quinta-feira, 18 de agosto de 2011

ALBERTO PIMENTA

[EU NÃO FAÇO SENÃO]


eu não faço senão
aquilo que é permitido
e está consagrado
na legislação fundamental da guerra
ou seja retaliar
pois se eu não os pusesse a mexer
mesmo sem pernas
enquanto trauteava
as velhas canções dos camaradas mortos
então eram eles que me fariam
o mesmo a mim
e eu não aprecio marchas fúnebres
nem bem garganteadas
por algum coro de qualidade
como o dos meninos órfãos de Viena
ou é Viana
para o caso
isso agora já nem altera nada


[...]

Reality show ou a alegoria das cavernas, Mia Soave, Lisboa, 2011.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

HERBERTO HELDER

[A ACERBA, FUNDA LÍNGUA PORTUGUESA]


a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão térmica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso



Poemas portugueses [de A faca não corta o fogo], org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora, Porto, 2009.

sábado, 13 de agosto de 2011

MANUEL VAZ DE CARVALHO

1921-2011


domingo, 7 de agosto de 2011

GOLGONA ANGHEL

[ONTEM, EM CASA DE MADAME POMPIDOU]


Ontem, em casa de Madame Pompidou,
quando passei, levando para a ceia
sardinhas e bohémias,
estava sentado, conversando contigo,
por debaixo de um molho de velas cor-de-laranja,
um senhor ruivo, de testa alta,
que me seduziu de imediato,
talvez por lhe pressentir,
apesar de tão enterrado no cadeirão do Ikea,
um raro charme
ao mover-se com o plúmbeo peso das estátuas.

Quem era? Suponho que nos acaba de chegar
do fundo dos lagos da Noruega,
porque não recordo tê-lo ainda avistado na esquina dos
estudantes Erasmus, no Bairro Alto.
Porque é que não pedi uma breve introdução ao tema?
Nem sei. Talvez o requinte em retardar,
que fazia com que o marquês de La Fayette,
dirigindo-se para a flor do seu desejo,
tomasse séculos a chegar à hora H.
Sabe o que dava tanta pica à hora H,
nos tempos do rei Artur? Não sabe... Pois,
resultados de não lerem
Geoffroy de Monmouth (séc. XIII).

O facto é que depois desses momentos de contemplação
intermitente
voltei à perfeição da minha sardinha.
Na pátria de Alexandre Herculano
e no idioma de Gonçalo Dias,
misturava desajeitadamente
as rudes entranhas do peixe
com os finos olhares do senhor
como quem se atreve a misturar
foie gras com Brigitte Bardot.
Podia ter dito alguma coisa.
Podia, enfim, ter escrito um soneto.
Mas não foram estes floreados rimados
que mais prejudicaram o Dante aos olhos de Beatriz?
Não dizia a própria Laura que Petrarca podia ter tido acesso
às suas graças se não falasse demais?
Sem dúvida, tudo isto não está escrito
na obra de Petrarca,
mas o Dom Quixote insiste em confirmar a história.

Tudo tende à efabulação no nosso país
e é com estes elementos alegres
que nós procuramos,
se não restaurar o império de África,
ao menos celebrar os santos populares.


Vim porque me pagavam, Mariposa Azual, Lisboa, 2011.

domingo, 31 de julho de 2011

FERNANDO GUIMARÃES

VENTO


Estamos ainda longe. Quase nada se pode encontrar. Talvez
nos tenham prometido qualquer coisa, mas não o sabemos. À volta
ficam algumas casas abandonadas, estes arbustos, um pouco de areia
espalhada para que os nossos passos tenham apenas um destino
que se desconhece. Vinha o silêncio ao nosso encontro e o que existe
principia a ganhar uma fragilidade que se torna maior. Tudo
há-de ser tão leve agora para nós como um reflexo que chega
dessa ausência. Caminharemos um pouco mais. De novo
procuramos uma recordação, a passagem do vento, o seu olhar.


As raízes diferentes, Relógio d’Água, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[DEPOIS HÁ UNS TIPOS SIMPÁTICOS]


Depois há uns tipos simpáticos
que se põem assim como que de lado,
hieroglificamente a assistir
ao espectáculo do espectáculo

dos sacrifícios, e bolsam com a bolsa
cheia de conjecturas e trans-
versalidades para a benemerência
do raquítico pensamento nacional.


