguem visões sulfurosas
o imaturo rosto do teu fumo


Cafurnas, edição do Autor, Nazaré, 2002.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

RENATA CORREIA BOTELHO

DEUS NOS LÍRIOS

para a minha mãe

sinto deus, todas as noites, nos lírios
de Monet. olham para mim,
por esta sombra incerta que morre
aos poucos comigo, cobrem
de seiva viva a escuridão da casa
e afastam os demónios
que se escondem nas frestas do sono.

pela manhã, junto as pétalas tenras
caídas no lençol, e rezo baixinho,
com os pardais, um verso branco.


Telhados de Vidro, n.º 12, Averno, Lisboa, 2009.

domingo, 16 de agosto de 2009

MIGUEL-MANSO

WIM MERTENS
Stratégie de la Rupture


o Pragal (e evitámos sempre
peregrinações que fossem para lá
da praia mais a sul da Caparica) era
uma manhã muito branca

vindos de Lisboa e da Noite
ainda os olhos ruminavam os reflexos do rio
que havia maquinado beleza e cegueira
dentro do comboio da ponte e de nós

a sala de desenho
– com a palavra Deleuze a giz no quadro negro
seguida de mais uma daquelas citações bastante
herméticas e, diga-se, cheia de erros ortográficos –
era tão branca como a manhã do Pragal

alguns de nós eram os menos talentosos
artistas do Reino

eu, por exemplo, que preferia mil vezes
o almoço na cantina, a comer o coração da mãe
para entender a linguagem dos pássaros
e apreciava a chegada do bom tempo
cultivando a preguiça nos jardins

a minha produção, é verdade, caminhava já
para um lugar etéreo, ténue, um desses lugares
que podemos encontrar apenas no Dicionário de
lugares imaginários (nem deve ter sequer entrada)
limitava-me a marcar em algumas folhas
uns insuspeitos carimbos
que comprara

em lugar das académicas vaias
havia para nós, Joana, músicas


Telhados de Vidro, n.º 12, Averno, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

ANTÓNIO BARAHONA

ALFARRABISTA


Hoje comprei um livro de Raul de Carvalho
por um euro, o que considero um escândalo!
Os poetas, regra geral, sempre foram pobres,
mas a sua poesia vale muito mais do que
o peso de mil resmas de rouxinol em oiro.
Isto, evidentemente, pouca gente sabe.
Se muita gente soubesse
os poetas seriam todos ricos.


Telhados de Vidro, n.º 12, Averno, Lisboa, 2009.

domingo, 9 de agosto de 2009

MANUEL FERNANDO GONÇALVES

FIM DO FIM


Fim de um ciclo.
Ainda ontem
passeavas na Cedofeita, ao pé
do futuro e da turbulência.
Hoje falas com se, ao telefone,
fosse outra vez a mesma voz
e a ausência se resolvesse
com o breve, nervoso gargalhar,
o disfarce da respiração suspensa,
o rubor de seres outra pessoa.
A memória é uma bela plasticina!


Fechamos a Alma, ao Fim da Tarde, com Estrondo e Animação, & etc, Lisboa, 2007.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

SAUDADES DO QUE NÃO FUI

Para Manuel de Freitas

Saudades da boémia que não sei:
O excesso de bebida. O charro.
(Eu sempre fui respeitador da lei,
Mas de barro.)

Saudades do balcão com a amizade
E o copo de cerveja.
(À noite, despe-se a cidade:
Único corpo nu que me deseja.)

Saudades do carinho
No ombro, na coxa, no cabelo.
(A mão da morte entorna o vinho
À sede de bebê-lo.)

Saudades desse alguém
Que não sei onde mora.
(E não sei de onde vem
Quando demora.)

Saudades do amor
Que nunca foi o meu.
(E de que sou acusador
E réu.)

Saudades a exigir ao velho
A vertigem da fuga.
(Mas não se pode destruir, no espelho,
A ruga.)

