quarta-feira, 13 de abril de 2011

FERNANDO PINTO DO AMARAL

AZUL


Um dia hás-de nascer fora de ti
num sobressalto novo deste céu
onde se afoga a luz da madrugada
já sem nenhuma estrela que te aceite
a translúcida febre das palavras.
Um dia hás-de romper os cegos nós
do monstro a que chamavas coração,
o antigo labirinto que te ilude
a inocente máquina do corpo
na escuridão dos passos desastrados
em busca de um azul que te conheça.
Um dia hás-de falar sem dizer nada
que o mundo compreenda e será teu
esse primeiro azul da madrugada.


Saudade: Revista de poesia, n.º 11, Associação Amarante Cultural, Amarante, 2009.

terça-feira, 5 de abril de 2011

JAIME ROCHA

[O HOMEM VÊ UMA MANCHA AO FUNDO A]


O homem vê uma mancha ao fundo a
mexer-se na sua direcção. É a barca de
Caronte que regressa. A terra engrossa
quando a água é empurrada e o homem
devorado pelo lixo. Os seus pulmões
enchem-se de vazio e morrem, como dois
milhafres deitados num campo de sal. A sua
dor tornou-se mais forte do que as raízes que
rompem o alcatrão. Uma coisa não pássaro
o que ele vê, um vidro a nascer dos socalcos,
um crepúsculo.


Resumo: A poesia em 2010 [de Necrophilia], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio e Alvim, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 31 de março de 2011

ARMANDO SILVA CARVALHO

SE TU POTEVI, O SOL DA QUELLA VISTA


Meu caro, a inércia é filha do frio, este filho do tempo,
Pai de todos os males.
Tenho dentro de mim um meteorologista
Disfarçado de poeta húmido.

O sol que tanto reverenciei em puro êxtase,
E cantei como se ele fora
A aurora do futuro
Mudou-se por mim em lua despeitada.

Esconde-se essa senhora,
Umas vezes altiva, outras vezes submissa,
Troca de face, de porte, de vestido,
Não me sabe entender no meu pensar sisudo.

Não sabe ou então sabe de mais,
Que a minha cabeçorra não vislumbra a ciência
Que ma desvela pálida,
Ou amareladamente inquietante.

Emimesmado estou, que é o mais correcto
Para quem de si só cuida conhecer o pouco
Que os deuses autorizam. Não durmo, não me atino
E queixo-me de tudo.


Resumo: A poesia em 2010 [de Anthero, areia & água], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

terça-feira, 29 de março de 2011

ANTÓNIO BARAHONA

PULSAÇÃO


Perene é ser soneto: eis do futuro,
essa canção com oitocentos anos:
sábios, mil sons ecoam bons sopranos,
no timbre d'árias tensas de ouro puro.

Catorze versos a fundir degraus
(ligas de cobre e prata e elixir)
refeitos pra durar até que expire
seu último cantor, à flor do caos.

Perene é ser soneto, que reside
na cópia à rasa essencial do verbo:
tal como a roda, o cubo e o triângulo,

vem inscrito no código soberbo
de quem tece um casulo e sente livre
o sopro do seu sangue num coágulo.


Resumo: A poesia em 2010 [de Criatura, n.º 5], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

sábado, 26 de março de 2011

ADÍLIA LOPES

[NESTE DIA CINZENTO]


Neste dia cinzento
procuro um verso
e não encontro
não tem importância


Resumo: A poesia em 2010 [de Apanhar ar], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

terça-feira, 22 de março de 2011

MANUEL VAZ DE CARVALHO

FUNERAL


Meu velho cão, quero que vás ao meu enterro!
Mas nada de lamúrias, a uivar...
Irás contar quando, de serro em serro,
Apátridas, libertos, par a par.

Por fragadas do demo e da esconjura
Vales dormentes, touceiros devassando,
À senda, nem eu sei, de que aventura,
Fomos na vida efémera sonhando...

Irás! Quero levar de perto o teu focinho!
E ao voltares, de olhos tristes, ao teu ninho
Terás sempre presigo e regalia...

E se quem me ficar for de justiça
Terás também inteira a linguiça
Da qual só te calhava a pele vazia.


