quinta-feira, 4 de novembro de 2010

MANUEL DE FREITAS

MONTE

para Glória de Freitas

No limite da raiva e da impaciência,
perdíamos autocarros atrás de autocarros
(o que já vai sendo costume, nos meus poemas).
A tia entrou naquele em que não entrámos.
Só nos voltaríamos a encontrar no Funchal,
pouco antes do regresso a casa.

Em vez da raiva, o sorriso da tia virou-se
para mim, dizendo: «isto ainda vai dar escrita,
Manuel António». Não se enganava, enquanto
atrás de nós se apagavam ou acendiam as luzes do Monte
e os esqueletos de vaca pediam a voracidade comum.

Mas prefiro lembrar a dança inútil
de um acordeão, a boneca de farinha
comprada pelo meu pai no Caminho das Babosas,
essas impronunciáveis coisas que da morte apenas
nos tornam para sempre cúmplices, vagas testemunhas,

embora te ficasse bem o colar de funcho.


Caminho das Babosas [de Boa Morte], edição do Autor, fora do mercado, Lisboa, 2010.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

LUÍS FILIPE PARRADO

AS UNHAS


Sim, as unhas. Único órgão humano
que merece ser cantado no poema,
ele mesmo uma espécie de unha, laminar.
Garras ou pétalas,
precisam de corte e medida certa,
insistindo, depois do fim
da carne (que guarneceram toda uma vida),
em crescer para nada.
Últimas, mínimas transparências
fibrosas e amareladas
— pelos muitos cigarros. E
ainda se riem da morte,
já no caixão, sinal
de força sob a irremediável fraqueza humana.
Espigões quebradiços
com que ferimos o chumbo,
esse coração que Conrad disse um dia ser de trevas.


Criatura, n.º 5, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2010.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

DIOGO VAZ PINTO

I


Ainda que corras, vives do mesmo,
das cansadas histórias que ouviste
aos outros, nestas cidades de sal
e varandas com berros
de roupa estendida. Acordando,
entre os vinte e os trinta, verde
ainda, num colchão de molas baixinho,
armação de ferro que guincha exageros
e te chama herói nas alturas.

A respiração sustida no cheiro da
hortelã brava, a água do duche
a correr entre largos quartos de hora.
Chávena, cigarro e a cantilena dos pardais
afogados em lixo e no barulho das obras
— tempestade artificial destas manhãs.

Ao pequeno-almoço a escolha
entre sumos de frutas que nunca viste,
as torradas e omoletas com tudo
o que tinha na despensa. Ela a rir-se,
de cabeça meio inclinada, frigideira
na mão e a preferida entre
todas as suas poses. Um chupa
ao canto da boca e a mancha louca
do batôn sobre os lábios e à volta.
Embrulhado nesta fita caseira,
trama de polaróides a trepar pelas
paredes. As amigas todas, ferozes
princesas, com as mãos cheias
de arroz e confettis. E é isto:
a mania efabuladora, aquele tom
sidéreo e o fogo que larga em frases
sem grande sentido. Assim faz de ti
esta coisinha obediente, tola
e contente. «Vais buscar o pão?»


Criatura, n.º 5, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2010.

domingo, 24 de outubro de 2010

DAVID TELES PEREIRA

CEMITÉRIO JUDAICO DA RUA OKOPOWA


No cemitério judaico da Rua Okopowa é como se o ar cobrasse juros,
memória irrespirável da carne, impressa no vento
que raciona as flores pelos vários mortos.

Perdemo-nos nos nomes imensos,
como o de Szimon Askenazy, historiador e estadista
que, ao que parece, lutou por uma Polónia independente
e hoje não tem quem lhe agradeça com flores o incómodo.
Não é o único por aqui a quem já lhe morreu tudo,
não é o único que paga com ausência de rosas
a conta de ter sido corpo em ruína e espelho
para outros se assustarem.

De Marian e Hannah não tenho notícia,
devem estar, como todos, a apodrecer,
mas apenas noutro canto qualquer.
Agora já só uma expedição de incautos vermes
lhes há-de acordar os ossos.


Criatura, n.º 5, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2010.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

ANTÓNIO BARAHONA

ARTE POÉTICA


Por cada verso feito quantas noites
desfeitas e mulheres transfiguradas,
madrugadas, cidades, auto-estradas,
montes de cartas, mortos e ausentes.

