domingo, 25 de abril de 2010

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[QUE É FEITO DOS NOSSOS CONTEMPORÂNEOS? PARTIRAM]


Que é feito dos nossos contemporâneos? Partiram
alguns, para o deserto, à procura
de emprego, à procura de dinheiro; outros
receberam no peito, braços abertos,
um deserto que lhes nutre a sujeição,
o cadáver adiado. A muito poucos
bastou um vinho, a música, o jogo dos enlaces,
a notabilíssima fala dos corpos! E a Arte
estes colocou na estrada larga do instinto,
o verbo agir-livre, donde claramente
se vê o subúrbio mental do homem nado-morto,
da mulher inerte.


A Escrita, & etc, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

LUÍS FILIPE PARRADO

NA ASSEICEIRA, LENDO SOBRE A VIDA E A OBRA DE PAUL GAUGUIN


A luz de fim de Agosto declina sobre
o terraço desta casa na província
onde leio que

o pintor Paul Gauguin
se esquivou às obrigações familiares
abandonando mulher e filhos

para poder viajar pelos Mares do Sul
e «perseguir a sua arte».
Por ter lido agora estas palavras

ergo os olhos da página 57
e vejo à minha frente
o bando de corvos poisado

nos grossos cabos eléctricos,
a planura do céu, o campo de milho
mais extenso das redondezas

onde se escondem os meus filhos
um do outro, e os dois de mim.
Para Gauguin, regressando à leitura,

o apelo da criação,
o amor profundo pela pintura
falaram mais alto do que a prosa

da existência pequeno-burguesa
da segunda metade de Oitocentos
motivo que o conduziu à rejeição

«dos deveres convencionais
para com a família»,
definitivamente deixada para trás.

Mas, mesmo sublinhando frases claras,
não se torna evidente para mim
se o pintor fez o «que sentiu

que tinha que fazer para atingir
o seu mais alto grau de excelência pessoal»
e, deste modo, legar aos homens

«o fruto da sua arte»
(como argumentam Shai Biderman
& Eliana Jacobowitz)

ou se, mais exasperadamente
do que possa parecer,
a pintura foi a tábua de salvação,

o último recurso para a fuga
ao pântano (outros dirão ao inferno)
da vida conjugal, em Copenhaga,

com Mette Sophie Gad e as 5 crianças.
Quanto a mim,
gostaria de desfazer a dúvida

e prosseguir a leitura,
no entanto, na província,
o sol de fim de Agosto dissolve-se

por detrás do telhado da casa
e a noite vai estendendo uma frescura ventosa
que torna praticamente impossível

o acto de ler.
Quase às escuras
restam-me, pois, os gritos dos filhos,

algures,
e a voz da minha mulher a dizer
que é preciso pôr a mesa para o jantar.

Por isso,
porque não estamos no Taiti
nem no século XIX

nem eu sou o famoso pintor primitivo
moderno Paul Gauguin,
marco a página, fecho o livro

e levanto-me
para tratar dos pratos e talheres.
O poema, desculpem, tem que ficar por aqui.


Resumo: A Poesia em 2009 [de Criatura, n.º3], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 18 de abril de 2010

RUI PIRES CABRAL

«NÃO TENHAS CONFIANÇA NA TUA JUVENTUDE.»

para o Manuel de Freitas

Noites de tabaco com resina
de Marrocos, pequenos quartos

onde a música era enorme.
As ruas pulsavam, eram coisas

mortais, o pensamento um carrossel
de monstros vivos. E nós os únicos,

os mais sós, os mais relapsos
no caminho que descia do devaneio

à angústia. Esquecidos das horas
num qualquer degrau perdido,

o futuro era aterrador: it will end
in tears. E tudo o que sabíamos

estava errado, menos isso.


Resumo: A poesia em 2009 [de Oráculos de cabeceira], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

ADELINO ÍNSUA

[A AVE CATIVA NAS MÃOS DO VENTO]


A ave cativa nas mãos do vento
aquieta-se para poder voar.
São asas luminosas as quietações
e não agindo sobem.

Neste mundo redondo é o caminho do raio
a sentença consciente da sua fulminante respiração.
E não é livre o caminho do raio.


Livro das Esmolas, Opera Omnia, Guimarães, 2008.

domingo, 11 de abril de 2010

MARTA CHAVES

[EXERÇO MUITAS VEZES O OFÍCIO DE ESTRANGEIRA]


Exerço muitas vezes o ofício de estrangeira,
com pouca fé de que na impossibilidade da língua
se entenda a natureza dos meus gestos.


