domingo, 30 de maio de 2010

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

AS CADEIRAS

pousou uma mosca aqui

À aula de
quarta-feira assistiram 13 alunos e
27 cadeiras. Em resumo: a sala cheia.
Quando a
lição terminou os 13 alunos partiram e
acto contínuo contei 20 casais de cadeiras.
Às aulas que tenho dado nunca faltam
as cadeiras
ficam a ouvir-me atentas
(as costas muito direitas).
É bom de ver que as cadeiras entendem
tudo à primeira
parecem ser mais maduras (mais
pés
assentes na terra).


A Parte pelo Todo, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2009.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

SOLEDADE SANTOS

SWING PARA MANHÃ DE SOL


na casa vazia
eu deus o mundo por fazer
e danço

swingo com pano
do pó aspirador
cadeira e canto
swing enche a minha casa
e roupa suja espalhada
no chão misturada
com lápis legos ferraris

ó sol tão amarelo
na janela
a roupa fumega
varal colorido manhã de 6.ª feira
swingo com ella oh baby
sing me a swing song and let me
dance

que a vizinha de baixo é surda creio
pois não se queixou nunca nem
dos gritos à noite
dos gatos


Divina Música: Antologia de Poesia sobre Música, org. Amadeu Baptista, Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009.

domingo, 23 de maio de 2010

MANUEL ANTÓNIO PINA

ESPLANADA


Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.


Diga Trinta e Três [de Poesia Reunida], org. João Gesta, Teatro do Campo Alegre, Porto, 2008.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

MANUEL DE FREITAS

BENILDE, SENTADA


Benilde, nessa tarde, tinha dores
e estava viva, se me desculparem
o truísmo. Abandonara o balcão,
por uma vez, sentando-se perto
destes versos. Eu tinha apenas febre,
um cansaço de tudo e de mim também.

Anoitece, de facto, cada vez mais cedo.
À falta de clientes, as sombras do jardim
irrompem pela taberna, contornam
devagar o oratório do Grupo Excursionista
Os Gosmas. Pergunto-me se algum deles
estará ainda suficientemente vivo, se
o pequeno comboio os levou ou não
até ao fim da dor, agora iluminado.

Mas não me respondas, poema.
Deixa-te ficar ao lado de Benilde, sentada
e tranquila nesta tarde de Novembro.

A noite não precisa de palavras.


A última porta [de Terra sem coroa], org. José Miguel Silva, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 16 de maio de 2010

ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE

[ESTA NOITE, OUTRA NOITE]


Esta noite, outra noite,
esta manhã que nasce pelas frinchas
da janela pequena entreaberta,
por planaltos e vales caprichosos,
lagos azuis, ravinas, e pinhais,
irei de vez em quando perguntando
onde existes? onde estás?
Talvez te enroles no lençol, ou seja
tua esta voz que canta em língua estranha,
ou por galáxias amplas de aventura
noutro quarto quebrado me procures
para existires em mim uma vez mais.
Que medo tenho de ir perdendo a sorte
em armários de gente contrafeita,
e ser, quando voltares, imunda fera
morta, sem dentes, numa esquina ou poço,
o último exemplar da sua espécie;
eu que seria jovem para sempre
em cada pensamento, em cada gesto,
em cada rima obscura do teu verso.


Uma Fábula, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A. M. PIRES CABRAL

PERGUNTAS


Tenho sempre, na algibeira da noite,
algumas vigorosas perguntas de reserva,
prontas a disparar em legítima defesa
contra o negrume.

Algumas são pequeninas, vulgares
aspectos de pormenor.
Outras, pelo contrário, são enormes,
desabridas como a boca dum forno –
do género porque é que deste quatro,
e não seis, ou oito, pernas à rã.

Hoje ocorre-me fazer a menor de todas:
se foste tu que fabricaste o tempo
e a ele nos acorrentaste?
e com que barro? e com que raio
de segunda intenção?

Se é que não foi apenas por descuido.
Ou até casualmente, como acontece às vezes
ao cientista que faz experiências
e acaba por descobrir seja o que for.