Restos de Quase Nada e Outras Poesias, Averno, Lisboa, 2006.

domingo, 2 de agosto de 2009

A. M. PIRES CABRAL

CÃO MORTO


Fomos contemporâneos
este cão e eu

e eu sobrevivi-lhe

e isto é tremendo.


A Perspectiva da Morte (de Trirreme), org. Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE

[HOJE QUE ME SINTO]


hoje que me sinto
perfeitamente morto,
seria o bom momento de romper
a membrana celeste, implacável de azul,
sair, independente, para o lugar de pensamentos
lúcidos, quase reais! mas

fico preso à gangrena, o precioso
lugar dos músculos na carne,
e a memória do prazer mistura-se ao redondo
fio do horizonte;
não estou, afinal, senão vazio de todos os corpos,
apenas alheado das maquinações e dos

encontros. Deixo ficar a paisagem como está,
quando não olho é que as árvores se iluminam por dentro.


A Perspectiva da Morte (de As Moradas 1 a 3), org. Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

domingo, 26 de julho de 2009

ARMANDO SILVA CARVALHO

O FRIO


Tocar com a língua
na cúpula do ar.

Acomodar os víveres
movimentar o vento.

Fazer deste poema
um frigorífico.

Nas prateleiras ácidas
o silêncio (duplo) dos peixes;
o choro terno e tenro
da hortaliça.

Tocar com as palavras
na cápsula do mar.

Incomodar os vivos.
Mexer na carne com dedos
subversivos.

Impor aos homens
esta abundância fria
colhida nos catálogos.

A elegância
dos ovos
em repouso.

Um mulher serena sonha
com o frio; corre-lhe
pelo corpo o leite desnatado
e fica nos anúncios
pensativa.

No íntimo do corpo
há fendas numeradas
onde o fresco se atreve
a conservar os nervos.

Está na hora
de refrescar a boca.

Donas de casa
e pensadores diários
eis aqui uma demonstração
gratuita do frio.


A Perspectiva da Morte [de O Comércio dos Nervos], org. Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

NUNO JÚDICE

A VARANDA DE JULIETA


Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas Julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.


Pedro, Lembrando Inês, Dom Quixote, Lisboa, 2001.

domingo, 19 de julho de 2009

CARLOS BESSA

[COM UMA DISCUSSÃO ENSAIAR A MORTE]


Com uma discussão ensaiar a morte
Ou requerer a pose, um reinado. Sim
Agarras-te aos encontros, à amizade
Sobretudo a essa civilização do bom dia
Boa tarde. Mil modos de laçar a gravata
Cortar as unhas ou cruzar os braços
Para que do desejo não transpareça
Senão uma pequena falta, facilmente desculpável.
Mas a sociologia, como a psicologia, meu caro
Há muito te trazem no catálogo.


Lançam-se os Músculos em Brutal Oficina, & etc, Lisboa, 2000.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

AMADEU BAPTISTA

[UMA DOENÇA ESMAGADORA, COMO A QUEDA]


uma doença esmagadora, como a queda
de um raio. no reflexo infinito
da infância recebes a notícia
de que alguém que conheceste

acaba de morrer. sentes, no início,
uma tontura imensa, a sala a andar
à roda, o corpo a implodir,
sob as meninges

um som a ecoar. depois, pouco depois,
vais-te acalmando, e pensas que, afinal,
o mal não é a morte, mas sentir

a pura perda em tudo,
a lenta sedição do esquecimento.
uma doença sempre inevitável.


Negrume, & etc, Lisboa, 2006.

domingo, 12 de julho de 2009

GIL DE CARVALHO

À SAÍDA DO DELTA


O antebraço dela
Vai na curva menor
Fechar-se no dele.
À saída do delta.

Agarra-lhe o pulso.
Mal se tocam, na rua
Separados talvez por
Uma geração ou duas.