Averbamento, & etc, Lisboa, 2011.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

RUI CAEIRO

[O NOSSO AMOR NÃO É COISA QUE SE APRESENTE]


O nosso amor não é coisa que se apresente
a uma sociedade como esta cujas exigências
stop que é do nosso amor que se trata
o nosso amor cheira a folhas podres de Outono
e quanto a reverdecer vou ali e já venho
o nosso amor está de rastos e como há-de ir
o nosso amor coelho esfolado o nosso amor
disco partido o nosso amor rato morto o nosso
amor ovo cozido ovo estrelado porque isso tanto faz
o nosso amor osso esburgado o nosso amor
brinquedo que um menino esventrou e não sabe
agora como é que vai poder consertar
o nosso amor chá de tília choque
anafilático paragem cardíaca
mas nosso amor apesar de ou nosso amor
tudo e mais alguma coisa o nosso amor
cinco sentidos viste-o ouviste-o tocaste-o
cheiraste-o degustaste-o o nosso amor
seja ou não seja e esteja ou não esteja
ele é para já e largamente quanto basta


O quarto azul e outros poemas, Letra Livre, Lisboa, 2011.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

JORGE FALLORCA

[ARRUMO OS LIVROS]



Arrumo os livros; desfaço o saco e penduro a roupa nas costas das cadeiras. Um roupeiro é muito tempo.


Nem sempre a lápis, Tea For One, Lisboa, 2011.

domingo, 17 de julho de 2011

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

CRÓNICA


Uma gripe que se arrasta,
um jantar que ficou azedo,
uma lembrança por enganosa,
um empenho que não vale o que custa.
Para outra altura fica o resumo
dos milagres, o relato dos prodígios,
a prova derradeira da falência dos humores.

Agora, mais do que antes, os artistas
têm pressa e o demiurgo acordou;
o espírito afundou-se nas águas.
Amanhã quem acordar cedo terá
mais tempo para se arrepender.


Telhados de Vidro, n.º 15, Averno, Lisboa, Junho de 2011.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

MANUEL DE FREITAS

MOTET POUR LES TRÉPASSÉS


Este poema seria teu, Inês,
se não fosse de ninguém.
Ao chegarmos de Lisboa,
depois da paragem ritual
no Café Lisbela — onde tudo
se compra e tudo se perde —,
vimos uma cadeira de rodas
à venda, uma motorizada
ao lado, uma igreja vazia
da qual certamente gostariam
Andrei Tarkovsky, Tonino
Guerra ou Ana Teresa Pereira.

A poucos metros dali, o meu pai
morria, tentava penosamente resistir
a uma hemorragia cerebral. Mas
isso, claro, ninguém precisa de saber.
Apenas tu, poema, que vieste de comboio
confirmar dia após dia que o Tejo
está onde sempre esteve: triste, azul, parado.


....................................
[...]


Motet pour les trépassés, Língua Morta, Lisboa, 2011.

domingo, 10 de julho de 2011

RUI PIRES CABRAL

ENTRETANTO


Não há que ter ilusões:
nós também somos

o fim da nossa estrada.
Com estas mãos,

com este mesmo coração
é que chegamos

ao cabo do futuro,
à extrema situação

de que partimos.
Mas, entretanto,

escrevamos.


Público, Lisboa, 9 de Julho de 2011.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

JORGE ROQUE

VIOLA PARTIDA, 3



Agilidade técnica, destreza na rima, ouvido para o ritmo, instinto harmónico – e a morte, Doutor, e a morte? Como nas teclas os dedos do pianista, a posição exacta, momento, peso, a ascensão e queda de cada nota, o seu trajecto contra o silêncio que a revela – e a morte, Doutor, e a morte? Conhecimento dos poetas de outras épocas, genealogia da língua, amplitude e precisão do léxico – e a morte, Doutor, e a morte? Domínio pleno do instrumento, no fundo é disto que se trata, claridade da articulação, objectividade expressiva, intensidade interior, saturação lírica – e a morte, Doutor, e a morte?