Onde não estou, tu não existes, 2.ª edição, Tea For One, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

JAIME ROCHA

[HÁ NO CÉU UM CHORO QUE SOBE COM AS PLANTAÇÕES]


Há no céu um choro que sobe com as plantações.
E um odor vazio parecido com o barro.
O homem queima o peito quando atravessa
uma placa de zinco. A sua sombra aparece
depois no meio de um olival. Os dias são como
os abutres, calados, virados para sul. Tudo fica
envolto numa crença assim que o pássaro consegue
saltar pelo espelho sem que as suas vísceras se
esmaguem. Só o silêncio acorda o homem
e o desperta para o mal.


Do Extermínio, Relógio d'Água, Lisboa, 2003.

domingo, 4 de abril de 2010

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

TRIESTE


Nesse verão nenhum de nós buscava terra firme
parecia-nos caminhar há séculos sobre as águas
Donde viemos nós? Como chegámos a esta luz
austríaca sobre as colinas
ao fumo lento no anfiteatro do golfo
à ordem aleatória do tempo?

Talvez nos caiba viver por cidades estranhas
em casas que esconderão sempre o seu medo
e a sua glória
sós diante dos céus
sem a certeza culminante

Vemos a tarde perder-se na direcção do molhe
o mundo é aquilo que nos separa do mundo


Resumo: A Poesia em 2009 [de O Viajante sem Sono], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 31 de março de 2010

JOÃO ALMEIDA

EM TEMPO DE MISÉRIA


desço por um jardim transparente
entre lodo e hortelã

andam assistentes sociais pelo bosque
à procura de pobres
agitam contas e berlindes

acaba aqui a rédea solta, há que escolher as armas

troco à sombra do derradeiro cipreste
dois versos e um dedo
por uma noite de sono e um detonador

Resumo: A poesia em 2009 [de Glória e eternidade], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 28 de março de 2010

DAVID TELES PEREIRA

RECICLAGEM PARA C.


O deus do Eugénio
é muito mais verde
quando lido pelos teus olhos.


Resumo: A Poesia em 2009 [de Criatura, n.º 4], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 24 de março de 2010

ADÍLIA LOPES

A DOMADORA DE CROCODILOS


Todos os dias
meto a cabeça
na boca
do crocodilo

O meu feito é feito
de paciência

Já meti
a cabeça
no forno
estava farta
dos crocodilos
e dos amantes

Não tenho tido amantes
tenho tido crocodilos

Com os crocodilos
ganho o pão
e as rosas

Morrer é um truque
como tudo o mais

Dobrada
entre os crocodilos
dobrados
arrisco a pele

A pele é a alma


Resumo: A poesia em 2009 [de Dobra], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 21 de março de 2010

MIGUEL-MANSO

NO NÚMERO DE OUTUBRO DA REVISTA WIRE


frente ao fotógrafo e ao leitor
o homem envelhecido parece que já não olha
Mitra o deus sol dos psicadélicos

noutra foto
no interior da revista o poeta está sentado
a uma pequena mesa de frente para a janela
onde as cortinas brancas filtram
a luz e o ruído da rua

sentado na cadeira de rodas
ele espera dentro da claridade
delicada da manhã

e depois durante a noite

assiste ao que resta do mundo
junto à máquina (a soft machine) de escrever
pousada no tampo (eu ia escrever
no tempo) da mesa

não sei se caem pétalas dentro
do olhar de Robert Wyatt não sei o que escreve
agora na tábua das constelações

essa realidade desabitada dos versos
e dos jardins


Divina música: antologia de poesia sobre música [de Contra a manhã burra], org. Amadeu Baptista, Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009.

quarta-feira, 17 de março de 2010

JOSÉ MIGUEL SILVA

SONHOS POP


Baixo, guitarra, furor, bateria: o habitual
da insurreição juvenil, retiro de ofendidos
ou coisa que o valha, por todo um meio Inverno
de rotos acordes. Dizer que foi um sonho
é já efabular, se até os instrumentos eram
emprestados, os gritos de empestado, a pose,
o cuspo dos pês no microfone suburbano.
Não, não era isso. Não era sequer a música:

apenas a suspeita de nenhum futuro, como
berravam os piores cantores; o desconsolo
do real, tão alheio à fantasia do possível.
Quando tudo nos chamava pelo nome e
ninguém desconhecia que devíamos à morte
uma conta calada, um balúrdio de espuma.
E assim a juventude, em nosso peito,
retumbava uma batida detestável.

Foram cinco, seis semanas de frustradas
tentativas, todas muito de partir o comboiinho
do sentido. Pelo tropel de decibéis desnorteados
percebemos que corríamos a monte, sem
feitio nem agrado. Não era por ali. Paciência,
concluímos, cada um para seu lado: o das vozes
para os livros, o baixista para as mágoas,
o guitar para a mentira, o baterista para a morte.


