domingo, 27 de fevereiro de 2011

JOSÉ MIGUEL SILVA

FALA CIRCE


Três e meia da manhã.
É inútil procurar o candeeiro.
No estuque da insónia,
o filme recomeça.
Que fim será o fim?

Pretéritos prazeres,
cigarros consumidos
– é isto o coração:
um cinzeiro de metal?
Preferia não fumar.

Quero tanto o teu amor
que termino a odiar-me.
Quem me dera ser o Rambo,
saber sempre o que fazer ao inimigo.
Não sei por que sorrio,

quando tudo o que me resta é a magia
que me traz o Halcion: sonhar
que não existes, nem o filme,
nem o fumo, nem o frio, nem o fosco
cinzeiro de metal.


Poemas com cinema [de Ulisses já não mora aqui], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

ALBERTO PIMENTA

[QUE PUS A HIPÓTESE]


que pus a hipótese
de não ser
afinal um sonho
mas de estar no cinema a ver
um filme japonês
com as máscaras
as cabeças rapadas
a guincharia
os cânticos
acompanhados
pelos sistros
ou então seria um filme
americano
eu tinha naturalmente adormecido
e agora
estava a sonhar

mas era um recitativo alto
e logo ali no cinema
não podia ser
só se o ruído da tosse
dos rebuçados e das conversas
para saber se o bacalhau
já estaria no ponto
permitissem
esta comunicação paralela
não sei

mas também não sei
se pus esta hipótese
mais tarde
já acordado
isto admitindo
que nalgum momento do sonho
eu acordei
ou agora mesmo que estou a dizê-lo
ou no momento
do sonho
caso isto fosse sonho
ou do filme
caso isto fosse filme

era inquietante
sem dúvida
porque o recitativo lembrava
digo eu agora
ou lembrou-me no sonho
ou no filme
um músico de Pergamo


Poemas com cinema [de Autobiographie mutuelles 2], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

JORGE GOMES MIRANDA

ARTE POÉTICA

"You have to have been in love to write poetry"
RAYMOND CARVER

Tens que ter sentido medo
angústia, desolação
pois para falar do amor
sem metáforas estivais
é preciso ter vivido em quartos lívidos,
onde um espelho,
um olhar de viés,
um sapato arremessado
prenunciam o poema.


Pontos luminosos, Averno, Lisboa, 2004.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

RUI PIRES CABRAL

FORA DO LUGAR

para a Daniela

A dor é uma desordem inimiga
das palavras com o silêncio todo fora
do lugar. Saberemos tomar um caminho
por essa floresta escura? Poderemos
sequer recuperar a pequena bússola partida,
a caneta e o papel, as nossas certezas
de trazer no bolso?

Não nos avisaram contra o medo,
não nos disseram que pode chegar
a qualquer hora, deslealmente,
enquanto o sol dorme na paisagem e as ervas
se levantam para receber o Verão. E agora
que quase nos perdemos, sem mapa ou sentido
que nos sirva, o nosso único guia é o amor
dos que nos esperam numa sala branca
onde o chão nos falta e não há estações.


Periférica, n.º 6, Vila Pouca de Aguiar, 2003.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

ANNA MAGNANI


A mãe de Luis Buñuel, no fim da vida,
folheava revistas, página por página,
não reconhecia os filhos, placa giratória
em torno da qual os objectos se instalavam
ou, de súbito, nasciam. A mãe de Luis
Buñuel, no fim da vida, feita um aviso.

A luz inclina-se nos telhados de Lisboa,
assegurando que nem um sopro condensa
no negativo. Há noites em que conseguimos
alcançar uma tristeza comum: a cadela
mordisca a pata, eu fumo um cigarro.
Do enquadramento resulta a insensatez do equilíbrio:

uma greta de frieiras, o cieiro nos lábios,
a maldade que resiste numa máquina eléctrica,
desligada. Escrevo à luz das velas,
haverá linhas baralhadas. Um comércio
de sucedâneos, de imitações rasteiras
de vigarices caducas, tem dourado o século.

Não têm conta os utensílios baratos
que se podem comprar, até a crédito.
Finge-se que não se percebe. Como sofrer,
sem reclamar o sofrimento? Um rosto que exige
renúncia, a fé toda que foi extraviada,
um abismo, de olhos enxutos.


Poemas com cinema [de Peças desirmanadas e outra mobília], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

FERNANDO DE CASTRO BRANCO

NÁUFRAGO


"Esperas que te digam que ainda não morreste".
Este verso naufragou faz tempo no meio de um poema
mau e vejo agora que mereceria melhor sorte.
Retiro-o cuidadosamente das ruínas
como quem retira do meio dos destroços
um corpo dado à costa numa praia deserta.