De Quatro e Cinco, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

MANUEL DE FREITAS

REBECA


Já não vai buscar a bola,
defendê-la entre o cetim dos dentes
ou fugir como quem procura,
enquanto me obrigava
à altura baixa que deixou de ter,
na alcatifa de que foi princesa
e eu agradecido súbdito.

Já não – sempre já não –
os dias que quase vivemos,
prometidos à extinção, avessos
à rima inútil de um sorriso.
Tenho os dedos secos, sossegado
o colo onde depunha sem favor a cauda.
Yorkshire Terrier, seis anos, morta.

Nunca a incomodou que
eu cheirasse – e muito – a gato.
Seguia a bola, indiferente
ao pavor de haver mundo, corpos
inertes, cadáveres que gostaram dela.

E de quem gostou, pois um animal
não mente: existe como não sabemos,
na mais curta distância, numa rendida
proximidade que subitamente termina.

Foste poupada ao cálculo, à usura
– mas nem por isso à dor,
pequena distracção de Deus.
A bola chegou ao fim do corredor
e ninguém ma trouxe, desta vez.
Vencer essa dor é encontrar mais dor,
chamar por um nome que não existe.

A não ser que conheças Lázaro (mas
Lázaro, receio, é nome que não se dá a uma cão)
e que ele tenha uma bola só para ti
e que o teu pêlo de cobre e prata
volte a ser uma certeza,

vou ter, Rebeca, muitas saudades tuas.


Theacher was here, org. e edição de Inês Dias, Lisboa, 2009.

domingo, 5 de julho de 2009

RUI MIGUEL RIBEIRO

ROMA


Roma, outra vez, um regresso.
Com o fim do Verão, a casa cobre-se
de um tom mais escuro,
provoca maiores movimentos,
sem nunca permitir um silêncio.

Os livros e os papéis estão revoltos
pelo quarto como despojos de um
tesouro assaltado. Os dedos trazem
ainda restos secos de palavras.
Apenas a tua presença era uma defesa,
um último refúgio para o corpo.

Ao fim do dia, no regresso de mais uma tarde
preenchida de livrarias, dizias-me que parecia
um livro fechado.

E não sei o que te responder.


Europa e Mais 3 Poemas, Letra Livre, Lisboa, 2007.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

RUI LAGE

LARGO DA MATERNIDADE


Não te esqueças
do que é preciso comprar na mercearia:
leite e pão para dar ao dente,
jornais e revistas para folhear,
tabaco no quiosque do Zé Silva
(morreu de cancro, é claro,
se não é uma puta, a vida,
não sei o que será
por mais que me apeteça vivê-la).

Se demorar, é porque assisto embevecido
à migração dos autocarros
ou às obras na rodovia
(também tu sabes ser às vezes
um martelo pneumático),
ou porque algo me trouxe a esta mesa
ao pé da porta do W. C.,
de onde não sairei antes de a noite
pousar no cinzeiro
e rua abaixo, escadas acima,
me empurrar até à porta do lar.

Estarás porventura à minha espera.
Eu, decerto fora de mim,
entrarei no quarto,
alheio às nódoas na camisa
que hás-de lavar no tanque amanhã,
nódoa negra no braço
e pala no olho
a tapar o inchaço.


Revólver, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2006.

domingo, 28 de junho de 2009

RUI PIRES CABRAL

«É BOM VIVER NA TERRA?»


No parque, sobre a relva,
onde é tudo tão difuso,
eu não tenho relação
com a minha vida. Indistinto
entre as dezenas de pontos

que um mestre desconhecido
distribui por acidente
na tela crua da sorte,
não tenho nome ou idade,
nem sequer um coração

para sofrer outra ofensa:
nunca desci ao inferno
de um amor desenganado,
nada perdi que me fosse
precioso ou necessário

e de resto não conheço
os quatro cantos do medo,
nem tão-pouco me pertence
este modo de estar só
que inventei sem querer.