Poemas do Solstício, Câmara Municipal de Vila Real, 2000.

sexta-feira, 18 de março de 2011

ANTÓNIO SALVADO

NESGAS DO AZUL


Não sei se a tua voz, ou se o murmúrio
do fim da tarde que se ouvia quase
como uma gota d'água que tombasse
em calmo lago ali alheio e mudo.

Nossos olhos retinham o crepúsculo
que lentamente audaz se aproximava
e pelo céu ainda alavam pássaros
que sulcavam as nesgas do azul.

Foi um momento singular aquele
em que os sentidos todos reunidos
apelavam ao gozo do silêncio:

um instante perene de certeza
de que era fogo aquilo que vivíamos,
que não se via: bramidor ardendo.


Saudade: Revista de poesia, n.º 11, Associação Amarante Cultural, Amarante, 2009.

segunda-feira, 14 de março de 2011

EDUARDA CHIOTE

ACEITAR A PERDA


Estou a morrer e ninguém me diz se por desuso
ou educado
esquecimento.
Para onde, em segredo
deserto.
Ouve: quem sou?
O que é um poeta? Uma criança,
filha
da rima
a quem se diz não fales com a boca cheia? Tira os cotovelos
de cima da mesa?
Tantas palavras. Muitas são as que não distingo.
Branco,
por exemplo.
Embora escute branco como a neve,
uma mortalha,
o leite: Acaso, branca, a fome masculina
do teu seio
também? — Pensava que o desejo era branco.
Mas branco, branco, terrivelmente branco,
apenas o olhar
que vendo se vê demasiado
e em pura crueldade
e indiferença,
ó morte — única mãe.


Poemas portugueses [de O meu lugar à mesa], org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora, 2009.

quinta-feira, 10 de março de 2011

MIGUEL-MANSO

O FOGO, A CIDADE


às vezes sobre
as palavras pesa um dia luminoso, a clara
imprecisão de um gesto
o corpo inclina-se para a água
do poema

a roupa estas mãos o torpor da casa
quando o silêncio a morna demorosa voz
se desfazem no ritmo entontecido
do mundo

caminho descalço sobre a página
olho uma outra vez
voltando-me para trás
o fogo, a cidade


Quando escreve descalça-se (3.ª edição, revista), Trama, Lisboa, 2011.

sábado, 5 de março de 2011

MANUEL DE FREITAS

MÁRIO


"O tempo que aos outros foge
cai sobre mim feito ontem",
como dizia o outro
que não consentiu em sê-lo.
E nestes tempos de rarefacção
e escárnio uma glosa pode às vezes
dar um jeito danado — para
aqueles que ficam, claro.

Ah, Mário, quantos eléctricos
eu apanhei ou perdi
em frente à lápide sóbria
que celebra não sei se a ti
se ao abandono corriqueiro
de um escritório de aluguer...
Coisas da vida, entenda-se,
os percursos e os discursos
que confluem no trânsito homicida
de um dia qualquer, como os outros.

Enquanto Lisboa se resigna
a ser esta mistura podre
de melancolia e paz
que para mim está bem
e vai dando
para a curta viagem dos ossos.

Nos Cafés também "espero a vida
que nunca vem ter comigo",
a putéfia. Nada mudou. Nada,
Mário. Só que nos "Cafés", agora,
pedem-se empréstimos para comprar
carro e casa ou manuseiam-se discos
por sinal merdosos, propícios
a uma época que voa ao rés da Bolsa.
A vida, claro, continua sem aparecer por aqui.

Mas lepidópteros ainda há,
uivando de alegria alegre — e restos
de nada nas coisas, a chamarem-nos de tão longe
para a proximidade do fim.

Era só para te dizer isto.


Game over, & etc, Lisboa, 2002.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

JOSÉ MIGUEL SILVA

FALA CIRCE


Três e meia da manhã.
É inútil procurar o candeeiro.
No estuque da insónia,
o filme recomeça.
Que fim será o fim?

Pretéritos prazeres,
cigarros consumidos
– é isto o coração:
um cinzeiro de metal?
Preferia não fumar.