Telhados de Vidro, n.º 15, Averno, Lisboa, Junho de 2011.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

ARMANDO SILVA CARVALHO

OS ÓCULOS DO SR. PESSOA


Ouvi hoje dizer que o poeta sr. Fernando
Pessoa operou uma ruptura
com a lírica tradicional.
Diziam também que pensou em inglês nirvânico
e fez do vocabulário lusitano
a sua pátria.
Tudo isso me parece perfídia
de quem não soube olhar na rua a sua voz.
O poeta sempre soube ser o máximo canibal
entre todos os homens.
Por vezes, o sr. Pessoa sentava-se nas poltronas
da impotência e deixava arder o vidro
dos seus óculos.
À luz que se acendia sucumbia.
E todas as palavras tremiam a um canto do mundo
cansadas do seu baile de máscaras.
O fulgor da catástrofe
não ofuscava ainda a miopia sábia
dessa estranha – pessoa.
Digam e propaguem isto em memória sua.
Que eu nunca fiz de coisa alguma
a minha pátria.


Os poemas da minha vida [de O livro de Alexandre Bissexto], org. Eduardo Lourenço, Público, 2006.

domingo, 26 de junho de 2011

E. M. DE MELO E CASTRO

SONETO SOMA 14X


1 4 3 4 2
2 3 3 0 6
4 1 6 1 2
3 2 2 1 6

5 0 0 1 8
2 1 2 5 4
1 4 0 1 8
3 2 4 1 4

3 1 2 3 5
5 4 1 2 2
3 0 4 2 5

4 3 3 1 3
5 1 2 1 5
8 9 3 5 3



Poemas portugueses: Antologia da poesia portuguesa do séc. XIII ao séc. XXI [de Poligonia do soneto], org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora, 2009.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

FILIPE HOMEM FONSECA

FAMÍLIA


avós pais filhos
irmãos primos e tios
gente que morre


Conta gotas, Tea For One, Lisboa, 2008.

domingo, 19 de junho de 2011

JOÃO ALMEIDA

O MILAGRE DE SÃO FRANCISCO


conto pelos dedos
ferramentas de urologia
relicários
um rim
um pôr do sol

no teu consultório sou sempre paciente
e tu entras a rir
ofereces-me um charuto
e uma caneta da propaganda médica
....
passou mais de muito tempo
e não escrevi nada
tenho boas manhãs
e sábados à noite para andar à procura

isso não chega para te meter o dedo no cu
também tenho disso respondes
vê lá por onde andas
e se te alimentas


Um milagre no caminho, Averno, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

ANA PAULA INÁCIO

[QUANDO M. ME ENVIOU SMS]


Quando M. me enviou sms
a perguntar plo programa de fim-de-semana
senti a angústia da página em branco de sexta-feira
do cronista de domingo
mas depois lá esbocei este plano,
mais uma mnemónica, diria:
1.º mastigar a angústia como uma chiclete
ao som dos Táxi da altura em que a cuspia
sem qualquer preocupação com a pegada ecológica;
2.º passar pela secção dos Perdidos e Achados da PSP,
do Metro e dos STCP para ver se encontraram um
coração que há dias que não sinto o meu;
3.º listar todas as músicas de língua inglesa
que expõem um broken heart no refrão;
4.º desfazer a máxima:
«Toi, tu est un blogueur.
Moi, je suis une blagueuse.» (que construí a pensar no O'Neill)
sentindo-me digna de uma serviçal de Penélope, que as devia ter,
escondidas nas dobras da história, como escrevi a Z;
5.º rever o filme de Eris Riklis e deixar-te
sobre a tua mesinha de cabeceira este bilhete:
«Não verei o limoeiro crescer!»


Aviso ao leitor: pode começar pelo último ponto, passar ao terceiro, eliminar o segundo e acabar no primeiro. Pode mesmo não sair do primeiro. Ou passar todo o tempo no terceiro. E, se chegou até aqui, pode mesmo ignorar este poema.


2010-2011, Averno, Lisboa, 2011.

domingo, 12 de junho de 2011

JOSÉ BENTO

[OS POEMAS QUE ESCREVAS]


Os poemas que escrevas,
ainda que muitos, são
um só, inacabável,
interceptado um dia:

sufocante abertura
por onde irás descendo
a um poço, uma vertigem,
com uma única saída

que, enfim, vislumbrarás
quando já não tiveres olhos.