Divina música: antologia de poesia sobre música (de Walkmen), org. Amadeu Baptista, Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009.

domingo, 14 de março de 2010

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES

[INVERNO EM VILA REAL. O NEVÃO]


Inverno em Vila Real. O nevão
cobria a rua do liceu.
Uma luva de cabedal amodorrado
no tampo, o vapor do alento
liga-nos à toada indiferente.
O meu tumulto ensombra-te.

Um pombo protegido no beiral,
a cabeça na plumagem de procela.
Tu calado, eu afeito ao silêncio, delineava-se
no compêndio e numa bolsa a letra
do nosso nome, de maneira a desenhar
uma única sílaba fora de alfabeto algum.
Que bem tão mal ali se convinha, se
faltava à aula, na sediciosa ocasião
de um inaugural amor.

O foro furtivo já desagregava.
Nem eu te quereria
na luta em sobressalto do meu rumo.
Porém, sempre que falarem da neve
e o que for teu vier pela avenida
em direcção à confeitaria
algo do desaparecimento, quem sabe, te lembrará.


Um Toldo Vermelho, Relógio d'Água, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 10 de março de 2010

VITOR SILVA TAVARES

NA MORTE DE EDUARDO GUERRA CARNEIRO


[...]
Suicídios como o do Eduardo Guerra Carneiro NÃO DEVEM ficar limitados às razões e desrazões de caso pessoal: outro que suicida voador e tal o João Rodrigues (desenhador-poeta surrealista que se atirou "da janela à rua") o Eduardo é – Van Gogh o foi para Antonin Artaud – um "suicidado da sociedade".


Telhados de Vidro, n.º 2, Averno, Lisboa, 2004.

domingo, 7 de março de 2010

MANUEL DE FREITAS

ZULMIRA, AO AMANHECER


No urinol público lia-se UTILIZAÇÃO GRATUITA.
Fiquei quase feliz (quantas coisas gratuitas
há neste mundozinho de horror?).
Mas o que desta manhã eu mais agradeço, Zulmira,
é a tua sopa, essa que tantas vezes
me salvou a vida, entre centenas de super bocks.

Não me inquietam os chulos, os assassinos
ou estes mendigos calados. Ilustríssima gente,
de uma má-raça inegável. Prefiro perder
com eles os meus dias, e falar da fome, dos joanetes
ou do preço do azeite. Não tenho tempo
para aprofundar desrazões, nem para conviver com puetas.

Sei apenas que as poucas pessoas que amei
estavam por detrás de um balcão
onde o álcool ardia, muito devagar.
Os meus pobres anjos.
Também por isso gostava de te obrigar a esta taberna,
exílio cantante de todas as minhas antigas manhãs.

Por esta mãe desolada, pelo rumor sombrio
do vinho que nunca azedou nos meus lábios,
por certas inábeis palavras que sobre os barris
faleceram e te pertenciam somente.

Mas «até logo, Zulmira», bem sabes que do amor
ou do futebol nada poderei jamais dizer
ou sentir. Entre os teus braços largos deponho
em silêncio aquela negra noite do meu mal.
Por uma sopa encorpada, sobre destroços
imperecíveis, bocados de morte partidos.


Os infernos artificiais, Frenesi, Lisboa, 2001.

quarta-feira, 3 de março de 2010

PAULO TEIXEIRA

AMPULHETA


E o tempo conheceu a sua estatuária.

O trilho visível e medido no ar
em que os segundos se derramam
– sem símbolo de pausa nem desvio de curso –
de um céu suportado por colunas.

As horas afluem inatas, articuladas,
sem instante inaugural nem fim à vista,
como se lenta florisse a flor da farinha
sem cheiro a meio desta globulária de vidro.

O tempo casou-se com o mundo nesta imagem.


Orbe, Editorial Caminho, Lisboa, 2005.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A. M. PIRES CABRAL

NO CASTELO DE ANSIÃES


Demais sei eu que o que passou passou,
a história não é uma serpente
que se refaz em cada primavera,
mas quando muito morde a própria cauda;

que os que aqui moraram já nem ossos são,
soprou sobre eles o tempo
e extinguiu o pouco fogo que eram;

que cessou todo o ruído, de festa ou de querela,
dissolvido no ácido dos dias;

que os lugares onde acaso podia ter ficado
impressa alguma pegada acidental,
algum risco na pedra com vocação de história,
estão ocultos por silvas e aveia brava.