Quero tanto o teu amor
que termino a odiar-me.
Quem me dera ser o Rambo,
saber sempre o que fazer ao inimigo.
Não sei por que sorrio,

quando tudo o que me resta é a magia
que me traz o Halcion: sonhar
que não existes, nem o filme,
nem o fumo, nem o frio, nem o fosco
cinzeiro de metal.


Poemas com cinema [de Ulisses já não mora aqui], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

ALBERTO PIMENTA

[QUE PUS A HIPÓTESE]


que pus a hipótese
de não ser
afinal um sonho
mas de estar no cinema a ver
um filme japonês
com as máscaras
as cabeças rapadas
a guincharia
os cânticos
acompanhados
pelos sistros
ou então seria um filme
americano
eu tinha naturalmente adormecido
e agora
estava a sonhar

mas era um recitativo alto
e logo ali no cinema
não podia ser
só se o ruído da tosse
dos rebuçados e das conversas
para saber se o bacalhau
já estaria no ponto
permitissem
esta comunicação paralela
não sei

mas também não sei
se pus esta hipótese
mais tarde
já acordado
isto admitindo
que nalgum momento do sonho
eu acordei
ou agora mesmo que estou a dizê-lo
ou no momento
do sonho
caso isto fosse sonho
ou do filme
caso isto fosse filme

era inquietante
sem dúvida
porque o recitativo lembrava
digo eu agora
ou lembrou-me no sonho
ou no filme
um músico de Pergamo


Poemas com cinema [de Autobiographie mutuelles 2], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

JORGE GOMES MIRANDA

ARTE POÉTICA

"You have to have been in love to write poetry"
RAYMOND CARVER

Tens que ter sentido medo
angústia, desolação
pois para falar do amor
sem metáforas estivais
é preciso ter vivido em quartos lívidos,
onde um espelho,
um olhar de viés,
um sapato arremessado
prenunciam o poema.


Pontos luminosos, Averno, Lisboa, 2004.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

RUI PIRES CABRAL

FORA DO LUGAR

para a Daniela

A dor é uma desordem inimiga
das palavras com o silêncio todo fora
do lugar. Saberemos tomar um caminho
por essa floresta escura? Poderemos
sequer recuperar a pequena bússola partida,
a caneta e o papel, as nossas certezas
de trazer no bolso?

Não nos avisaram contra o medo,
não nos disseram que pode chegar
a qualquer hora, deslealmente,
enquanto o sol dorme na paisagem e as ervas
se levantam para receber o Verão. E agora
que quase nos perdemos, sem mapa ou sentido
que nos sirva, o nosso único guia é o amor
dos que nos esperam numa sala branca
onde o chão nos falta e não há estações.


Periférica, n.º 6, Vila Pouca de Aguiar, 2003.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

ANNA MAGNANI


A mãe de Luis Buñuel, no fim da vida,
folheava revistas, página por página,
não reconhecia os filhos, placa giratória
em torno da qual os objectos se instalavam
ou, de súbito, nasciam. A mãe de Luis
Buñuel, no fim da vida, feita um aviso.

A luz inclina-se nos telhados de Lisboa,
assegurando que nem um sopro condensa
no negativo. Há noites em que conseguimos
alcançar uma tristeza comum: a cadela
mordisca a pata, eu fumo um cigarro.
Do enquadramento resulta a insensatez do equilíbrio:

uma greta de frieiras, o cieiro nos lábios,
a maldade que resiste numa máquina eléctrica,
desligada. Escrevo à luz das velas,
haverá linhas baralhadas. Um comércio
de sucedâneos, de imitações rasteiras
de vigarices caducas, tem dourado o século.

Não têm conta os utensílios baratos
que se podem comprar, até a crédito.
Finge-se que não se percebe. Como sofrer,
sem reclamar o sofrimento? Um rosto que exige
renúncia, a fé toda que foi extraviada,
um abismo, de olhos enxutos.


Poemas com cinema [de Peças desirmanadas e outra mobília], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

FERNANDO DE CASTRO BRANCO

NÁUFRAGO


"Esperas que te digam que ainda não morreste".
Este verso naufragou faz tempo no meio de um poema
mau e vejo agora que mereceria melhor sorte.
Retiro-o cuidadosamente das ruínas
como quem retira do meio dos destroços
um corpo dado à costa numa praia deserta.