Deixo-o ao relento o tempo necessário
para que o sol lhe entre nos pulmões
e lhe beba a água em excesso. Se respirar
uma vez mais, quiçá para seu mal,
ensaiará o passo seguinte, integrando
ossadas de um novo cemitério


A caminho de Avoriaz, Cosmorama, Maia, 2011.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

NATAL EM OZIÓRSSK


Ainda estou vivo, apesar de enterrado
numa província do antigo império.
Estou nos Urais, na cidade de Oziórssk –
...cidade dos lagos –
trabalho muito e ganho pouco. Tenho o
meu apartamento de duas assoalhadas onde
faço obras há três meses sem parar. Temos
aqui muita neve e muito frio e os ursos
não lêem a poesia portuguesa, nem a russa.
Estou no lado oposto da Europa, a 40
kms da Ásia... mas na Europa. (Somos um
bocado europeus.) Não vejo hipótese de
ir para Portugal até um milagre qualquer
acontecer, mas não vale a pena ter pena de
mim, eu tinha muitas saudades da neve.
Digo-te, por isso, um bom natal.
Oziórssk, dezembro de 1995.


Versos e prosas em forma de Natal [de Não é certo este dizer], Relógio d'Água, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

POESIA INCOMPLETA

sábado, 29 de janeiro de 2011

INÊS LOURENÇO

VELHO CELULÓIDE


Caixeirinhos de Grandela,
costureirinhas da Sé, futuras
mães de família obesas, trinados
de meninas da rádio, saloias
românticas, lavradores de
cena, pais tiranos, casas
apalaçadas, serviçais complacentes,
negreiros de boa alma, algumas
tabernas e algumas guitarras.

Pontos culminantes:
o triunfo internacional do
artista ignoto à frente de um
postal do Arco de Triunfo, da Torre
de Londres ou de alguns
arranha-céus. Os beijos
à cinema, seguidos de grandes
planos da paisagem no Fim
que acaba bem o ecrã a preto
e branco em enorme letra gótica,
eles casam.


Poemas com cinema [de Logros consentidos], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 23 de janeiro de 2011

ROSA ALICE BRANCO

NAS FOLHAS DE CHÁ


Estamos de passagem mas em caso algum
esqueceremos o orvalho. Os nossos poros
ossificaram o sangue, é o que a terra diz:
– o alcatrão não é o meu vestido de luto,
mas a pele irrespirável da minha carne.
Agora quem vai querê-la por noiva?
As grinaldas estão cheias de poeira e a
marcha nupcial desafina as estrelas.
O sol feito de gasolina na nossa pele
de verão apodrece depressa nas rugas.
Ainda ris por entre as frestas negras
e deixas entrever outro destino nas folhas
de chá. Mesmo assim o teu cadáver
é belo entre as flores do campo que resta
e o fumo do comboio que te cinza.
O orvalho é uma palavra dócil. Às primeiras
horas quando os despojos se deixam invisíveis
ainda me extasias como a uma princesa a florar
a erecção inicial antes da radiografia pulmonar.
Não choramos por nós quando te morremos?


Saudade: revista de poesia, n.º 12, Associação Amarante Cultural, Amarante, 2010.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

FERNANDO ECHEVARRÍA

O VAGAR FOI DESCENDO SOBRE AS CASAS


Tinham a luz retida no outeiro
e a tarde de Março a sustentá-las,
envoltas no esplendor do seu sossego.
Em baixo, o rio quase parava.
Era o mar a subir, mas muito lento.
Como se houvesse pelo azul das águas
um defluxo recíproco movendo
luzes poentes e paletas gastas,
onde já se destaca a de ouro velho.
E, depois, o vagar ainda baixa,
enquanto um arrepio arrisca certo
uma ríspida ruga, apenas clara
porque a secunda o céu azul. O resto
deve-se às sombras que se alongam, graças
ao contraluz desfigurando o outeiro.


Saudade: revista de poesia, n.º 12, Associação Amarante Cultural, Amarante, 2010.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

HELDER MOURA PEREIRA

BROTHERS ON WHEELS


Viajas um pouco acima
da fixa viagem
da terra, eu sou
o teu amigo, o irmão
que nunca saiu
e regressou.
Mar e mãe se enredavam
por coisas de sangue
e confronto, presos animais
de fumo e noite.
E motores ao corpo
dos heróis, depressa
passam, facas
na pele ardendo.
Eu visto
as tuas camisolas
e a vida que viveste
já a tenho. Quero
que o teu murmúrio
me perturbe, a voz
é um ponteiro
sobre o tempo, os peixes
não deixam de bater
nos vidros.