Resumo: A Poesia em 2009 [de Arado], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 9 de maio de 2010

GONÇALO M. TAVARES

[OS OSSOS DO ARROZ]


Os ossos do arroz.
O Grande Perónio.
Ou por exemplo os Músculos do arroz.
O externocleidomastoideu alojado no arroz, no centro do arroz.
Questão:
o arroz, assim, no geral,
a areia, por exemplo,
terão estes elementos, que são exércitos, um centro?
Os soldados têm centro?
Não pode ser o general porque o general não é soldado;
o centro dos soldados tem de ser um deles: soldado, mas se for escolhido, de entre eles, um centro, então esse deixa de ser soldado, porque este por definição é igual aos outros, e assim não, passa a ser centro.
Portanto: os soldados não têm centro, tal como o arroz.
A não ser que o centro seja algo que não é MATÉRIA, mas espaço--entre, no meio.
Deus, por exemplo, seria um bom centro para o arroz e para os soldados.
Principalmente para o arroz.
Deus como Centro Exacto dos Iguais.
Se o arroz tem centro, este é o Pão Grande, isto é: Deus.


Investigações. Novalis, Difel, Algés, 2002.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

ANTÓNIO RAMOS ROSA

[ESTOU OLHANDO OS FRUTOS REPOUSADOS]


Estou olhando os frutos repousados
e as pequenas sombras alongadas
sobre a mesa de madeira e pedra.
A brisa entra por uma porta antiga.
Uma pétala branca cai de uma flor branca.
Sou, mais do que sou, estou
na perfeição das coisas que me envolvem.
Repouso na sinuosa exactidão.


Poemas [de A Rosa Esquerda], Leya, Lisboa, 2009.

domingo, 2 de maio de 2010

MIGUEL-MANSO

OS CARIMBOS DE GENT


há maneiras bem piores, mesmo assim
de queimar a juventude

faltam ainda, no momento em que escrevo
sete carimbos até ao final
sete anos de pastor Jacob servia
ou seis, caso o leitor me confirme que
tem na sua frente este poema

sinal de que o mesmo terá sido, também ele
um dos escolhidos para definhar junto dos outros
no esmerado lote do terceiro livro

o livro beat
– de beatitude, assentemos assim –

se está a pensar, eventual leitor, acompanhar-me
mesmo que de modo fortuito, neste escusado exercício
saiba que nunca estive tão perdido como agora

duvide de tudo o que lhe parecer escorreito
não se deixe enganar sequer pela imprecisa
citação dos clássicos

Santo subito, edição do Autor, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

NUNO JÚDICE

A TERRA DO NUNCA


Se eu fosse para a terra do nunca,
teria tudo o que quisesse numa cama de nada:

os sonhos que ninguém teve quando
o sol se punha de manhã;

a rapariga que cantava num canteiro
de flores vivas;

a água que sabia a vinho na boca
de todos os bêbedos.

Iria de bicicleta sem ter de pedalar,
numa estrada de nuvens.

E quando chegasse ao céu pisaria
as estrelas caídas num chão de nebulosas.

A terra do nunca é onde nunca
chegaria se eu fosse para a terra do nunca.

E é por isso que a apanho do chão,
e a meto em sacos de terra do nunca.

Um dia, quando alguém me pedir a terra do nunca,
despejarei todos os sacos à sua porta.

E a rapariga que cantava sairá da terra
com um canteiro de flores vivas.

E os bêbedos encherão os copos
com a água que sabia a vinho.

Na terra do nunca, com o sol a pôr-se
quando nasce o dia.


Poemas [de As Coisas Mais Simples], Leya, Lisboa, 2009.

domingo, 25 de abril de 2010

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[QUE É FEITO DOS NOSSOS CONTEMPORÂNEOS? PARTIRAM]


Que é feito dos nossos contemporâneos? Partiram
alguns, para o deserto, à procura
de emprego, à procura de dinheiro; outros
receberam no peito, braços abertos,
um deserto que lhes nutre a sujeição,
o cadáver adiado. A muito poucos
bastou um vinho, a música, o jogo dos enlaces,
a notabilíssima fala dos corpos! E a Arte
estes colocou na estrada larga do instinto,
o verbo agir-livre, donde claramente
se vê o subúrbio mental do homem nado-morto,
da mulher inerte.