Deixo-o ao relento o tempo necessário
para que o sol lhe entre nos pulmões
e lhe beba a água em excesso. Se respirar
uma vez mais, quiçá para seu mal,
ensaiará o passo seguinte, integrando
ossadas de um novo cemitério


A caminho de Avoriaz, Cosmorama, Maia, 2011.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

NATAL EM OZIÓRSSK


Ainda estou vivo, apesar de enterrado
numa província do antigo império.
Estou nos Urais, na cidade de Oziórssk –
...cidade dos lagos –
trabalho muito e ganho pouco. Tenho o
meu apartamento de duas assoalhadas onde
faço obras há três meses sem parar. Temos
aqui muita neve e muito frio e os ursos
não lêem a poesia portuguesa, nem a russa.
Estou no lado oposto da Europa, a 40
kms da Ásia... mas na Europa. (Somos um
bocado europeus.) Não vejo hipótese de
ir para Portugal até um milagre qualquer
acontecer, mas não vale a pena ter pena de
mim, eu tinha muitas saudades da neve.
Digo-te, por isso, um bom natal.
Oziórssk, dezembro de 1995.


Versos e prosas em forma de Natal [de Não é certo este dizer], Relógio d'Água, Lisboa, 2010.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

POESIA INCOMPLETA

sábado, 29 de janeiro de 2011

INÊS LOURENÇO

VELHO CELULÓIDE


Caixeirinhos de Grandela,
costureirinhas da Sé, futuras
mães de família obesas, trinados
de meninas da rádio, saloias
românticas, lavradores de
cena, pais tiranos, casas
apalaçadas, serviçais complacentes,
negreiros de boa alma, algumas
tabernas e algumas guitarras.

Pontos culminantes:
o triunfo internacional do
artista ignoto à frente de um
postal do Arco de Triunfo, da Torre
de Londres ou de alguns
arranha-céus. Os beijos
à cinema, seguidos de grandes
planos da paisagem no Fim
que acaba bem o ecrã a preto
e branco em enorme letra gótica,
eles casam.


Poemas com cinema [de Logros consentidos], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 23 de janeiro de 2011

ROSA ALICE BRANCO

NAS FOLHAS DE CHÁ


Estamos de passagem mas em caso algum
esqueceremos o orvalho. Os nossos poros
ossificaram o sangue, é o que a terra diz:
– o alcatrão não é o meu vestido de luto,
mas a pele irrespirável da minha carne.
Agora quem vai querê-la por noiva?
As grinaldas estão cheias de poeira e a
marcha nupcial desafina as estrelas.
O sol feito de gasolina na nossa pele
de verão apodrece depressa nas rugas.
Ainda ris por entre as frestas negras
e deixas entrever outro destino nas folhas
de chá. Mesmo assim o teu cadáver
é belo entre as flores do campo que resta
e o fumo do comboio que te cinza.
O orvalho é uma palavra dócil. Às primeiras
horas quando os despojos se deixam invisíveis
ainda me extasias como a uma princesa a florar
a erecção inicial antes da radiografia pulmonar.
Não choramos por nós quando te morremos?


Saudade: revista de poesia, n.º 12, Associação Amarante Cultural, Amarante, 2010.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

FERNANDO ECHEVARRÍA

O VAGAR FOI DESCENDO SOBRE AS CASAS


Tinham a luz retida no outeiro
e a tarde de Março a sustentá-las,
envoltas no esplendor do seu sossego.
Em baixo, o rio quase parava.
Era o mar a subir, mas muito lento.
Como se houvesse pelo azul das águas
um defluxo recíproco movendo
luzes poentes e paletas gastas,
onde já se destaca a de ouro velho.
E, depois, o vagar ainda baixa,
enquanto um arrepio arrisca certo
uma ríspida ruga, apenas clara
porque a secunda o céu azul. O resto
deve-se às sombras que se alongam, graças
ao contraluz desfigurando o outeiro.