Poemas com cinema [de Esta passagem], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

JORGE DE SOUSA BRAGA

MORTE EM VENEZA


De muitas coisas se pode morrer
em Veneza
De velhice de susto
de peste

ou de beleza


Poemas com cinema [de O poeta nu], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

MANUEL ANTÓNIO PINA

A ILHA NUA
(Depois de ter visto o filme «A ilha nua», de Kaneto Shindo)


animal passageiro a quem já sobra
dentro da boca o susto da viagem
tu que com cuspo aprendes a paisagem
e és o juro que a usurária cobra

animal educado a quem a dor
repete intimamente e habitua
e tão intimamente continua
a breve continência exterior

tu que passas sem pressas sem assombros
e que afogas na sede que te apresa
teu líquido senhor que pesa pesa
nos teus cristóvãos portugueses ombros

tu que com sono a glabra ilha lavras
e com o sonho avidamente a usas
na dura arquitectura das palavras
tu que tudo te dura das palavras


Poemas com cinema [de Ainda não é o fim nem o princípio do Mundo calma é apenas um pouco tarde], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

MANUEL DE FREITAS

5 010509 001229


É o que se chama um "higiénico": latas,
comida feita e embalada, whisky,
cerveja ou vinho (quando não os três).
Deve beber-lhe bem e mudar pelo menos
duas vezes por semana a areia ao gato.
É tímido, inseguro e – por isso mesmo –
extremamente rápido a arrumar as compras.
Vai pagar outra vez com cartão. Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante de leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.

Mas para quê tantas palavras? Bastava-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz.
Escusava era de maçar a gente
com o que sofre ou deixa de sofrer.

A minha sabedoria é muda, desumana:
um dia enlouqueço ou fico para sempre presa
a um pesadelo sentado, com barras transparentes.


Isilda ou a nudez dos códigos de barras, Black Sun Editores, Lisboa, 2001.

domingo, 2 de janeiro de 2011

LYRICA


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[AQUILO QUE NOS TIRA O SONO]


Aquilo que nos tira o sono
e nos põe a pensar na morte
com uma farpa cravada no ombro
e o jornal fechado no Desporto
são as vizinhas inacessíveis.
Bezerras imaturas, figurantes de cena
nesta quinta pedagógica. Rapa,
tira, põe, nas cidades desertas
de coração: «-se bem!»


O homem quase novo, Frenesi, Lisboa, 2010.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

SOLEDADE SANTOS

E NO ENTANTO O DIA É FUNDO


O horizonte abre-se na cal que maio lava
e no entanto o dia é fundo
de armários, invernos e cheiros
a madeira encerada.
No côncavo de maio existem
antigos sons de respiração,
crianças perdidas no escuro
procurando saídas que não encontram.
Lembro-me –
eu brincava no vão da escada
e vieram dizer (seria maio
ou julho talvez) a mãe morreu.


Sob os teus pés a terra, Artefacto, Lisboa, 2010.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

ANTÓNIO RAMOS ROSA

[PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE UM RELÓGIO]


Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.


Poemas portugueses [de Viagem através de uma nebulosa], org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora, 2009.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

VASCO GATO

[OS NAVIOS DESMANCHAM-SE SOBRE O CAIS]


Os navios desmancham-se sobre o cais, contornam-se uns aos outros como grandes doenças. Fotografo a cidade a pensar nesses navios, na sua condição de lepra serena. As pontes alçam-se, os rádios difundem canções francesas que não sabemos se existem. Os navios. E nós, como eles, apitando longamente a nossa partida, para que nos acenem mãos francesas ou polacas, para que um lenço conserve subtil a memória desta nossa discreta, fatídica expedição.


Rusga, Trama, Lisboa, 2010.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

RUI CAEIRO

[TODOS OS DIAS LOGO PELA MANHÃ]


Todos os dias logo pela manhã
as palavras

A cansada surpresa de estar vivo
as palavras


Baba de caracol (2.ª edição), Língua Morta, Lisboa, 2010.

domingo, 12 de dezembro de 2010

HENRIQUE FIALHO

POEMAS


Venham ver sob que luzes surgem os poemas, em que leitos navegam as palavras desabridas.
Venham ver a força desta corrente na rebentação da névoa.
Se entre as duas margens conseguirem avistar o que se esconde na neblina, então vejam como tudo baila sem que um único músculo se mova.