Por cada verso feito me despeço
deste mundo, em pedaços repartido,
pois só consigo reunir-me quando fundo
império de poema nunca escrito.


Criatura, n.º 5, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2010.

domingo, 17 de outubro de 2010

ALEXANDRE SARRAZOLA

TODOS OS CÃES


todos os cães mudos de luz à passagem do cortejo
o sorriso do homem do trombone de varas
pendurado no rebate dos sinos
cai uma chuva miudinha a amortalhar o som dos metais
a tenda das comédias ensopa debo-
tada de uma alegria de domingo
vêm as crianças pedir as janeiras à nossa porta
cantam na sua inocência de quem não
sabe da lama nos nossos pés
e afagam-nos com cantigas de cristal para
nos limpar da tristeza pressentida
enfim a tarde vai chegando muito cedo e olha-
mos as janelas iluminadas das casas
que são dos outros,
como quem passeia um cão na noite da consoada


Merry Christmas (A.M. Pires Cabral et al.), Averno, Lisboa, 2006.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

JORGE GOMES MIRANDA

O ERRANTE


Um dia, tínhamos decidido
faltar às aulas, perguntou-me:
«o que fazes de noite
para estares sempre tão triste de manhã?»

A noite: ruas que remetemos na memória:
a distracção para tudo o que não seja
o que lábios vêem
ou nada existir para lá do limite rugoso das

palavras, incessantes fulgores
mas que nada restituem
quando estrela alguma cinge o errante.


Curtas-Metragens, Relógio d'Água, Lisboa, 2002.

domingo, 10 de outubro de 2010

NUNO DEMPSTER

[A SEDE DE MUNDO É INEXTINGUÍVEL]


A sede de mundo é inextinguível.

E na distância que vai de Covent Garden a Piccadilly Circus
cabe o mundo todo,
e a sede que tenho dele está ali,

toda ali,

reproduzida em milhares de rostos, em cabelos loiros
que esvoaçam no fim de tarde.


Londres, & etc., Lisboa, 2010.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

DEIXA-ME DAR-TE O VERÃO


O verão é feito de coisas
que não precisam de nome
um passeio de automóvel pela costa
o tempo incalculável de uma presença
o sofrimento que nos faz contar
um por um os peixes do tanque
e abandoná-los depressa
às suas voltas escuras


De Igual para Igual, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

domingo, 3 de outubro de 2010

RUI PIRES CABRAL

FOTOGRAFIAS


Nesta vida — é um facto — estamos sempre
a desaprender coisas novas. O mundo
vai guardando a luz nas suas bainhas negras
e temos a melindrosa companhia dos fantasmas
que nos procuraram: eles governam rudemente
os nossos pequenos reinos e há um ceptro novo

para cada coroação. De repente, com a volta
das estações, damos por nós muito mais velhos
nas fotografias. As razões que nos assistiam
empalidecem em paisagens cruelmente coagidas
pela luz. Fomos expulsos dos grandes palácios

da alegria? Onde estão os mapas que nos guiavam
lá dentro, exactos como o instinto? Não sabemos
responder: o caminho turva-se: são as incertezas
da maturidade. As palavras não nos iluminam
e o amor está condenado aos defeitos naturais
do coração, que ainda assim há-de voltar a arder

sem defesa nem socorro uma vez mais.


Periférica, n.º 4, Vila Pouca de Aguiar, 2003.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

RUI NUNES

MÉDIO ORIENTE


Explode:
as mãos traçam um som insuportável:
a história pára nesse gesto
mas recomeça um pouco mais à frente.
O que sobra de um corpo
é a silenciosa queda dos destroços.
O trigo escurece, as rêses comem a própria carne,
e os gafanhotos anunciam a manhã do ódio:
o desenho do tempo fica dia a dia mais nítido.

os vidros resguardam-no do clamor
e nos vasos de begónias floresce o néon.
Sentado à secretária, o homem risca uma palavra,
leva as mãos aos lábios,
medita,
e reescreve a morte.

como se diz este último resíduo,
estes corpos que irradiam morte,
o anónimo de uma luz insuportável?
como se diz uma palavra
meticulosamente destruída,
estes sons desavindos?
ou uma criança que não sabe correr?

a eternidade é a bebedeira dos desesperados:
viagem rápida, dia em estilhas
que acaba em três ou quatro gotas
no vidro da janela:
insectos esborrachados contra um pára-brisas.