Saudade: revista de poesia, n.º 12, Associação Amarante Cultural, Amarante, 2010.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

HELDER MOURA PEREIRA

BROTHERS ON WHEELS


Viajas um pouco acima
da fixa viagem
da terra, eu sou
o teu amigo, o irmão
que nunca saiu
e regressou.
Mar e mãe se enredavam
por coisas de sangue
e confronto, presos animais
de fumo e noite.
E motores ao corpo
dos heróis, depressa
passam, facas
na pele ardendo.
Eu visto
as tuas camisolas
e a vida que viveste
já a tenho. Quero
que o teu murmúrio
me perturbe, a voz
é um ponteiro
sobre o tempo, os peixes
não deixam de bater
nos vidros.


Poemas com cinema [de Esta passagem], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

JORGE DE SOUSA BRAGA

MORTE EM VENEZA


De muitas coisas se pode morrer
em Veneza
De velhice de susto
de peste

ou de beleza


Poemas com cinema [de O poeta nu], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

MANUEL ANTÓNIO PINA

A ILHA NUA
(Depois de ter visto o filme «A ilha nua», de Kaneto Shindo)


animal passageiro a quem já sobra
dentro da boca o susto da viagem
tu que com cuspo aprendes a paisagem
e és o juro que a usurária cobra

animal educado a quem a dor
repete intimamente e habitua
e tão intimamente continua
a breve continência exterior

tu que passas sem pressas sem assombros
e que afogas na sede que te apresa
teu líquido senhor que pesa pesa
nos teus cristóvãos portugueses ombros

tu que com sono a glabra ilha lavras
e com o sonho avidamente a usas
na dura arquitectura das palavras
tu que tudo te dura das palavras


Poemas com cinema [de Ainda não é o fim nem o princípio do Mundo calma é apenas um pouco tarde], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

MANUEL DE FREITAS

5 010509 001229


É o que se chama um "higiénico": latas,
comida feita e embalada, whisky,
cerveja ou vinho (quando não os três).
Deve beber-lhe bem e mudar pelo menos
duas vezes por semana a areia ao gato.
É tímido, inseguro e – por isso mesmo –
extremamente rápido a arrumar as compras.
Vai pagar outra vez com cartão. Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante de leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.

Mas para quê tantas palavras? Bastava-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz.
Escusava era de maçar a gente
com o que sofre ou deixa de sofrer.

A minha sabedoria é muda, desumana:
um dia enlouqueço ou fico para sempre presa
a um pesadelo sentado, com barras transparentes.


Isilda ou a nudez dos códigos de barras, Black Sun Editores, Lisboa, 2001.

domingo, 2 de janeiro de 2011

LYRICA


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[AQUILO QUE NOS TIRA O SONO]


Aquilo que nos tira o sono
e nos põe a pensar na morte
com uma farpa cravada no ombro
e o jornal fechado no Desporto
são as vizinhas inacessíveis.
Bezerras imaturas, figurantes de cena
nesta quinta pedagógica. Rapa,
tira, põe, nas cidades desertas
de coração: «-se bem!»


O homem quase novo, Frenesi, Lisboa, 2010.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

SOLEDADE SANTOS

E NO ENTANTO O DIA É FUNDO


O horizonte abre-se na cal que maio lava
e no entanto o dia é fundo
de armários, invernos e cheiros
a madeira encerada.
No côncavo de maio existem
antigos sons de respiração,
crianças perdidas no escuro
procurando saídas que não encontram.
Lembro-me –
eu brincava no vão da escada
e vieram dizer (seria maio
ou julho talvez) a mãe morreu.


Sob os teus pés a terra, Artefacto, Lisboa, 2010.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

ANTÓNIO RAMOS ROSA

[PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE UM RELÓGIO]


Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.


Poemas portugueses [de Viagem através de uma nebulosa], org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora, 2009.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

VASCO GATO

[OS NAVIOS DESMANCHAM-SE SOBRE O CAIS]


Os navios desmancham-se sobre o cais, contornam-se uns aos outros como grandes doenças. Fotografo a cidade a pensar nesses navios, na sua condição de lepra serena. As pontes alçam-se, os rádios difundem canções francesas que não sabemos se existem. Os navios. E nós, como eles, apitando longamente a nossa partida, para que nos acenem mãos francesas ou polacas, para que um lenço conserve subtil a memória desta nossa discreta, fatídica expedição.


Rusga, Trama, Lisboa, 2010.