De seguro, por agora,
só tenho o corpo que ofereço
ao calor da primavera –
e nem me custa ser eu, se sou
também qualquer homem

de qualquer tempo e lugar
que alguma vez se deitou
sem cuidados ou remorso
entre as árvores enfeitadas
pela breve luz da tarde.


Oráculos de cabeceira, Averno, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

A. M. PIRES CABRAL

AS PROSTITUTAS


Naquele tempo,
elas desciam à vila, as prostitutas –
a única saída,
exactíssima resposta para a nossa
angústia seminal acumulada.
Vinham de Vale da Porca, ou outra
terra assim pasmada.
Traziam na cabeça lenços garridos,
na carteira de mão a triste história:
a sedução primária, a miséria espessa,
mas jamais o vício mercenário.
Nas eiras recebiam nossas águas,
de permeio plantados como reis.
Procuravam lisonjeiras acertar
seu êxtase fingido com o nosso.
Beijavam-nos, diziam: tão novinho!
Suportavam-nos insultos e arremessos.
Com mão experiente (mas não habituada)
guiavam-nos na bela, impreterível,
urgente aprendizagem,
concediam-nos crédito e carinho –
as tãos castas mulheres,
as prostitutas.


Antes que o Rio Seque (de Algures a Nordeste), Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.

domingo, 21 de junho de 2009

MIGUEL-MANSO

CONTINUAÇÃO DE JEAN NICOT


sou dentro de mim o que quer fugir
embora vá recusando a cada bafo
o panorama dos astronautas

tiro notas
dos calendários gigantes
das marés do sol e da lua
do rasto agrícola das nossas mãos
sobre a mesa

de madrugada
remo como exilado inca
em direcção à luz

se ainda me for fácil mentir direi
é afinal a única substância do poema
este cigarro entre estrofes


Contra a manhã burra (2.ª edição, revista), Mariposa Azual, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

CARLOS ALBERTO MACHADO

[NÃO DISSE AS PALAVRAS CERTAS]


Não disse as palavras certas
faltou-me o tom e o talento
não tires da minha boca
as palavras que não ouviste
a responsabilidade é tua já te disse
organiza como quiseres as palavras
e os silêncios
o ritmo certo da morte escolhe-o tu
a minha boca continua fechada.


A Realidade Inclinada, Averno, Lisboa, 2003.

domingo, 14 de junho de 2009

MIGUEL MARTINS

[QUEM ACHA QUE A VIDA É PARA LEVAR A SÉRIO]


Quem acha que a vida é para levar a sério
deve andar convencido de que a morte é a
brincar.


Penúltimos cartuchos, Tea For One, Lisboa, 2008.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

PEDRO BRAGA FALCÃO

[A SINCERIDADE DESSA GATA]


A sinceridade dessa gata,
de um tigrado quase infinito,
delicada como alegre jogo
de crianças adormecidas,
lembra-me, à tarde,
quando ouço pianistas,
uma única varanda
e uma única janela.
Como solstícios de inferno
o repuxo abre-se em luz.
Tomara o canto fosse nosso
sem searas e sem ciprestes.


Do Príncípio, Cotovia, Lisboa, 2009.

domingo, 7 de junho de 2009

VITOR SILVA TAVARES

[EU QUERIA SER DO PEN]


[...]

Eu queria ser do pen,
eu queria ser do grémio.
Enfim, ser daqueles men
tecaptos do prémio.

Eu queria ser, já viram,
poeta sublime.
Então, jarryram?
Eu rime.

[...]

Êxtases e delírios
volteando em blue
quem os tem tire-os
e meta-os no cu.


Poesia em Verso (com Rui Caeiro e Afonso Cautela), Livraria Letra Livre (depositária), Lisboa, 2007.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

COM A MINHA MÃO


Com a minha mão que ainda escrevia, toquei a
sua face
e estremeci.

Quebraram-se os cálices, os espelhos, as lâmpadas
que iluminavam a minha idade,
a minha vida.