é preciso decifrar os escombros.


Telhados de Vidro, n.º 14, Averno, Lisboa, 2010.

domingo, 26 de setembro de 2010

JOSÉ AMARO DIONÍSIO

BIOGRAFIA


O coração é uma arte difícil. Mas tudo o resto é a crédito.


Telhados de Vidro, n.º 14, Averno, Lisboa, 2010.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

JORGE ROQUE

CANÇÃO DA VIDA, 1


Caem-lhe as peças de xadrez do tabuleiro derrubadas por movimentos mal calculados. Ouvem-se no andar de baixo a embaterem no soalho e calarem-se num som trémulo, quase um lamento. Ele apanha-as e volta a colocá-las nos lugares de que se lembra. Sabe que erra os lugares, principalmente quando cai mais do que uma peça. Sabe também que não importa. Como não importa quem ganha ou quem perde, ele ou o outro que com a sua mão joga do outro lado. Importante é não parar de jogar. Cansar a noite, cumprir a vida, deitar-se para amanhã recomeçar.


Telhados de Vidro, n.º 14, Averno, Lisboa, 2010.

domingo, 19 de setembro de 2010

HERBERTO HELDER

[A POESIA É FEITA CONTRA TODOS]

[...]
A poesia é feita contra todos, e por um só; de cada vez, um e só. A glória seria ajudar a morte nos outros, e não por piedade. A grandeza afere-se pelas conveniências do mal. Aquilo que se diz da beleza é uma armadilha. Pena que não pratiquem o pavor, todos. Seria o lucro do nosso emprego e um pequeno contentamento para quem está com alguma pressa em agravar.
.
E leia-se como se quiser, pois ficará sempre errado.
.
.
A Perspectiva da Morte [de Photomaton & Vox], org. Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

JORGE DE SOUSA BRAGA

O GUARDA-RIOS


É tão difícil guardar um rio
quando ele corre
dentro de nós


Balas de Pólen, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2001.

domingo, 12 de setembro de 2010

A. M. PIRES CABRAL

MELRO EM GAIOLA (VI)


E todavia,
as risadas do melro na gaiola
fazem-me rasgões por dentro
como se em vez de riso fossem pranto.

Porque eu sou como ele:
alguém me reduziu o tamanho do quintal
até o quintal ficar isto que se vê
– e eu a defendê-lo a golpes de riso.

Como o melro, tal e qual.


Telhados de Vidro, n.º 11, Averno, Lisboa, 2008.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

RENATA CORREIA BOTELHO

EL PÁJARO


é de ti, passarinho, que fala
esta música. espero-te à varanda
do meu quarto, num abismo
que se ergue do chão aos meus olhos
ainda baços. encontraste aqui,
como eu, a tua sombra, pajarillo

tú me despertaste, enseñame a vivir
e vamos juntos, por aí, numa voz só,
entoando esta cantiga com os cavalos
bravos, fingindo a vida e logrando
a morte, recolhendo à terra,
passarinho, sem nada temer,

recolhendo à terra.


Small song, Averno, Lisboa, 2010.

domingo, 5 de setembro de 2010

MANUEL DE FREITAS

SALVE REGINA

para a Inês

«Isto já não tem melhoras» – acabou
por nos dizer Zulmira, referindo-se
à sua perna atropelada, à vida,
ao filho que há três anos lhe mataram,
embora se chamasse Epifânio.

E ficou assim, completamente sozinha,
deusa rude e resignada que veio
dos campos servir vinhos e cervejas
a uma «freguesia» que foi, em tempos,
tão imensa como é agora a sua solidão.

Uma quase mansa solidão, se virmos bem,
uma tristeza sem lágrimas, uma sabedoria
que se volta a confundir com o azul forte das paredes,
com o seu nome último e inquebrantável,
a «passar o tempo» entre os muros deste reino.

Tem agora a mesma idade que Maria,
abre só para ti uma garrafa de ginja
e assiste calmamente ao fim do mundo.