Estranhas criaturas, Deriva, Porto, 2010.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

ADÍLIA LOPES

[CHEGO CEDO AO CAFÉ]


Chego cedo ao café
à hora a que estão a entrar
as batatas e as cebolas
os legumes dão-me paz


Apanhar ar, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 5 de dezembro de 2010

JOSÉ MIGUEL SILVA

FIESOLE

Para a Anabela Vara Alves

Eu pensava que ser rico se cifrava
na licença de comprar todos os livros
que quisesse, sem credores nem arrepios
no estômago, e ter tempo para ler
duzentas páginas por dia, mais as duas,
três semanas de museus e passeatas
anuais por latitudes europeias.

As viagens propiciam o descaso,
certamente, de razão e sentimento.
Doutro modo não se explica que
assim que vi as casas de colina
que rodeiam Fiesole tenha logo
reduzido de seis maços para cinco
a minha dose de cigarros semanal.


Erros individuais, Relógio d'Água, Lisboa, 2010.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

MIGUEL MARTINS

XVII


Eu quero ter um bar de estrada numa estrada pouco frequentada. Um lago atrás para mergulhar a vista, e os mantimentos de uma aldeia em extinção. Os Lusíadas mudos a um canto, e ciber-melancias sempre à mão.


Proibida a entrada a animais (excepto cães-guia), Língua Morta, Lisboa, 2010.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS

[O PARTO DE UMA PEDRA]


O parto de uma pedra
é realmente um espectáculo
para uma vida inteira.

E há ainda o sol
e a sua vergonhosa incompatibilidade
com a lua.

Mas hoje estou triste como se fosse poeta
e é à sombra do vento que me acolho
puxando para os ombros
a nudez da paisagem.

Vêm os violinos
de muito longe
ouvir a neve.


Poemas portugueses [de Eu falo em chamas], org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora, Porto, 2009.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

OS DIAS DE BRUEGEL


Os campos estão lavrados, mesmo sob a
neve do inverno permanecem
estendem o horizonte de terra fértil e a ave
marinha voa sobre o íris amarelo

estão armados os cavaleiros d'áustria e de
filipe segundo, rei espanhol,
massacram os inocentes, o sentido das vidas
a história de imaginada Flandres

dão o passo sobre a branca paisagem os
caçadores, desliza na água do degelo
uma barca de improviso, mas logo

desce de novo a luz do outono sobre a aldeia e o
silêncio, cor do inverno. (Acontece,
há caminhos mais longos do que
outros. O destino a que

é suposto chegarmos está desenhado à
partida. Desculpa ser tão bruto – o destino,
triunfo da morte.)


Sobre mármore, Teatro de Vila Real, 2010.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

TIAGO ARAÚJO

(SJ-06)


as formas de conhecer-te são só duas
ou três; esta é a que demora mais tempo.
a chuva parou e continuamos distraídos neste
amor de cabotagem, nunca demasiado
longe ou perto da carne e dos órgãos que uma
abóbada de ossos protege. cumprimos
a liturgia das horas, repetida sem convicção ou
eficácia, e por vezes as palavras começam
a fazer sentido, como os gestos com que
te aproximo de mim, com uma só mão
e algum sono. uma navegação lenta,
familiar e confortável, porque
essa é a melhor forma de te conhecer
os dedos e o modo como os usas
para fazer tranças às horas, como quem
tece cabelos ou desfia um rosário
sem murmúrios, apenas a técnica de rodar
terços e mistérios no fundo da mão
para entreter os pretendentes e
esperar que eu regresse das longas
viagens – dez anos de cada vez –
em que me ausento sem sair de casa.
esta tarde estive em Lisboa e trago-te maçãs
vermelhas de uma mercearia da rua dos Lusíadas,
com as quais tenciono adormecer-te (como
na história que contamos todos as noites), porque
é essa a única forma de te conhecer
os medos e interpretar os sonhos, escrever
ao teu lado, enquanto dormes, a lista
das tarefas diárias com que nos ocupamos a
matar o tempo.

Criatura, n.º 5, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2010.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A. M. PIRES CABRAL

NORDESTE


Quien sujeta la brújula ve
ocho direcciones de mundo,
ocho maneras de estar.

El octavo es el Nordeste.


En algún lugar al nordeste [Algures a nordeste, traduzido para castelhano por José Luis Puerto e Jésus Losada], Celya, Salamanca, 2010.

domingo, 7 de novembro de 2010

VÍTOR NOGUEIRA

NOITE


Os gestos mudaram, a iluminação também.
Conseguimos esconder-nos atrás de nós mesmos.
A noite, como sempre, vai servindo para esperar.
De que se vive, afinal? De que se morre?


Quem diremos nós que viva?, Averno, Lisboa, 2010.