A Escrita, & etc, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

LUÍS FILIPE PARRADO

NA ASSEICEIRA, LENDO SOBRE A VIDA E A OBRA DE PAUL GAUGUIN


A luz de fim de Agosto declina sobre
o terraço desta casa na província
onde leio que

o pintor Paul Gauguin
se esquivou às obrigações familiares
abandonando mulher e filhos

para poder viajar pelos Mares do Sul
e «perseguir a sua arte».
Por ter lido agora estas palavras

ergo os olhos da página 57
e vejo à minha frente
o bando de corvos poisado

nos grossos cabos eléctricos,
a planura do céu, o campo de milho
mais extenso das redondezas

onde se escondem os meus filhos
um do outro, e os dois de mim.
Para Gauguin, regressando à leitura,

o apelo da criação,
o amor profundo pela pintura
falaram mais alto do que a prosa

da existência pequeno-burguesa
da segunda metade de Oitocentos
motivo que o conduziu à rejeição

«dos deveres convencionais
para com a família»,
definitivamente deixada para trás.

Mas, mesmo sublinhando frases claras,
não se torna evidente para mim
se o pintor fez o «que sentiu

que tinha que fazer para atingir
o seu mais alto grau de excelência pessoal»
e, deste modo, legar aos homens

«o fruto da sua arte»
(como argumentam Shai Biderman
& Eliana Jacobowitz)

ou se, mais exasperadamente
do que possa parecer,
a pintura foi a tábua de salvação,

o último recurso para a fuga
ao pântano (outros dirão ao inferno)
da vida conjugal, em Copenhaga,

com Mette Sophie Gad e as 5 crianças.
Quanto a mim,
gostaria de desfazer a dúvida

e prosseguir a leitura,
no entanto, na província,
o sol de fim de Agosto dissolve-se

por detrás do telhado da casa
e a noite vai estendendo uma frescura ventosa
que torna praticamente impossível

o acto de ler.
Quase às escuras
restam-me, pois, os gritos dos filhos,

algures,
e a voz da minha mulher a dizer
que é preciso pôr a mesa para o jantar.

Por isso,
porque não estamos no Taiti
nem no século XIX

nem eu sou o famoso pintor primitivo
moderno Paul Gauguin,
marco a página, fecho o livro

e levanto-me
para tratar dos pratos e talheres.
O poema, desculpem, tem que ficar por aqui.


Resumo: A Poesia em 2009 [de Criatura, n.º3], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 18 de abril de 2010

RUI PIRES CABRAL

«NÃO TENHAS CONFIANÇA NA TUA JUVENTUDE.»

para o Manuel de Freitas

Noites de tabaco com resina
de Marrocos, pequenos quartos

onde a música era enorme.
As ruas pulsavam, eram coisas

mortais, o pensamento um carrossel
de monstros vivos. E nós os únicos,

os mais sós, os mais relapsos
no caminho que descia do devaneio

à angústia. Esquecidos das horas
num qualquer degrau perdido,

o futuro era aterrador: it will end
in tears. E tudo o que sabíamos

estava errado, menos isso.


Resumo: A poesia em 2009 [de Oráculos de cabeceira], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

ADELINO ÍNSUA

[A AVE CATIVA NAS MÃOS DO VENTO]


A ave cativa nas mãos do vento
aquieta-se para poder voar.
São asas luminosas as quietações
e não agindo sobem.

Neste mundo redondo é o caminho do raio
a sentença consciente da sua fulminante respiração.
E não é livre o caminho do raio.


Livro das Esmolas, Opera Omnia, Guimarães, 2008.

domingo, 11 de abril de 2010

MARTA CHAVES

[EXERÇO MUITAS VEZES O OFÍCIO DE ESTRANGEIRA]


Exerço muitas vezes o ofício de estrangeira,
com pouca fé de que na impossibilidade da língua
se entenda a natureza dos meus gestos.