Demais eu sei que os horizontes
que vamos recolhendo do alto das muralhas
com as afectuosas pinças da alma
– contrariamente aos que moraram e morreram –
permanecem os mesmos:
perpétuo desafio ao vento e ao olhar.

Então, se tudo isso sei:
carne friável, minerais perenes;

e se com tudo isso me conformo, como homem
sobre quem também soprará
o tempo e está disposto a perdoar;

porquê esta água insubmissa
que devagar me molha o reverso dos olhos?


Novas Memórias de Ansiães (com Manuel de Freitas, Rui Pires Cabral e Vítor Nogueira), Averno, Lisboa, 2007.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

MANUEL GUSMÃO

VARIAÇÕES DO BRANCO


Ergues o olhar: surpreendes por instantes essa hora
em que o mundo envelhece: ténues as variações do branco
parecem dissolvê-lo numa longínqua música, anterior à chuva

Ou será então a imagem submersa de um filme a preto e branco

Há próximo um branco vibrante: o da cal ainda recente
mas que a humidade salina já a espaços mordeu,
recortando as feridas cinza na varanda a que vens.

Não há ninguém aqui. Quem te chame, digo.

Há o branco baço na parede que em frente em vão separa
rua e praia. Tendo já transposto essa fronteira incerta
ou erguendo-se para lá dela há o branco pobre da areia:

As dunas plenárias sustentam os corpos deitados de mar e céu.

Aí é agora o grande branco: o clarão velado e difuso
que guarda e distribui a memória embaciada do azul
e do verso, do oiro e da prata – uma lembrança vã.

Tu escreves no visível do mundo essa névoa branca e desolada

que o motor da paisagem produz. As folhas do ar são como
se fossem as levíssimas pétalas, as vagas sílabas de uma neve –
e essa névoa engolfa, atrasa e apaga na travessia os simulacros

das coisas supostas e imaginadas que o mundo te envia
enquanto esperas por alguém que não virá


Migrações do Fogo, Caminho, Lisboa, 2004.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

EDGAR CARNEIRO

ENLEIOS


Que direi de enleios,
galanteios ternos
prematuro voo
da miragem tonta?

Onde estão represos
os murmúrios de água
deslizando lenta
no dossel dos montes?

Já não sinto as aves
nem sequer as penas
adejando soltas.

Quanto às águas sei
ir morrer de sede
mesmo vendo as fontes.


Périplo, Edições Húmus, Vila Nova de Famalicão, 2009.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

SE


Se tiver medo, não posso
atravessar esse bosque,

todas as copas das árvores
hão-de ladrar aos meus pés.

Até a lua por certo
com veneno cor do leite

à socapa vem morder-me
na ponta do calcanhar.

Se tiver medo, não posso
atravessar esse bosque,

as ervas hão-de ceifar-me
antes mesmo de morrer.


Obsessão, & etc, Lisboa, 2010.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

JAIME ROCHA

POEMA UM DO SEGUNDO CICLO DA MÚSICA


A música regressa como um fio de sangue
arrastado pelo mar. Uma mulher aguarda
essa água que transforma as plantas e os
ombros num jardim. Tudo se passa depois
do silêncio, depois da fuga das aves para
o fundo de uma ilha. É ela que descobre os
ninhos e as cavernas onde habitam os peixes.
E nessa viagem os seus vestidos cobrem-se
do musgo e dos sons gravados nos rochedos.
Um homem contempla as árvores que defendem
as casas do ataque das ondas. O seu corpo é o
eco das marés, da lua que se esconde por detrás
de um grande morcego.


Divina Música: Antologia de Poesia sobre Música, org. Amadeu Baptista, Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

ARTUR ALEIXO

NIRVANA


Bleach, Nevermind, In Utero,
Incesticide. Os Nirvana haviam sido
um estado de alma. Uma imprudência
feliz da juventude, cantada como desejo
e assim mantida na memória.

Ouvimo-los de novo no trajecto
flutuante: Cacilhas – Cais do Sodré.

Acabaríamos o curso no ano seguinte
e como calculávamos: juntos
e infelizes para sempre. A certeza,
entre outras inauditas, separou-nos.

Num espaço menos devastador – afinal,
sem ti – recuperei outras músicas,
alguma compreensão do mundo.


Divina Música: Antologia de Poesia sobre Música (de My Heart Could Only Walk), org. Amadeu Baptista, Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

ANTÓNIO GREGÓRIO

SUÍTE NÚMERO SEIS


É um grande incómodo não saber tocar
violoncelo que o pranto seria doutra
condição: ela gravíssima procurando
pela sala quieta de vez em vez sobre
o parapeito procurando procurando
na lida da luz entre as ramagens a nossa
sentença enquanto eu antecipado – a dor
em arco – ressumava contra as cordas o
adeus.