A nova poesia portuguesa, Poesia Incompleta, Lisboa, 2010.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

LUÍS ADRIANO CARLOS

[DOER A TRANSPARÊNCIA DO SOSSEGO]


Doer a transparência do sossego:
terna agonia em que nos dissipamos,
entre os destroços de uma construção
teórica. Doer em pensamento
este sossego que na transparência
desmonta o aparelho: imagem tida,
repente breve, ou só memória já.
Vai ser difícil continuarmos vivos,
pensa, como eu, que assim será, difícil,
antes que os deuses nos prometam tudo.


Invenção do Problema, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2006.

domingo, 29 de agosto de 2010

JOSÉ CARLOS SOARES

[SURPREENDI-O VIVO]


Surpreendi-o vivo
num cemitério de esperas. Bebia
o sangue das horas

enquanto a memória desenhava
ventos passeando
pelos cantos da boca.


Telhados de Vidro, n.º 5, Averno, Lisboa, 2005.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

FERNANDO ECHEVARRÍA

RECOLHEM, GLORIOSAS, AS TRAINEIRAS


Recolhem, gloriosas, as traineiras.
Deslizam na manhã do Cabedelo,
esquecido o estrondo das procelas
que arrepanhou o assento
das águas. E das quilhas. Da certeza
dos músculos que rompem nevoeiro
e o enrodilham com a voz espessa
do cigarro molhado pelo vento.
Agora o sol rompe na barra. Estreia
a bruma a desprender-se dos pinheiros
e a tepidez sem fim da primavera
colhendo sinos pontuados de ecos.
E surde, limpa, a solidão da aldeia.
Com os filhos de luz e, mesmo, os netos
a esquecer a algazarra, a brincadeira
nas mãos calosas, no silêncio aberto
de olhos sorrindo à pequenina festa
que se chega, sorrindo, ao sal dos dedos.


Lugar de Estudo, Edições Afrontamento, Porto, 2009.

domingo, 22 de agosto de 2010

ALBANO MARTINS

ENTARDECER NA PRAIA DA LUZ


Espreguiçados, os ramos
das palmeiras filtram
a luz que sobra
do dia. É já noite
nas folhas. O branco
das paredes recolhe
o sangue e o vinho
das buganvílias
e hibiscos. Bebe-os
de um trago: saberás
que, mais do que cegueira, a noite
é uma embriaguez perfeita.


Castália e Outros Poemas, Campo das Letras, Porto, 2001.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

ALBERTO PIMENTA

ESTIMADOS COMPATRIOTAS:


Acerca do filho-da-puta, como acerca de muitas outras coisas, correm neste país as mais variadas lendas. Há até quem seja de opinião de que o filho-da-puta a bem-dizer nunca existiu, dado que ele é apenas um modo de mal-dizer. Nada, porém, mais falso. É certo que o filho-da-puta às vezes não passa de um modo de dizer, mas não bastará a simples existência, particular e pública, de tão variados retratos seus, para arrumar com as dúvidas acerca da sua existência real? Pois quem teria imaginação suficiente para inventar tantas e tais variedades de filho-da-puta, caso ele não existisse? Não! O filho-da-puta existe. Em todos os lugares, excepto no dicionário. No dicionário existem variados filhos, entre eles o filho-família, o filhastro e o filhote, mas não existe o filho-da-puta. Em compensação, o filho-da-puta existe em todos os outros lugares. Claro que há lugares que ele de preferência ocupa e onde por conseguinte é mais frequente encontrá-lo; no entanto, exceptuando, como ficou dito, o dicionário, não há lugar onde, procurando bem, não se encontre pelo menos um filho-da-puta.


Discurso Sobre o Filho-da-Puta (6.ª edição), 7 Nós, Porto, 2010.

domingo, 15 de agosto de 2010

JOSÉ MIGUEL SILVA

A BARREIRA INVISÍVEL – TERRENCE MALLICK


É difícil caminhar sobre uma linha invisível,
uma linha de água, entre o mal e o mal.
Divididos pelo sangue que atravessa os pensamentos,
do inferno ao paraíso, com o medo entrelaçado
na memória, os bolsos pesarosos de metal ferroso,
caminha sobre as águas quem caminha sobre si.
Por isso é tão difícil caminhar sobre as águas.