Onde não estou, tu não existes, 2.ª edição, Tea For One, Lisboa, 2009.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

JAIME ROCHA

[HÁ NO CÉU UM CHORO QUE SOBE COM AS PLANTAÇÕES]


Há no céu um choro que sobe com as plantações.
E um odor vazio parecido com o barro.
O homem queima o peito quando atravessa
uma placa de zinco. A sua sombra aparece
depois no meio de um olival. Os dias são como
os abutres, calados, virados para sul. Tudo fica
envolto numa crença assim que o pássaro consegue
saltar pelo espelho sem que as suas vísceras se
esmaguem. Só o silêncio acorda o homem
e o desperta para o mal.


Do Extermínio, Relógio d'Água, Lisboa, 2003.

domingo, 4 de abril de 2010

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

TRIESTE


Nesse verão nenhum de nós buscava terra firme
parecia-nos caminhar há séculos sobre as águas
Donde viemos nós? Como chegámos a esta luz
austríaca sobre as colinas
ao fumo lento no anfiteatro do golfo
à ordem aleatória do tempo?

Talvez nos caiba viver por cidades estranhas
em casas que esconderão sempre o seu medo
e a sua glória
sós diante dos céus
sem a certeza culminante

Vemos a tarde perder-se na direcção do molhe
o mundo é aquilo que nos separa do mundo


Resumo: A Poesia em 2009 [de O Viajante sem Sono], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 31 de março de 2010

JOÃO ALMEIDA

EM TEMPO DE MISÉRIA


desço por um jardim transparente
entre lodo e hortelã

andam assistentes sociais pelo bosque
à procura de pobres
agitam contas e berlindes

acaba aqui a rédea solta, há que escolher as armas

troco à sombra do derradeiro cipreste
dois versos e um dedo
por uma noite de sono e um detonador

Resumo: A poesia em 2009 [de Glória e eternidade], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 28 de março de 2010

DAVID TELES PEREIRA

RECICLAGEM PARA C.


O deus do Eugénio
é muito mais verde
quando lido pelos teus olhos.


Resumo: A Poesia em 2009 [de Criatura, n.º 4], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 24 de março de 2010

ADÍLIA LOPES

A DOMADORA DE CROCODILOS


Todos os dias
meto a cabeça
na boca
do crocodilo

O meu feito é feito
de paciência

Já meti
a cabeça
no forno
estava farta
dos crocodilos
e dos amantes

Não tenho tido amantes
tenho tido crocodilos

Com os crocodilos
ganho o pão
e as rosas

Morrer é um truque
como tudo o mais

Dobrada
entre os crocodilos
dobrados
arrisco a pele

A pele é a alma


Resumo: A poesia em 2009 [de Dobra], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 21 de março de 2010

MIGUEL-MANSO

NO NÚMERO DE OUTUBRO DA REVISTA WIRE


frente ao fotógrafo e ao leitor
o homem envelhecido parece que já não olha
Mitra o deus sol dos psicadélicos

noutra foto
no interior da revista o poeta está sentado
a uma pequena mesa de frente para a janela
onde as cortinas brancas filtram
a luz e o ruído da rua

sentado na cadeira de rodas
ele espera dentro da claridade
delicada da manhã

e depois durante a noite

assiste ao que resta do mundo
junto à máquina (a soft machine) de escrever
pousada no tampo (eu ia escrever
no tempo) da mesa

não sei se caem pétalas dentro
do olhar de Robert Wyatt não sei o que escreve
agora na tábua das constelações

essa realidade desabitada dos versos
e dos jardins


Divina música: antologia de poesia sobre música [de Contra a manhã burra], org. Amadeu Baptista, Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009.

quarta-feira, 17 de março de 2010

JOSÉ MIGUEL SILVA

SONHOS POP


Baixo, guitarra, furor, bateria: o habitual
da insurreição juvenil, retiro de ofendidos
ou coisa que o valha, por todo um meio Inverno
de rotos acordes. Dizer que foi um sonho
é já efabular, se até os instrumentos eram
emprestados, os gritos de empestado, a pose,
o cuspo dos pês no microfone suburbano.
Não, não era isso. Não era sequer a música:

apenas a suspeita de nenhum futuro, como
berravam os piores cantores; o desconsolo
do real, tão alheio à fantasia do possível.
Quando tudo nos chamava pelo nome e
ninguém desconhecia que devíamos à morte
uma conta calada, um balúrdio de espuma.
E assim a juventude, em nosso peito,
retumbava uma batida detestável.