Alguém gritou, de repente,
e a sua voz profunda golpeou para sempre o
adormecimento das casas.

O cisne disse a última palavra no lago à
deriva,
e o tigre preparou o salto quando nos seus
olhos se acenderam dois archotes.

Os cordeiros do quinto mês
procuraram, em pânico, os redis do anoitecer.

Com a minha mão que ainda ardia, toquei
a sua lã,
que mais tarde teria a cor do sangue,
a cor do medo na sua alma.

Caminhei pelos campos vermelhos,
pouco depois do extermínio.
Parei, perplexo, sem dizer nada,
sem ser capaz de olhar outra vez o coração das
trevas.

Estás perdido, ouvi ao longe,
à saída da floresta,
estás perdido nos labirintos que te perseguem
durante o sono.

Com a minha mão que ainda arde, escrevo,
esqueço,
sou aquele que parte.


Esta Voz É Quase o Vento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

domingo, 31 de maio de 2009

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

CASA DE CHÁ EM VILA REAL


Numa manhã de junho sentado à mesa de uma
casa de chá em Vila Real tive um sonho que
me espantou e as imaginações na minha cama,
em S. Gonçalo, no Marão,
e as visões na minha cabeça me turvaram.

Por mim se fez este balcão pelo
qual foram introduzidos à minha presença os
frades domínicos da Sé, ali defronte.
Vinham dar-me a interpretação das cornijas
acachorradas da sua casa.

Entraram os frades segundo o nome do nosso
deus. Eu contei-lhes o sonho.

Crescia uma árvore que quase chegava ao céu.
Vinha da margem do Corgo, passava a
cidade, chegava bem alto.
Ao lado falavam d'antigos namorados entre o
coração e o terror

o pressentimento do futuro. Falavam
já dos melhores trechos do bispo Osório,
admirável em latim.
Ao lado crescia aquela árvore
cuja altura era grande dentro e fora da

minha cabeça.
Viam as aves do céu fazerem morada
nos ramos, os frades acharam sombra
sob as traves de madeira da sua igreja e
cantavam derrubai a árvore cortai-lhe os

ramos sacudi as folhas.
A única coisa a fazer era beber o chá e
esperar pela esquina da avenida.


A pequena pátria [de Tronos e dominações], Editorial Presença, Lisboa, 2002.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

MANUEL DE FREITAS

RUÍNAS DE ANSIÃES E CARRAZEDA


Quanto tempo pode durar uma cidade,
a vida de uma cidade, inteira?
É de perguntas assim – inúteis como
todas – que se constroem por vezes
as capitais da nossa solidão, os passos
que fugazmente nos conduzem
à alegria e ao desespero, à voz possível.

Não é difícil precisar a rude e fortificada
duração de Ansiães, a velha: do século
XI a 1734, por ignorados motivos.
Menos exactos são os túmulos pré-cristãos
que se abriam na dureza do solo transmontano,
com lugar vazio para três pessoas. Éramos
mais, nessa tarde que foi do largo de Grijó
à imensa desolação de Carrazeda, terminando
apenas (e tão bem) em Parada de Cunhos.

Mas são esses – os de Carrazeda, a nova –
os túmulos vivos que nos restam:
cafés apinhados, lojas que se esqueceram de fechar,
a vasta e inacreditável quinquilharia que
faz da Papelaria Horizonte um exemplo de sucesso.
Penhores, dispersos, de algo que nunca existiu.

Um país, garantem-nos. Mas Ansiães, a velha,
nasceu antes da nacionalidade, embora
a tenha acompanhado o melhor que pôde.
Parecem demasiado perfeitas, estas ruínas,
demasiado diferentes daquela que será um dia
a nossa. Entretanto, abelhas, gafanhotos
e lagartos confundem-se com a teimosia das pedras
que a todos, e a nós também, sobreviverão.