Sítios, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

JOÃO MIGUEL HENRIQUES

LEMBRANÇA DA CASA


não esqueci ainda da casa
os contornos fundamentais

a solenidade da traça
o terraço solarengo
o pé-direito

ouço ainda a voz que lá ecoa
a inflamação do tempo
a reverberar nas portadas

conheço ainda da casa
a memória dos canteiros
e a placa de pedra com o seu nome
a inscrição de origens
que o pai mandou retirar
temendo a derrocada


Entulho, Arqueria, São Paulo, 2010.

domingo, 5 de junho de 2011

JOSÉ CARLOS SOARES

[NÃO VENHAS DEVAGAR]


Não venhas devagar
com tanta pressa. Deixa
que derrame a fome
nos quintais e a maldição

suspeite do suave
aroma do delírio. Envia
o que te sobra
ou rouba

o mais pequeno passo
por um fio.


Este perder-se [de Areia de Same], edição do Autor, Porto, 2011.

terça-feira, 31 de maio de 2011

TIAGO ARAÚJO

(ESTUDO DO ROSTO)


espelho meu, quem sou
eu? não tenho tido tempo para deixar a barba por fazer.
quanto ao resto, tenho a cara de sempre,
a que muda com os climas, e a mesma
necessidade de aperfeiçoar a técnica do
auto-retrato, de forma repetitiva e sem paixão,
para reconhecer um rosto que muda
com a luz e determinadas palavras.
foi assim que descobri esta tendência para
inclinar a cabeça para mais perto
de um dos ombros enquanto
morro,
por segundos, ao ler nesta descrição de livros alinhados
nas estantes, roupa dobrada nos armários, família
em volta da mesa, os princípios de uma ordem
provisória, que não sobreviverá sem mim
ou, no pior dos cenários, me sobreviverá,
afinal, com tudo o resto,
sem sobressaltos e uma memória
finita.

colecciono fotografias de família, vendidas em alfarrabistas
por pouco dinheiro, como prova de que estamos
a uma ou duas gerações do esquecimento.
invento dedicatórias, parentescos, datas e locais,
espalho-as em molduras pela casa para confundir visitas
e me vingar de uma memória que me atraiçoa sem descanso
porque
este rosto me levou mais de três décadas a destruir,
para agora abandonar à sua sorte, sem a gentil companhia de
desconhecidos, na descida aos infernos pelos túneis
das estações de metro ou num café quase vazio
de Alcântara, a meio da tarde, quando as mesas estão reservadas
........ para os
que não têm ocupação ou pressa. os jornais do dia no balcão e
na parede do fundo o espelho convexo em que
Parmigianino e depois Ashbery se viram
sozinhos, rodeados de objectos, e a certeza de mais uma
morte fixada em auto-retrato.


Resumo: A poesia em 2010 [de Criatura, n.º 5], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

sábado, 28 de maio de 2011

ROSA MARIA MARTELO

LÍRIOS


Um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada
outras mãos que não as minhas haverá para o recolher
outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.
Depois, nem isso.
Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos
como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos. Esse dia virá.
Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.
Ou quase assim.

Dispo agora toda esta roupa e escrevo
– sem frio nem perda nem desastre –
a partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso vivo da relva
uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro.


Público, Lisboa, 28 de Maio de 2011.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

TERESA M. G. JARDIM

LÂMPADA


Em torno de uma lâmpada de 60 W
como um pequeno insecto ataco as palavras,
vulnerável como um insecto
em torno de uma lâmpada de 80 W.



Resumo: A poesia em 2010 [de Jogos radicais], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

domingo, 22 de maio de 2011

RUI CAEIRO

O FÓSFORO


Já tens o cigarro preso nos lábios, buscas
o pau de fósforo que o acenda e justifique
Nesse preciso instante a garantia
do teu futuro ou a salvação da tua
alma não são, se é que alguma vez
foram, o problema crucial da tua vida
sequer uma questão prioritária, o magno
problema é o fósforo, mas onde pus eu
a caixa?, e quando por fim a encontras
se a encontras, extrais dela o almejado
couto de madeira, esfregas não tarda
a cabeça vermelha na lixa da caixa,
aproximas a chama do cigarro, sorves
com avidez e deleite – e essa coisa frágil
absurda, milagrosa, que uma vida
sempre é – e por que raio havia a tua
de ser diferente? – está nesse preciso
momento plenamente justificada.