Foram cinco, seis semanas de frustradas
tentativas, todas muito de partir o comboiinho
do sentido. Pelo tropel de decibéis desnorteados
percebemos que corríamos a monte, sem
feitio nem agrado. Não era por ali. Paciência,
concluímos, cada um para seu lado: o das vozes
para os livros, o baixista para as mágoas,
o guitar para a mentira, o baterista para a morte.


Divina música: antologia de poesia sobre música (de Walkmen), org. Amadeu Baptista, Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009.

domingo, 14 de março de 2010

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES

[INVERNO EM VILA REAL. O NEVÃO]


Inverno em Vila Real. O nevão
cobria a rua do liceu.
Uma luva de cabedal amodorrado
no tampo, o vapor do alento
liga-nos à toada indiferente.
O meu tumulto ensombra-te.

Um pombo protegido no beiral,
a cabeça na plumagem de procela.
Tu calado, eu afeito ao silêncio, delineava-se
no compêndio e numa bolsa a letra
do nosso nome, de maneira a desenhar
uma única sílaba fora de alfabeto algum.
Que bem tão mal ali se convinha, se
faltava à aula, na sediciosa ocasião
de um inaugural amor.

O foro furtivo já desagregava.
Nem eu te quereria
na luta em sobressalto do meu rumo.
Porém, sempre que falarem da neve
e o que for teu vier pela avenida
em direcção à confeitaria
algo do desaparecimento, quem sabe, te lembrará.


Um Toldo Vermelho, Relógio d'Água, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 10 de março de 2010

VITOR SILVA TAVARES

NA MORTE DE EDUARDO GUERRA CARNEIRO


[...]
Suicídios como o do Eduardo Guerra Carneiro NÃO DEVEM ficar limitados às razões e desrazões de caso pessoal: outro que suicida voador e tal o João Rodrigues (desenhador-poeta surrealista que se atirou "da janela à rua") o Eduardo é – Van Gogh o foi para Antonin Artaud – um "suicidado da sociedade".


Telhados de Vidro, n.º 2, Averno, Lisboa, 2004.

domingo, 7 de março de 2010

MANUEL DE FREITAS

ZULMIRA, AO AMANHECER


No urinol público lia-se UTILIZAÇÃO GRATUITA.
Fiquei quase feliz (quantas coisas gratuitas
há neste mundozinho de horror?).
Mas o que desta manhã eu mais agradeço, Zulmira,
é a tua sopa, essa que tantas vezes
me salvou a vida, entre centenas de super bocks.

Não me inquietam os chulos, os assassinos
ou estes mendigos calados. Ilustríssima gente,
de uma má-raça inegável. Prefiro perder
com eles os meus dias, e falar da fome, dos joanetes
ou do preço do azeite. Não tenho tempo
para aprofundar desrazões, nem para conviver com puetas.

Sei apenas que as poucas pessoas que amei
estavam por detrás de um balcão
onde o álcool ardia, muito devagar.
Os meus pobres anjos.
Também por isso gostava de te obrigar a esta taberna,
exílio cantante de todas as minhas antigas manhãs.

Por esta mãe desolada, pelo rumor sombrio
do vinho que nunca azedou nos meus lábios,
por certas inábeis palavras que sobre os barris
faleceram e te pertenciam somente.

Mas «até logo, Zulmira», bem sabes que do amor
ou do futebol nada poderei jamais dizer
ou sentir. Entre os teus braços largos deponho
em silêncio aquela negra noite do meu mal.
Por uma sopa encorpada, sobre destroços
imperecíveis, bocados de morte partidos.