É o seu modo calmo de profanar as duas igrejas
românicas – o que delas sobra – e os bruxedos
encenados por quem da vida ou da morte espera ainda
alguma coisa. Pelos afortunados, em suma.
Quanto a mim, gostaria apenas de saber se
existe mesmo a borboleta em forma de forquilha
que te pousou no ombro (as fotografias, escusado
dizer, não serão prova bastante). A única certeza,
para já, é a de que não caberíamos em nenhum
dos túmulos (a observação foi do Rui, e pertinente).

As cidades, já se sabe, também morrem. Mas poucas vezes
terá sido tão belo o desencanto de o saber. «Bem-vindo
a Benlhevai» – parece querer dizer o vento
a estes frágeis viandantes, desprovidos de aguilhada.


Intermezzi, op. 25, Opera Omnia, Guimarães, 2009.

domingo, 24 de maio de 2009

HELDER MOURA PEREIRA

[PALAVRAS QUASE INAUDÍVEIS POR BAIXO]


Palavras quase inaudíveis por baixo
de um ritmo, pareciam palavras
quando encostaste o ouvido
ao pequeno pássaro. O pequeno pássaro
tem um coração que continua a bater
dentro do seu corpo depenado, quase
não nasceu e já está a morrer.

Está um homem de idade indefinida,
vestido de cor indefinida, nem alto nem baixo,
nem gordo nem magro, iluminado pelo verde
da cruz da farmácia, vê-me a pegar no pássaro
e quando eu me aproximo ainda se indefine
mais, tem medo, desata a fugir e eu grito-lhe,
homem indefinido, venha cá, não vê que é
apenas um pássaro que está a morrer?

Depois foste a apanhar o comboio que pára
em Todas, tivesse sido outro o comboio
que apanhaste e tudo seria diferente.
A vida toda seria diferente. Seria
melhor, seria pior, seria diferente.

Olha-se para aquele corpo e não parece
que esteja preso por arames. O corpo
fará análises e exames. Valores normais, nada
de especial, não há razão para alarme. Mas, se
se olhar bem, ver-se-ão os arames
que o prendem. A quê? Prendem-no
ao amor, porra, ao amor, é preciso gritar?

Nem no sonho nem na vida se sabe
o fim, acordo-te antes que a dúvida
te faça retirar a mão de onde repousavas.
Ainda me atormentais, banais segredos
do reino animal, atormentar-me-eis sempre,
pelos vistos sempre, sempre, sempre.


Segredos do Reino Animal, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

JAIME ROCHA

POEMA QUATRO


Exausto, pela manhã, o homem contempla a
sombra das mulheres que desaparecem junto ao
mar, misturando-se com os crustáceos. A sua
dor está dentro dos búzios, numa fala que lhe
paralisa os músculos. Os olhos apenas sentem as
imagens da música e as suas lágrimas solidificam
como se pertencessem a um grupo de fósseis.
Não há tempestades que devolvam o ânimo aos
pássaros que se encostam às paredes dessa ilha.
Apenas os frutos seguem o seu ciclo, amadurecem
com o sol e preparam-se para as colheitas de Verão.


Magma, n.º 0, Lajes do Pico, 2005.

domingo, 17 de maio de 2009

ADÍLIA LOPES

AS PORTAS


I

Se não fecho
algumas portas
há correntes de ar
a mais

Se fecho
todas as portas
não posso sair
mais

Se não abro
algumas portas
não fecho
algumas portas

Se abro
todas as portas
desintegro-me


II

Atrás da porta
para sempre fechada
está o nada

Houve um momento
em que deixei de gostar
da minha mãe

Houve um momento
em que deixei de gostar
do meu pai

Houve um momento
em que deixei de gostar
de mim

Houve um momento
em que deixei de gostar
de ti

Houve um momento
em que parti

Houve um momento
em que voltei

Houve um momento
em que voltei a gostar
de todos

E todos estão
aqui

Mortos
e ausentes


Le vitrail la nuit. A árvore cortada, & etc, Lisboa, 2006.