Periférica, n.º 4, Vila Pouca de Aguiar, 2003.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

MANUEL FILIPE

NUA MADRUGADA


O leito em seu estado adormecido,
o lume que esmorece na lareira,
a cadeira no seu estado de sentada,
a laranja que definha na fruteira,
ou a dolência deste estado indefinido
de sonhar, com o passado à cabeceira...

(E enquanto morre a nua madrugada
renasce a imensa noite, à minha beira.)


Eis uma Casa, edição do Autor, Lisboa, 2010.

domingo, 8 de agosto de 2010

MIGUEL CARDOSO

[É PORVENTURA IMPOSSÍVEL]


É porventura impossível
apercebermo-nos disto muito claramente.
Há outras maneiras, mesmo no rumor
com que os gestos se adiantam ao saber.
Assim se abranda um pouco a cegueira dos dias.
Porque apesar de tudo.
Experimenta chocalhar
o ouvido como se cavasses trincheiras
entre as notas, antecipa as incontinuidades,
cuida da imprecisão
como se fosse a mais exacta ciência.
Algures entre o torcer da língua
e o derrapar dos pés.
Afinar esta dança não é a menor das nossas tarefas.
Estou certo que já alguém o disse
(mesmo que o não soubesse):
Não conheço violência mais delicada
ou delicadeza mais bruta.


Que se Diga que Vi como a Faca Corta, Mariposa Azual, Lisboa, 2010.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

JORGE GOMES MIRANDA

2.


No bar da estação de serviço
apenas sandes de véspera e refrigerantes
em lata, quando perguntei.
Escolheste uma mesa dos fundos,
onde a conversa fluiria sem olhares predadores.
Abandonaras Matemática havia dois anos,
a meio do curso, para viajar à boleia pela Europa.
Sem pai nem mãe por perto,
um espírito romântico presidia a todos os teus actos.
O tempo, orgulhoso canibal,
confirmaria o que ninguém ainda te ensinara:
mapas, estrelas, horários, viagens
são outro modo de dividir a solidão
por muitos lugares, o amor fortuito
uma subtracção dourada.


Postos de Escuta, Editorial Presença, Lisboa, 2003.

domingo, 1 de agosto de 2010

RUI PEDRO GONÇALVES

[ATALHEI A NOITE]


Atalhei a noite,
Tentei chegar ao trilho mais certo dos teus passos
Caminhando no cerejal.
A velha casa era agora um borrão no crepúsculo,
Lembrava-me a fúria das crianças em louca correria.

Percorri, às apalpadelas, o quarto escuro, produzido pela idade
E foi aí que pedi a Purviance um copo de água.
Ela adiantara um torrão de açúcar para que a memória
Não fosse um frango fugido do galinheiro.

Alimentara-me de tudo isso, e nem o teu corpo encontrara
Para que a aventura fosse mais doce,
Mais secreta de certezas.
Sentira-me envergonhado por ser surpreendido
Quando te procurara
Tacteando uma imagem para ti.

Olhei pela janela.
Vi os ciganos em viagem em direcção ao sul.
Não sei se ias.
Não sei.

Eu fui.


Nitratos do Chile, Língua Morta, Lisboa, 2010.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

MARGARIDA VALE DE GATO

CAT PEOPLE


Curiosa a tribo que formamos, sós
que somos sempre e à noite pardos,
fuzis os olhos, garras como dardos,
mostrando o nosso assanho mais feroz:

quando me ataca o cio eu toda ardo,
e pelos becos faço eco, a voz
esforço, estico e, como outras de nós,
de susto dobro e fico um leopardo

ou ando nas piscinas a rondar –
e perco o pé com ganas sufocantes
de regressar ao sítio que deixei

julgando ser mais fundo do que antes.
A isto assiste a morte, sem contar
as vidas que levei ou já gastei.


Mulher ao Mar, Mariposa Azual, Lisboa, 2010.

domingo, 25 de julho de 2010

INÊS LOURENÇO

PARA UM LIVRO


O tempo que passei fechado sem
nenhum leitor justificou ser
imolado pelas traças.


Coisas que Nunca, & etc, Lisboa, 2010.