Os infernos artificiais, Frenesi, Lisboa, 2001.

quarta-feira, 3 de março de 2010

PAULO TEIXEIRA

AMPULHETA


E o tempo conheceu a sua estatuária.

O trilho visível e medido no ar
em que os segundos se derramam
– sem símbolo de pausa nem desvio de curso –
de um céu suportado por colunas.

As horas afluem inatas, articuladas,
sem instante inaugural nem fim à vista,
como se lenta florisse a flor da farinha
sem cheiro a meio desta globulária de vidro.

O tempo casou-se com o mundo nesta imagem.


Orbe, Editorial Caminho, Lisboa, 2005.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A. M. PIRES CABRAL

NO CASTELO DE ANSIÃES


Demais sei eu que o que passou passou,
a história não é uma serpente
que se refaz em cada primavera,
mas quando muito morde a própria cauda;

que os que aqui moraram já nem ossos são,
soprou sobre eles o tempo
e extinguiu o pouco fogo que eram;

que cessou todo o ruído, de festa ou de querela,
dissolvido no ácido dos dias;

que os lugares onde acaso podia ter ficado
impressa alguma pegada acidental,
algum risco na pedra com vocação de história,
estão ocultos por silvas e aveia brava.

Demais eu sei que os horizontes
que vamos recolhendo do alto das muralhas
com as afectuosas pinças da alma
– contrariamente aos que moraram e morreram –
permanecem os mesmos:
perpétuo desafio ao vento e ao olhar.

Então, se tudo isso sei:
carne friável, minerais perenes;

e se com tudo isso me conformo, como homem
sobre quem também soprará
o tempo e está disposto a perdoar;

porquê esta água insubmissa
que devagar me molha o reverso dos olhos?


Novas Memórias de Ansiães (com Manuel de Freitas, Rui Pires Cabral e Vítor Nogueira), Averno, Lisboa, 2007.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

MANUEL GUSMÃO

VARIAÇÕES DO BRANCO


Ergues o olhar: surpreendes por instantes essa hora
em que o mundo envelhece: ténues as variações do branco
parecem dissolvê-lo numa longínqua música, anterior à chuva

Ou será então a imagem submersa de um filme a preto e branco

Há próximo um branco vibrante: o da cal ainda recente
mas que a humidade salina já a espaços mordeu,
recortando as feridas cinza na varanda a que vens.

Não há ninguém aqui. Quem te chame, digo.

Há o branco baço na parede que em frente em vão separa
rua e praia. Tendo já transposto essa fronteira incerta
ou erguendo-se para lá dela há o branco pobre da areia:

As dunas plenárias sustentam os corpos deitados de mar e céu.

Aí é agora o grande branco: o clarão velado e difuso
que guarda e distribui a memória embaciada do azul
e do verso, do oiro e da prata – uma lembrança vã.

Tu escreves no visível do mundo essa névoa branca e desolada

que o motor da paisagem produz. As folhas do ar são como
se fossem as levíssimas pétalas, as vagas sílabas de uma neve –
e essa névoa engolfa, atrasa e apaga na travessia os simulacros

das coisas supostas e imaginadas que o mundo te envia
enquanto esperas por alguém que não virá


Migrações do Fogo, Caminho, Lisboa, 2004.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

EDGAR CARNEIRO

ENLEIOS


Que direi de enleios,
galanteios ternos
prematuro voo
da miragem tonta?

Onde estão represos
os murmúrios de água
deslizando lenta
no dossel dos montes?

Já não sinto as aves
nem sequer as penas
adejando soltas.

Quanto às águas sei
ir morrer de sede
mesmo vendo as fontes.


Périplo, Edições Húmus, Vila Nova de Famalicão, 2009.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

SE


Se tiver medo, não posso
atravessar esse bosque,

todas as copas das árvores
hão-de ladrar aos meus pés.

Até a lua por certo
com veneno cor do leite

à socapa vem morder-me
na ponta do calcanhar.

Se tiver medo, não posso
atravessar esse bosque,

as ervas hão-de ceifar-me
antes mesmo de morrer.


Obsessão, & etc, Lisboa, 2010.