E a tristeza imensa ser-me-ia então como
tijolo de subir paredes ao invés
desta mais triste ainda – se nunca lhe achei
o préstimo – que por dentro vai corrompendo
corrompendo; podia dá-la já pensei
nisso: que talvez ma aceitasse o senhor
Rostropovitch.


Divina Música: Antologia de Poesia sobre Música (de American Scientist), org. Amadeu Baptista, Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

VASCO GATO

[NÃO DEVEMOS SER FORTES]


Não devemos ser fortes quando está em causa a transfiguração. Há uma espécie de força que é uma espécie de fraqueza, e uma espécie de fraqueza que é uma espécie de força. Como distinguir? Se no pescoço se notar o vinco da corda é porque não estamos a viver.


Omertà, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2007.

domingo, 31 de janeiro de 2010

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

LUCIDEZ


Em cada instante, a poesia
Morre em mim.
E a mão certeira que a escrevia
Escreve assim:

Qualquer poesia alheia
Não pode ser comparada
Com esta minha, tão cheia
De nada.

Quem a lê logo conhece
Que é
Aquela que não merece
Nem nota de rodapé.

E, se a estudou, sabe agora
Que perdeu a inspiração.
E cora
De lhe haver dado atenção.

Quem sou de mim foi-se embora:
Pára, de vez, coração!
(Mas dilacera-me a espora:
– Ainda não!)


Ainda Não, Averno, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

RUY VENTURA

[ESTA SALA FOI OUTRORA UMA VARANDA]


esta sala foi outrora uma varanda.
desse tempo ficaram um candeeiro,
uma persiana para sempre aberta,
uma janela e um alegrete
onde nascem e crescem flores de plástico.
decerto:
a minha presença não existia ainda.
embora esta idade ultrapasse a do alumínio,
separando o jardim
e a casa.


Sete Capítulos do Mundo, Black Sun Editores, Lisboa, 2003.

domingo, 24 de janeiro de 2010

VASCO GRAÇA MOURA

6.


e à minha neta francisquinha,
senhora que é do seu nariz,
deixo a ternura que esta linha
desajeitadamente diz
e seja a flor desta raiz
já desgrenhada que deu frutos
e tenha sorte num país
em que o avô lidou com brutos.


Testamento de VGM, Asa, Porto, 2001.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

MANUEL CINTRA

[BEBER CHÁ DE MALVA]


Beber chá de malva e comer sopa de urtigas: é mais ou menos nisto que se resume o ser português.


Borboleta, edição do Autor, Lisboa, 2006.

domingo, 17 de janeiro de 2010

RUI PEDRO GONÇALVES

[O QUE DIZEM OS ESPELHOS, IMPERADOR?]

para a Inês Dias

O que dizem os espelhos, Imperador?
Será o vazio quem procura as imagens
Ou são as águas que esperam rostos mergulhados – carruagens
cheias de transeuntes
Que passeiam nesta margem, junto ao rio?

Não dizes.

Acabas sempre por guardar segredo.
Fazes o teu jogo.
Começas, acabas, mas permaneces imóvel como o espelho que,
um dia,
Hei-de partir.
Partirei, sim. O teu reino não dura sempre. Nem o meu.
E as imagens quebram-se contra o mundo novo. São coisas
recentes
Novas danças
Que fazem com que as coisas sejam, nem sei como dizer, talvez
Como um pêndulo de relógio.

Mas um dia, se quiseres
Diz-me se o vazio é actor principal.
E quanto tempo está em cena. Se alguém o aguarda
Mesmo depois de actuar
Ou se vai mesmo em digressão.

Existe um espelho que me espera.

Não me quero reconhecer.


Telhados de Vidro, n.º 13, Averno, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

JORGE ROQUE

2


Da paixão cansei-me (pode acolher tanta morte um corpo, esse mesmo que brilha à luz do desejo, esse mesmo que guarda a promessa da alegria). A verdade gastou-se (isto é o mais fácil de compreender: a verdade gasta-se, quando chegamos ao lugar de a encontrar, sabemos por fim que não existe). Sobrou o que sou e o que não sou também, pelo meio a linha de uma estreita solidão, e é isto que te dou (isto o que te posso dar). Só aqui, só agora, este sorriso de estar vivo, e por vezes o cansaço (que embora não pareça faz parte do sorriso). E agora já me entendes? E agora ainda me queres?


Telhados de Vidro, n.º 13, Averno, Lisboa, 2009.