Resumo: A poesia em 2010 [de Criatura, n.º 5], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

ANTÓNIO BARAHONA

ORIENTAÇÃO


Escrevi milhares de versos
para esquecer. Amei algumas mulheres
para lembrar. Agora já posso dizer
o som em carne viva.

A cidade assemelha-se a um acampamento
abandonado no deserto. Os nómadas
partiram nos seus camelos, com provisão
de tâmaras e água.
Há restos de detritos, sinais de trânsito,
folhas arrancadas a revistas pornográficas,
ao sabor do vento, por entre pétalas sêcas.

Há resíduos de sítios onde estive contigo,
fragmentos de versos de vidro, tudo
muito nítido, anotado, vincado a oiro.


O som do sôpro, Poesia Incompleta, Lisboa, 2011.

domingo, 15 de maio de 2011

HERBERTO HELDER

[OS CÃES GERAIS LADRAM ÀS LUAS]


os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora,
mas a gota de água treme e brilha,
não uses as unhas senão nas linhas mais puras,
e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia

..............................................................................[de ar e de areia
e de fogo,
e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento,
e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível
contra a turva sede da matilha,
com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, árduos buracos negros:
queres apenas
aquela gota viva entre as unhas,
enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros
à procura do ouro


Público, Lisboa, 14 de Maio de 2011.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

RENATA CORREIA BOTELHO

A SETA


para o meu pai

o tempo, espelho tosco com que
fintamos a morte, apontado para nós
como a lança do arqueiro;

hesita, por um instante apenas,
para depois avançar, implacável
e sem retorno, na nossa direcção.

mas a feroz verdade da seta
(a um brevíssimo suspiro do embate)
é aplacada pela memória,

um libertador bater de asas
que nos recolhe das águas
quando a tempestade nos arrasta.


Resumo: A poesia em 2010 [de Small song], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

sábado, 7 de maio de 2011

MANUEL DE FREITAS

PASTELARIA LUSÍADAS



para o Rui Pires Cabral

Não se explica, certamente,
o peso camoniano do primeiro
encontro, palavras sem açúcar
nem café. E logo nós,
tão avessos a soluços épicos,
ao rigor da claridade,
às fúteis manobras da sombra.
Logo nós, relógio esquecido nos bolsos.

Ficámos de regressar à música,
sem certezas. A não ser,
talvez, um prelúdio de Chopin
incapaz de desmentir a chuva
e o brusco entardecer de Alcântara.

Palavras; dobrada folha de zinco
separando-nos da morte.


Blues for Mary Jane, & etc, Lisboa, 2004.

sábado, 30 de abril de 2011

DIOGO VAZ PINTO

A ALGUNS GRITOS DE DISTÂNCIA

más allá de qualquier zona prohibida
hay un espejo para nuestra triste transparencia
Alejandra Pizarnik

I

A dois gritos e meio de distância
a surdez que se mancha
das cores que me sobraram. Sinto
com a voz, e esta só me dói quando fica
presa às coisas numa evasão
descritiva, palavras abertas
como lâminas sonhando junto
aos pulsos.

A sul disto não encontro mais nada,
só a boca escancarada do silêncio, suja
aos cantos de ideias que
se despenharam, e nós,
dois ou três ou mais, escrevendo
enquanto lhe apodrecemos
na garganta.

Sob sóis apagados, flores que bebem
no escuro, escutando, cheirando
estas mãos e aquilo que lhes dou, e nada
disto é ainda poesia, mau hálito tão-só.
Um eflúvio de frias imagens rente
ao torpor destes lábios. Já o sabes,
agora anda – faz-me o favor –
desvia-te que me aborrece ter que
arrastar também esses dois olhos.


Nervo, Averno, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

PAULO TAVARES

ÓRGÃOS VITAIS


Podes despir
esse vestido de serapilheira,
mostrar os restos podres da vindima
e dizer-me: «vês, morri».

Também eu fui
adormecendo, também eu tentei
reconstruir os órgãos vitais,
desenhar um a um os contornos do corpo,
embora me faltassem as ferramentas
para materializar o complexo circuito
da memória.

Agora, olhas-me
com os mesmos gestos estáticos,
enquanto o coração palpita noutro lugar
e a boca vai soltando larvas e morcegos.

Podes dizer-me que morreste.
Os mortos entendem-se bem.


Resumo: A poesia em 2010 [de Minimal existencial], org. José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.